'Falhei com Kennedy'

Quase 50 anos depois do assassinato do presidente, um de seus guarda-costas não consegue se livrar do sentimento de culpa

CHRISTIAN CARVALHO CRUZ,

27 Novembro 2010 | 15h28

Hill correu a 24 km/h para alcançar a limusine presidencial em movimento. Quando chegou, o tiro fatal já tinha acertado o alvo

 Onde você estava quando mataram o presidente John F. Kennedy, dos Estados Unidos? A pergunta vale, obviamente, para quem já tinha idade para estar em algum lugar em 22 de novembro de 1963. Mas isso não muda muita coisa no que temos para contar. É comum lembrarmos os grandes acontecimentos da História associando-os a nossa própria existência. Não há presunção nisso. Simplesmente gostamos de pensar que “sim, de um jeito ou de outro eu fiz parte”. E nosso cérebro parece gravar melhor as reminiscências ligadas a uma forte descarga emocional. Pois então, onde você estava quando Paolo Rossi despachou o Brasil da Copa de 82? Quando a Williams de Ayrton Senna desgarrou da Tamburello? Onde estava quando as Torres Gêmeas ruíram? Onde você estava quando mataram John F. Kennedy?

Clinton Hill estava onde gostaria de nunca ter estado: de pé, no estribo esquerdo do carro que vinha logo atrás da limusine presidencial pelas ruas de Dallas naquele terrível fim de manhã. Hill, um ex-militar do Exército de 31 anos, era um dos agentes do serviço secreto responsáveis pela segurança de JFK – no caso específico dele, da segurança da primeira-dama Jacqueline. E ao contrário da maioria de nós ele detesta se lembrar de onde estava quando o grande momento histórico de sua vida aconteceu bem diante de seus olhos. Ainda hoje, quase meio século mais tarde, Hill sofre de um agudo sentimento de culpa. “Não fui capaz de fazer meu trabalho, que era proteger o presidente e a sra. Kennedy”, ele conta, por e-mail, de sua casa na Virgínia. “Eu era o único agente em condição de fazer algo. E falhei. Não fui rápido o suficiente.”

Hill é o homem de preto que, nas fotos do dia e também no famoso filme caseiro do imigrante ucraniano Abraham Zapruder, aparece saltando sobre a rabeira da limusine em movimento após os disparos contra a comitiva. Foram poucos segundos, porém intermináveis para Hill, que fala deles como se durassem até hoje:

“Eu ouvi um estampido atrás de mim, à direita. Virei para aquela direção e quando meu olhar cruzou o veículo presidencial eu vi o presidente segurando a garganta e seu corpo caindo levemente para a esquerda. Percebi que algo estava errado. Saltei do estribo do carro da escolta e corri. Eu queria alcançar a limusine para me colocar entre o atirador e o presidente e a sra. Kennedy. Enquanto eu corria, disseram que houve um segundo tiro, mas eu não o ouvi. Quando finalmente os alcancei, um terceiro tiro foi disparado. Ele acertou a cabeça do presidente, acima da orelha direita. Sangue, fragmentos de osso e de massa encefálica se espalharam sobre a traseira do carro e sobre mim.

Tentei subir na traseira da limusine. O motorista acelerou, eu escorreguei e tive que pular para chegar lá. A sra. Kennedy estava saindo para o porta-malas para tentar apanhar os pedaços da cabeça do presidente. Ela estava coberta de sangue e não percebeu que eu estava ali. Agarrei-a e a coloquei de volta no seu lugar. O presidente caiu para a esquerda, no colo da sra. Kennedy. Pude ver um grande buraco na parte superior e posterior da cabeça dele. Seus olhos estavam fixos. Com o polegar voltado para baixo, notifiquei os outros agentes do carro da escolta que a situação era muito ruim. Posicionei-me do melhor jeito que pude para evitar que outros disparos atingissem os ocupantes da limusine. O motorista acelerou rumo ao hospital.”

