Fundamentalismo de mercado
Há um nexo entre o 11/9 e a atual crise nos EUA: ele está na habilidade dos conservadores de usar, para impor sua agenda, a 'guerra contra o terror' e a sensação de vulnerabilidade que os atentados trouxeram
Um dia que amanheceu luminoso, sem uma nuvem no céu, e virou um pesadelo. Dez anos depois, a imagem mais forte que guardo da tragédia que mudou a geografia de Manhattan e estremeceu a alma americana reaparece hoje ampliada na realidade de uma nação que, embora próspera, criativa e sempre promissora, vê-se mergulhada em profunda crise econômica e numa paralisante cisão política interna que alimentam forte sensação de declínio. É um cenário que talvez o próprio Osama bin Laden, o autor intelectual dos ataques do 11 de Setembro, tivesse dificuldade de imaginar.
É exagero buscar relação direta de causa e efeito entre o atual estupor da nação americana e os atentados e as respostas que Washington deu a eles em duas guerras declaradas e uma guerra secreta contra o "terror", de altíssimo custo financeiro e político: um rombo de US$ 4 trilhões nos cofres públicos, a reversão de décadas de conquistas de direitos civis, o abandono de preceitos básicos da pregação do país sobre a primazia dos direitos humanos e uma forte perda de credibilidade e respeito aos olhos do mundo.
A invasão do Iraque, em 2003, talvez tivesse ocorrido mesmo sem o pretexto dos ataques contra as torres gêmeas e o Pentágono. A tóxica polarização que hoje dificulta o convívio social entre políticos republicanos e democratas é anterior ao 11 de Setembro. Começou nos anos 90, quando os conservadores tomaram o controle do Congresso sob a liderança de Newt Gingrich e passaram a alterar as regras de delimitação dos distritos eleitorais, criando uma espécie de apartheid político entre republicanos e democratas cada dia mais radicais - um desenho que reduziu drasticamente o espaço para os centristas, sem dúvida hoje uma espécie em extinção.
A crise econômica vem de antes ainda. Sua raiz está na revolução conservadora iniciada em 1981 com a ascensão de Ronald Reagan e a adoção de um fundamentalismo de mercado que seria reafirmado dez anos depois pelo democrata Bill Clinton em nome da revolução tecnológica e da globalização dos mercados, com efeitos que hoje afligem o país: a abertura de um crescente fosso de renda na sociedade, o maior do mundo rico, numa nação que se crê igualitária; a desindustrialização, com transferência do setor produtivo, de parte dos serviços e de milhões de empregos para uma China ascendente; o advento de uma engenharia financeira movida pela ganância, desimpedida por regulação e legitimada por nomões da academia que se prestaram ao papel de analistas de aluguel, prontos a aspergir pozinho de pirlimpimpim sobre ativos podres e dar-lhes a melhor classificação de risco de crédito disponível no mercado, contribuindo para gerar bolhas financeiras. Como sabemos hoje, a engenharia era ruim, a bolha furou e a casa caiu em setembro de 2008, escancarando uma crise fiscal e uma dívida que vinham se agigantando havia anos. O título do último livro do colunista Thomas Friedman, do The New York Times, escrito em parceria com Michael Mandelbaum, da Johns Hopkins, resume o drama: That Used to Be Us: How America Fell Behind in the World It Invented and How We Can Come Back.
Há certamente um nexo entre o 11 de Setembro e o que veio depois. Ele está na habilidade política que os conservadores demonstraram de usar a "guerra ao terror" e a sensação de vulnerabilidade que os atentados trouxeram aos americanos para impor sua agenda ao país. O fenômeno é tão forte que Barack Obama, cuja surpreendente eleição à Casa Branca em novembro de 2008 foi ato de repúdio ao extremismo republicano dos anos de George W. Bush, sucumbiu à agenda conservadora, alienando simpatizantes e aumentando a perplexidade que os Estados Unidos pós-11 de Setembro causam no mundo.
Esta não é a primeira vez que a América enfrenta crise dessa magnitude. O pânico financeiro dos anos de 1890, quando o país emergia na cena internacional, a Grande Depressão dos anos 30 do século passado, após o colapso da Bolsa de Nova York, e novamente os choques do petróleo da década de 1970 foram períodos de calamidades políticas e econômicas comparáveis à de hoje. O país emergiu mais forte de todas elas. Não faltam aos EUA capital humano, capacidade tecnológica e os demais atributos e recursos necessários para reinventar-se mais uma vez. Estudiosos do assunto, como o jornalista Don Peck, da revista The Atlantic, lembram, contudo, que em períodos como o atual as fissuras aumentam na sociedade americana, provocam mudanças que perduram por décadas após o fim da crise que as gerou e, eventualmente, transformam a cultura.
PAULO SOTERO É JORNALISTA E DIRETOR DO BRAZIL INSTITUTE DO WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS, EM WASHINGTON. COBRIU O 11 DE SETEMBRO COMO CORRESPONDENTE DO ESTADO NOS EUA
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