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Já conhece os biodinâmicos?

Aparentemente, é uma mistura de ciência e magia. Eles trabalham com arado puxado a burro, cristais, minhocas, pássaros. Mas quem vaticinou vida curta para o movimento dos vinicultores biodinâmicos, errou. O que antes era só francês vem se expandindo

24 de abril de 2008 | 4h 00
Luiz Horta, de O Estado de S.Paulo

Esqueça as pontuações de Robert Parker e as jogadas financeiras de Bordeaux. Nesta feira as frases mais ouvidas serão do tipo ''a lua estava na fase minguante'' ou ''só uso leveduras indígenas''. As pessoas falarão em cristais e chás, mas não se trata de um bando de esotéricos calçando sandália birkenstock com meia e trocando apertos de mão rituais. São eles os vinicultores biodinâmicos, seguidores das lições sobre agricultura dadas pelo pensador austríaco Rudolf Steiner quase cem anos atrás, que se ocupam em aplicar as noções da antroposofia ao trato dos vinhedos.

A idéia por trás dessa aparente mistura de ciência e magia incomoda muita gente, o que não espanta nos tempos tão cartesianos da pós-modernidade. Mas muitas práticas têm sentido, como o uso de infusões para equilibrar deficiências de nutrientes, ou a manutenção de uma fauna variada na área dos vinhedos, permitindo que insetos nocivos sejam predados por seus inimigos naturais. Outras tocam na poesia, como enterrar um úbere de vaca cheio de flores que parecem o sol no período do inverno, para que esse sol simbólico mantenha as vinhas até a primavera.

Os detalhes todos podem ser lidos no livro Vinhos: do Céu para a Terra, do grande divulgador do movimento, Nicolas Joly, que fundou e dirige a associação Renaissance des Appelations. O livro será lançado em breve no Brasil. Mas mesmo um autor científico importante como Jamie Goode, no seu livro Wine Science, investiga e admite que haja mais verdade nas práticas aparentemente amalucadas dos biôs do que parece.

Quem vaticinou vida curta para o movimento e a pregação de Joly errou. O que era algo puramente francês, exclusivamente localizado na Alsácia, Borgonha e Loire, expandiu-se para regiões difíceis pelo clima para práticas orgânicas, como Bordeaux e Champagne (o champanhe Fleury, premiado e delicioso, desmente a impossibilidade de fazer um dessa forma e com expressão de sua origem), e para países inesperados como Austrália e Portugal. E continua crescendo.

Seja como for, aceitemos ou não as posições excêntricas - no sentido de fora do convencional - dessa agricultura peculiar, os vinhos estão aí para serem provados e avaliados, fazendo com que lembremos, na nossa desconexão urbana com o mundo natural, que vinho é produto da terra e alimento, capaz de refletir as variações climáticas e geológicas a que é exposto o tal de terroir, palavra tão repetida que quase perdeu o sentido.

Vale lembrar o que disse aqui Jean-Michel Deiss, dois anos atrás (ele também estará na degustação com o Domaine Marcel Deiss): ''Precisamos reencantar os vinhos.'' A chance de provar vinhos feitos assim e compará-los com os de agricultura tradicional - de pesticidas e fertilizantes e em escala industrial - é única. A degustação ocorre em cidades escolhidas. Depois de Ontário, Montreal e Dusseldorf , é a vez de São Paulo.

Anote estes nomes

Nikolaihof Wachau

É um dos grandes produtores austríacos, com alguns vinhedos considerados grand crus. A Riesling adquire ali sua nuance local, com aroma de pêssegos frescos e intensa mineralidade. Vinhos assim tão finos e focados são raros em qualquer lugar. Seus Gruner Weltliners Smaragd são perfeitos. Aulas desta uva autóctone. A vinícola é uma das estrelas da feira - e a própria Christine Saahs, proprietária, estará aqui.

Domaine A&P de Villaine

A é Aubert e P sua mulher, Pamela, ele sendo mais conhecido pelos Romanée-Contis. Aqui, no seu projeto pessoal, sem o peso dos vinhos ícones, produz borgonhas acessíveis, com o mesmo padrão de qualidade e elegância e um curioso Bouzeron Aligoté com uma uva menosprezada.

Alsácia

A região mais propícia às práticas biôs comparece com uma seleção de cair o queixo: nomes como Zind-Humbrecht, Deiss, Zusslin, Ostertag, Frick, Josmeyer, Kreyndenweiss, e todas as possibilidades da Riesling, Gewürztraminer , Sylvaner e Pinot Gris.

Champagne Fleury

É a prova de que champanhes podem ser eloqüentes e cheios de personalidade, e não os vinhos padronizados que vão se tornando. Fleury evolui com graça, tem enorme expressão de terroir, mineralidade, acidez brilhante. Cada garrafa é um acontecimento. Para quem estava desanimado achando que champanhe saía de um contêiner gigante e entediante, eis a epifania, the real thing. Quem comparece pela família é Morgana Fleury.

Loacker Tenute

Naquela região italiana que fala também alemão, tem clima alpino e belos vinhos brancos, o Alto Adige, há um pioneiro das práticas biodinâmicas. A família inteira se dedica aos vinhos, alguns deles com grande personalidade.

Coulée de Serrant

Os vinhos de Nicolas Joly, para a prova de que ele sabe fazê-los de verdade - a Chenin Blanc elevada a uma complexidade diferente, com uma parte pequena de uvas botritizadas -, não são vinhos evidentes e precisam tempo para se exibirem inteiramente. São deliciosos com comida e surpreendem à mesa, pela versatilidade. Mesmo os mais simples, como os Roches-aux-Moines, são longevos e potentes, no bom sentido. Os Clos de Coulée de Serrant são assombrosos.

Léon Barral

Solo de xisto, clima mediterrâneo, uvas Carignane, Mourvèdre, Grenache e Syrah. Já dá para se imaginar um vinho voluptuoso, de uma região que não pára de surpreender e encantar, o Languedoc-Roussillon.