Silêncio quebrado. Aos 78 anos, Hill volta agora a falar do assunto por conta do lançamento do livro The Kennedy Detail, escrito por um colega seu, o também ex-agente de segurança de JFK Gerald Blaine e pela jornalista Lisa McCubbin. Ele estava calado desde 1975, quando expôs seu sofrimento numa emocionante entrevista ao jornalista Mike Wallace, do programa 60 Minutes. “Jamais discuti o assassinato com minha mulher, meus filhos ou meus netos. Em vez disso, busquei refúgio numa garrafa de bebida e nos antidepressivos. Só parei de beber em 1982 por recomendação de meu médico e faz algum tempo que não me sinto deprimido”, contou Hill ao Estado.

Naquela entrevista de 1975, entretanto, ele era um caco humano. De olhos rasos e alma pesada, disse com todas as letras a um incrédulo Wallace: “A culpa foi minha”. Ele mal prestou atenção na ressalva que o apresentador fez sobre o fato de ter sido condecorado por bravura. “Eu não dou a mínima, Mike. Se tivesse reagido um pouco mais rápido... Se eu pudesse... Eu acho... E levarei isso para a sepultura.” Hill correu a 24 km/h naquele dia – nada mal para quem estava de terno, gravata e sapato (o velocista jamaicano Usain Bolt atinge 44 km/h nos 100 metros rasos). Mas ele continua não dando a mínima. Dos 34 agentes encarregados de proteger JFK 24 horas por dia nenhum padeceu tanto pela sua morte quanto Clinton Hill. Ele só conseguiu pôr os pés em Dallas novamente em 1990, numa viagem com sua mulher. Caminhou em todos os lugares entre as Ruas Houston e Elm, palco da tragédia. Levou tudo em consideração. “E finalmente comecei a perceber que naquele dia de novembro de 1963 o atirador tinha todas as vantagens sobre nós. Contudo, eu continuava com aquele sentimento de culpa por ter falhado. Até hoje sonho com aquilo, embora menos do que antigamente.”

Hill, que deixou o serviço secreto em 1975 e tentou “uma série de negócios sem muito sucesso”, assina o prefácio e é protagonista de três capítulos do livro de Blaine. Não há revelações inéditas ali, tampouco detalhes picantes da intimidade do primeiro-casal. Para o leitor, porém, valem como ouro em pó os vívidos relatos de quem se viu engolfado pelo turbilhão. E para os agentes que se fazem ouvir vale a oportunidade de “colocar alguns pingos nos is”, como diz Blaine. Também com 78 anos e vivendo no Colorado, ele explica: “A história vem sendo contada de maneira amadora pelos adeptos da teoria da conspiração. Eles acusam os agentes de serem incompetentes e até cúmplices do assassinato de Kennedy. Segundo um levantamento do USA Today, 82% dos americanos entre 18 e 29 anos acreditam atualmente que houve uma conspiração. Se continuássemos calados, em breve ninguém mais acreditaria no que de fato ocorreu.”

Para Blaine, que se retirou do serviço secreto em 1964 e foi trabalhar como diretor de segurança da IBM, o que ocorreu foi a versão oficial mesmo: posicionado na janela do sexto andar do depósito de livros escolares de Dallas, um maluco solitário chamado Lee Harvey Oswald (que acabou morto 48 horas depois) fez todo aquele estrago na história americana. “Não houve conspiração. Nós pesquisamos tudo. Meus colegas ex-agentes foram para o porão de suas casas abrir caixas em busca de diários, anotações, relatórios. Eu mesmo passei um bocado de tempo no Arquivo Nacional pesquisando. O livro é factual de capa a capa. Escrevê-lo fez parte de nosso processo de cura, afinal nenhum de nós recebeu nenhum tipo de ajuda psicológica por parte do governo em todos esses anos.” Para os defensores da ideia de que a máfia, os exilados cubanos, os militares, a CIA e a indústria bélica se uniram para dar um golpe de Estado, eliminando Kennedy, o livro de Blaine não passa de uma tentativa de os ex-agentes tirarem o seu da reta, agora que estão no fim da vida. Blaine não encomprida o assunto: “Assassinatos são cometidos por sociopatas ou pequenos grupos radicais, não por instituições ou agências do governo”.

