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Luiz Horta
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Harmonizando Romanée- Conti com cupim e pequi

Em São Paulo, Aubert de Villaine foi ao D.O.M. e falou de seu famoso vinho

08 de novembro de 2007 | 4h 42
Luiz Horta - O Estado de S.Paulo

Imagine um mapa. Risque nele um quadrado de 150 m em cada lado, descrito assim pelo preciosista Clive Coates: ''''Circundado pela Grande-Rue ao sul e Richebourg ao norte e Romanée-Saint Vivant a leste.'''' Nestes três lados tem um muro baixinho de pedra. Só um caminho separa Romanée-Conti de La Romanée, um pouco abaixo na encosta.

A altitude está entre 260 e 275 m, inclinados a 6°, que permitem drenagem perfeita e uma exposição maravilhosa ao sol. O solo é argiloso, numa mistura equilibrada de areia e argila, com a presença de fosseis oceânicos.

Será que plantando Pinot Noir num terroir semelhante teremos também um Romanée-Conti? A resposta infelizmente é não. Daí a raridade destas pouco mais de 5 mil garrafas produzidas anualmente (a quantidade que chega ao Brasil não é revelada). Primeiro porque a seleção das videiras perfeitas a serem usadas aí levou 800 anos e foi feita sem estudos geológicos ou botânicos, na tentativa e erro, começando pelos monges cistercienses, sempre eles. Dali já saíram até hoje 54 diferentes tipos da uva Pinot Noir. Depois porque um grande vinho é mais complexo que o conhecimento do seu ambiente. E ainda há que levar em conta a personalidade dos envolvidos.

Quem não se lembra da cena constrangedora, para os invasores, é claro, no filme Mondovino? Aubert de Villaine dando um sermão de gelar os ossos em um americano folgado que estava comendo as uvas que virarão nalgum momento o sumo da região, talvez do mundo, o DRC, o Domaine de la Romanée-Conti.

Aubert de Villaine, que esteve esta semana em São Paulo, é assim. Parece ser um homem austeríssimo, os sorrisos raros. Poderia descrevê-lo como de taninos potentes, embora disfarçados pela elegância. Mas que no meio do almoço propõe tirar o paletó (todo mundo de escuro, mesmo sendo de manhã; há certas degustações que convidam a uma certa solenidade). Não é preciso esforço algum para imaginar os anos difíceis, décadas, na realidade, em que dividiu o comando da casa com Madame Leroy, a esfuziante e nada mansa Lalou Bize-Leroy. Jancis Robinson a chama de rainha da Borgonha, e se assim o é, foi destronada sem piedade por este enigmático cavalheiro de estilo clássico ajudado pela irmã dela. Ele nega: ''''Lalou continua co-proprietária da empresa e parte decisiva na nossa história.'''' Ela, biodinâmica radical, ele, adepto da prática orgânica, sem a paixão missionária de Leroy, Joly e tantos outros. Perguntado a respeito do cardápio que acompanhou seus vinhos, um menu-degustação de primeira de Alex Atala, até mesmo com um prato novo, um ''''falso queijo'''' de castanha-do-pará, diz que achou muito bom. ''''Os pratos falaram com os vinhos e estes responderam'''', diz, com o cardápio em mãos para procurar os nomes que quer dizer. ''''Estou em busca do melhor marriage que tivemos no almoço; na minha opinião, foi o confit de pato ao vinho madeira e pimenta verde com o Richebourg 2004''''. Mas o ''''robalo ao tucupi e tapioca andou muito bem com o Romanée-Saint-Vivant'''', conclui. É de mencionar o encontro de um cupim com purê de batata e pequi com estes vinhos, seguramente uma das poucas vezes em que pequi, cupim e Romanée-Conti se encontraram, levando em conta a colorida descrição de Monsieur. Que terão conversado?

Sobre a eterna clivagem Novo e Velho Mundo, desdenha: ''''Minha mulher é americana, sou sócio da vinícola da família dela, a Hyde, e produzo com eles Chardonnay, Merlot e Syrah.''''