Europa no inverno: manual de instruções
Você viu no noticiário: a Europa registrou um dos dezembros mais frios dos últimos tempos. Até cidades onde dificilmente neva, como Londres e Paris, viveram um raríssimo Natal branco. O mau tempo causou a paralisação de aeroportos e interrompeu o funcionamento de algumas rotas de trem.
Para muitos brasileiros, o frio incessante desta época é um atrativo extra para viajar à Europa: a experiência fica ainda mais intensa. Outros viajam agora porque não têm alternativa: só podem ir nas férias escolares e encaram o frio como um desafio. Há também aqueles que, podendo escolher entre julho e janeiro, acreditam que enfrentar o calorão do verão seja mais penoso que se sujeitar às baixas temperaturas do inverno.
As vantagens. A maior felicidade à espera de quem viaja à Europa nesta época é a baixa densidade demográfica. Haverá bem menos turistas disputando espaço com você nas ruas (e nos museus e demais atrações). O frio espanta não só as massas, como também os vendedores de quinquilharias e souvenirs. Na semana entre o Natal e o réveillon isso é menos verdadeiro, mas durante janeiro, fevereiro e março, espere dividir a Europa com menos colegas forasteiros. Por causa disso, os hotéis ficam mais em conta; é nesta época que aparecem as melhores ofertas (a exceção, evidentemente, fica por conta das estações de esqui). Para quem viaja para comer e beber, o inverno é perfeito: mais do que em qualquer outro momento do ano, a mesa é um grande programa.
As desvantagens. Os dias são mais curtos, diminuindo o seu tempo útil para sightseeing nos tradicionais pontos turísticos (dezembro é o pior mês; março tem mais horas de luz). Os dias nublados parecem ainda mais cinzas e tristonhos do que no resto do ano. O frio faz a Europa das mesas na calçada desaparecer de vista. As longas caminhadas deixam de ser um prazer e podem virar um suplício. Como se viu, nevascas podem trazer o caos aéreo (e às vezes, ferroviário) sem aviso prévio. Dirigir exige mais paciência, destreza - e, na montanha, correias.
Adapte-se à estação. O segredo de viajar pela Europa no inverno é não tentar reproduzir a clássica viagem da primavera, com roteiro picadinho, repleto de passeios ao ar livre e paradas em cidades pequenas. Vista a sua viagem com as mesmas roupas quentinhas que você vai usar. A seguir, algumas sugestões para você fazer uma bela viagem apesar do frio:
Essencial: Pés secos, extremidades aquecidas. Calçados impermeáveis são o item mais importante do seu vestuário. É um conselho difícil de ser seguido por mulheres, mas a verdade é que pés molhados e gelados são uma tortura (e uma porta aberta para a gripe). Luvas e gorro também são essenciais. E seu casaco precisa ser impermeável. Não exagere na estratégia cebola ou você vai ter que se livrar de várias camadas sempre que entrar nos ambientes fechados, que são aquecidos. Roupa de baixo colada no corpo, suéter de lã e um bom casaco devem ser suficientes (de novo, desde que você use luvas e gorro). Se quiser já sair do Brasil com roupas adequadas, passe numa loja de produtos para esportes de ação, como a Decathlon.
Privilegie cidades grandes: Pense que a sua viagem vai ficar mais confortável quanto maior for o número de atividades em ambiente fechado que você consiga fazer. E nisso as cidades grandes são insuperáveis. Com exceção das estações de esqui e, em dezembro, das cidadezinhas com os tradicionais mercados natalinos, os pequenos vilarejos simplesmente hibernam durante todo o inverno.
Inclua cidades que ficam abarrotadas no verão: O inverno é uma época excelente para visitar destinos que ficam intransitáveis em tempo ameno, como Praga, Veneza e Roma. O raciocínio, porém, não vale para lugares em que o calor e o movimento do verão fazem diferença, como Barcelona, Costa Amalfitana e Grécia.
Viaje em dezembro para os mercados natalinos: A Europa Central comemora o Natal com mercados gostosíssimos. É o tipo de experiência que redime todas as dificuldades de viajar nesta época. Tente trocar a viagem de janeiro por duas semanas em dezembro, colocando a Alemanha no roteiro.
Invista um pouco mais em hospedagem: Você vai ficar mais no quarto. Ou, no mínimo, vai querer um pouco mais de aconchego sempre que voltar. Por isso, vale a pena considerar hotéis na faixa mínima de 150. Para estadas a partir de cinco dias, alugar apartamento é ideal.
Saia do hotel sabendo onde vai comer: O inverno rigoroso não é uma época apropriada para escolher restaurante ao acaso, na base da intuição. Faça o seu dever de casa e estude onde vai fazer as refeições e como se chega: ninguém merece rodar ao léu no frio e com fome.
Vá devagar: O inverno deixa você naturalmente mais lento. Vá com tempo sobrando e usufrua da preguiça que o frio traz. Sua viagem fica muito mais gostosa quando você não abusa do organismo e segue o ritmo da estação.
Quer passar menos frio? Vá à Península Ibérica: O inverno em Portugal e em partes da Espanha (Catalunha, Andaluzia) não é lá muito mais rigoroso que o do Sul do Brasil (mas em Madri faz bastante frio). Em Portugal o maior empecilho é a chuva, que costuma ser intermitente, sobretudo no norte. Já a Andaluzia é um grande destino de inverno, com dias mais secos e temperaturas amenas, que podem chegar perto dos 20 graus (há quem diga que esta é a melhor época do ano para ir a Sevilha).
Internet para viagem
O twitter oficial da Organização Europeia para o Controle da Navegação Aérea, com sede em Bruxelas, informa em tempo real sobre problemas meteorológicos, fechamentos de aeroportos e atrasos em cascata. Se você vai viajar para a Europa no inverno, siga o perfil @eurocontrol e não fique desinformado
Dossiê
Dobradinha turismo + esqui
Andaluzia + Sierra Nevada
A 100 quilômetros de Granada, Sierra Nevada é um excelente desfecho (ou início) de um tour pela Andaluzia. Inclua Sevilha, a rota dos Pueblos Blancos na Serra da Grazalema, e o Alhambra, fabuloso palácio mouro de Granada.
Barcelona + Andorra
No coração dos Pirineus, Andorra costuma estar nas excursões que querem contabilizar mais um país da Europa com pouco esforço. Mas é no inverno que o principado oferece sua principal atração: 90 quilômetros de pistas de esqui entre pinheiros, a 200 quilômetros de Barcelona.
Munique + Garmisch
A estação de Garmisch-Partenkirschen fica praticamente no quintal de Munique: o trem até lá leva apenas 1h30 (não tente ir de carro; os engarrafamentos nesta época são frequentes). Füssen, onde está o castelo de Neuschwanstein, fica próximo: 2 horas de ônibus.
Veneza + Cortina
Veja você: a mais famosa estação de esqui italiana, Cortina d’Ampezzo, está a meras 2h30 de trem a partir de Veneza. Mais um motivo para você programar um inverno na Sereníssima. Os Dolomitas, onde está Cortina, também são famosos pelas festas natalinas, na tradição austro-alemã.
Telma Luísa
A mulher que nasceu para viajar
"Chéri, o inverno europeu tem um dos dias mais quentes do ano para a mulherada: é a Quinta-Feira das Mulheres, que dá início ao carnaval em várias cidades da Alemanha. A mais animada é Colônia: na quinta-feira, a gente tem carta branca para beijar qualquer homem que esteja no nosso caminho. É melhor que Salvador! Quero beijar muuuuuito!"
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