No dia seguinte à morte de Kennedy, Blaine já estava na Casa Branca para servir ao novo presidente, o ex-vice Lyndon Johnson. E por pouco não se viu metido num pesadelo ainda pior. É ele quem conta: “Nós não tínhamos a menor ideia do que realmente se passara em Dallas. E ainda não havia procedimentos de segurança acordados com Johnson. A tensão estava por todos os lados. À noite, ele saiu de casa para caminhar e foi para um lugar onde Kennedy não costumava ir. Ouvi um barulho, peguei minha metralhadora Thompson, destravei-a e coloquei-a em posição de tiro, com o dedo no gatilho. De repente reconheci a silhueta de Johnson na escuridão. Eu estava tão cansado que achei que podia estar tendo alucinações. Desarmei a Thompson e a deixei num canto bem longe de mim...”

Happy Birthday, Mr. President. Outra passagem da qual o ex-agente faz questão de se lembrar é onde estava quando Marilyn Monroe cantou o Parabéns a Você mais delicioso de todos os tempos, especialmente dedicado a Kennedy, o “Mr. President”, no aniversário de 45 anos dele, em 1962. Blaine estava lá, oras, no Madison Square Garden, em Nova York. “Foi uma visão que nunca vou esquecer. Ela era o sexo em pessoa. Coloquei essa história no livro porque eu estava com o presidente nas duas vezes em que ele viu Marilyn, em 1961 e 1962. E garanto que em ambas ele deixou o local antes dela.”

Clinton Hill, por sua vez, esteve sempre mais perto de Jacqueline. Ele começou no serviço secreto em 1960, como guarda-costas da sogra do Mr. President da vez, Dwight Eisenhower. Quando Kennedy assumiu, um ano depois, Hill foi imediatamente designado para proteger a nova primeira-dama e seus dois filhos, Caroline e John John. Eram cinco agentes nesse trabalho. Cuidar de Jacqueline e das crianças era um serviço mais leve do que cuidar do presidente, embora JFK tivesse fama de ser cordial com os agentes (em tardes de sol insuportável, mais de uma vez ele distribuiu camisetas suas aos rapazes em Hyannis Port, a casa de verão dos Kennedys). “Com a sra. Kennedy havia mais informalidade e flexibilidade”, Hill relembra, acrescentando que, apesar disso, sempre se dirigia a ela usando “Mrs. Kennedy” e ela sempre o chamava de “Mr. Hill”. O que gerava situações e diálogos engraçados, como quando nossos congressistas resolvem se xingar tratando uns aos outros por “Vossa Excelência”. Jackie fumava escondida, diz Hill. “Muitas vezes nós estávamos no carro e ela dizia: ‘Mr. Hill, o senhor me daria um cigarro?’ Eu acendia e passava para ela. Se alguém aparecia ela passava imediatamente o cigarro para mim. Acabei me tornando um fumante.”

Um mês antes do assassinato de Kennedy, Hill estivera com Jackie num tour pelo Mediterrâneo a bordo do iate do armador grego Aristóteles Onassis, que viria a ser o segundo marido dela. Era uma viagem sara-depressão, porque a primeira-dama estava no fundo do poço depois de perder um bebê de apenas dois dias, no começo daquele ano. Hill, que abandonou seu dia de folga para correr à maternidade e chegou lá antes do presidente, escreveu: “Eu me senti como se tivesse perdido um filho meu”. A carreata em Dallas, além de completar o processo de recuperação de Jacqueline, fazia parte da primeira viagem política da primeira-dama ao lado do marido. E se tornaria a última. Hill se lembra, naquela manhã, de ter ido ao quarto dela no Hotel Texas para acompanhá-la à sala de desjejum, onde Kennedy estava discursando. “Ela estava bem disposta e ansiosa. Tinha escolhido uma roupa cor-de-rosa combinando com o chapéu, parecia muito chique.” Era a mesma roupa que Hill veria coberta de sangue horas depois, dentro da limusine presidencial. O trajeto para o hospital foi feito praticamente em silêncio. Hill conta que Jacqueline lhe pediu para tirar o paletó e cobrir a cabeça e o tórax de Kennedy. E de ter repetido baixinho para o marido morto: “Oh, Jack, o que eles fizeram? Oh, Jack, o que eles fizeram?” Clinton Hill, atormentado desde então, estava lá,

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