'Era como entrar em um filme em preto e branco'
Aposentada brasileira que vive na cidade de Colônia relembra visita ao lado ocidental de Berlim
"Fui a Berlim pela primeira vez com alguns amigos em fevereiro de 1968. Ficamos três dias hospedados no lado ocidental da cidade e conhecemos, de ônibus, os principais pontos até o Estádio Olímpico. Lembro-me que o ônibus parou em um ponto do muro em que havia uma escadinha para a gente subir e bisbilhotar a Berlim Oriental. E tiramos uma tarde - era só isso que era permitido mesmo - para visitar o 'outro lado'.
Não passamos pelo Chekpoint Charlie, fomos de metrô e descemos na Friedrichstrasse, onde havia o controle de fronteira. A experiência de passar de um lado para o outro foi uma coisa muito especial. Os oficiais eram muito rigorosos e o processo, demorado. Olhavam nossos passaportes duas, três vezes e tínhamos que ter, obrigatoriamente, cinco marcos orientais. Lembro disso porque ficamos procurando uma lanchonete para gastar aquele dinheiro.
Enquanto a Berlim ocidental já era dinâmica, com prédios enormes, teatros e grandes comércios, ultrapassar a fronteira era como entrar em um filme em preto e branco. Naquele lado tudo era cinzento, escuro, cheio de ruínas. Todos os clichês que escutávamos estavam realmente ali. Havia ainda muitas lembranças da guerra, como prédios destruídos e janelas tapadas. E as pessoas eram assustadíssimas, tinham receio do contato com estrangeiros. Quando pedíamos alguma informação, só faziam um sinal negativo com a cabeça e seguiam em frente.
Caminhamos da Unter den Linden até a Universidade Humboldt. A única coisa que se destacava ali era essa avenida. Ela era o cartão de visita da RDA, vistosa, com prédios modernos e um hotel de luxo.
Em fevereiro deste ano voltei a Berlim e tentei passar novamente pelas ruas por onde andei naquela viagem. Não há nada mais que remeta àquela época, tudo foi remodelado, reconstruído. A antiga terra de ninguém é hoje ocupada por edifícios modernos. Reconheci apenas um dos belos prédios da Unter den Linden - aquele hotel de luxo não está mais lá. Todos os vestígios daquela história foram apagados. Você fica procurando onde era o Muro, afinal."
Laís Kalka, aposentada brasileira, moradora de Colonia (Alemanha)
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