Ir para o conteúdo
ir para o conteúdo
 • 
Você está em Notícias >
Início do conteúdo

Musa cultural

Atriz, produtora e cineasta, Helena Ignez está finalizando seu primeiro longa, entre outras atividades

10 de março de 2008 | 11h 10
Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo

Take 1: uma menina de 17 anos, estudante de Direito em Salvador, conhece o cineasta Glauber Rocha, o gênio do Cinema Novo. Com ele, produz o primeiro curta, Pátio, e logo deixa o curso para atuar atrás das câmeras. Os dois se casam. Fica conhecida como a musa do Cinema Novo. Take 2: o casamento não dá certo, ela se muda para o Rio de Janeiro, atua em filmes importantes, incluindo O Bandido da Luz Vermelha, do cineasta Rogério Sganzerla, seu segundo marido. Tem mais duas filhas (a primeira foi com Glauber), produz mais filmes, dirige curtas, atua no cinema e teatro. Corta para o presente: Helena Ignez, a mulher-ícone que viveu revoluções estéticas, continua em ação, nos palcos, no cinema, na vida.

Está em fase de finalização o primeiro longa-metragem dirigido por ela: A Canção de Baal, uma adaptação de Bertold Brecht, rodada inteiramente na capital paulista e co-produzida pelo Canal Brasil. No elenco, estão as atrizes Beth Goulart e Djin Sganzerla, uma das filhas de Helena. Ao mesmo tempo, está captando recursos para um novo filme, Luz nas Trevas, dirigido por Ícaro Martins em parceria com ela, que também produz o filme. O roteiro é de Sganzerla e retoma o personagem do Bandido da Luz Vermelha, na velhice. Este longa já foi selecionado pelo Programa de Fomento ao Cinema do Estado de São Paulo, mas ainda precisa de patrocínio para ser realizado. Já tem alguns atores confirmados, como Daniel Filho e Selton Mello. E tem mais: em abril, os paulistanos poderão conferir no Sesc Pinheiros a cine-instalação Electric Sganzerlandia, cuja estréia foi na consagrada Bienal Fri-Art da Suíça. Trata-se de uma criação conjunta de Helena e do artista plástico Fabio Delduque sobre o trabalho do cineasta Rogério Sganzerla, que faleceu em 2004.

Aos 66 anos, corpo e mente em forma, Helena recebe a reportagem em seu apartamento no centro de São Paulo, usando jeans, uma camiseta de Jimi Hendrix e um bonezinho. O jeito calmo de falar remete à sua cidade natal, Salvador, e se funde a um olhar de molecagem, de alguém que guarda o espírito de transgressão. Ela participou das principais inovações estéticas do cinema nacional. Também fez teatro, dirigiu dois curtas-metragens, produziu... e continua fazendo tudo isso até hoje. Mas, apesar da versatilidade, ela apressa-se em falar: "minha prioridade é preservar e divulgar a obra de Rogério Sganzerla, que é extraordinária e pouco conhecida no Brasil." Para isso, viaja pelo mundo: no ano passado, por exemplo, participou de uma mostra na Nova Zelândia e diz que até em Seul há interesse pelos filmes de Sganzerla. "Ele estava muito à frente de seu tempo."

PASSADO LENDÁRIO

Quando dividia o tempo entre a faculdade de Direito e o teatro, na Salvador dos anos 50, ouvia dos outros que não conseguiria se casar por causa de seu comportamento. "Era uma glamour girl: aproveitava para conhecer e experimentar a sexualidade", conta. Na faculdade de Direito, conheceu Glauber. "Não tive paixão por ele, mas tínhamos uma atração intelectual profunda. Não poderia ter pensado em me casar com outra pessoa." Ela revela:

- Fomos extremamente companheiros, mas ele era bastante machista. Fazia parte de uma geração que cresceu freqüentando prostitutas e que vai para o sexo sem intenção de dar prazer. E aquela estrutura do casamento, de ele ir trabalhar e eu ficar em casa, acabou nos sufocando. Nós dois éramos geniosos.

A união durou cinco anos e o fruto principal foi a filha Paloma Rocha, que tem 47 anos, é produtora cultural e hoje preserva o acervo do pai. Emocionada, Helena conta que a guarda da filha foi concedida a Glauber quando se separaram. "Arrumei outro namorado, com quem conheci o sexo de verdade. E fui apedrejada. Fazia teatro e ele queria que eu largasse tudo para cuidar da Paloma. Daí acabei perdendo."

Em 1963, foi morar na capital fluminense e continuou a bem-sucedida carreira como atriz de cinema e teatro, com sucessos como o filme Assalto ao Trem Pagador. Continuou convivendo com a filha, porque Glauber também foi morar no Rio, "mas sempre na condição de mãe que visita". "Como ele era o imperador do cinema, as pessoas pediam autorização antes de me convidar para um trabalho", lembra. "Mas tínhamos momentos bons falando sobre a Paloma. Ele foi um bom pai dentro das suas possibilidades."

Depois de alguns anos, Helena conheceu outro cineasta pródigo e precoce: Rogério Sganzerla. O encontro se deu no set de filmagem de O Bandido da Luz Vermelha, no qual Helena interpreta a prostituta Janete Jane, namorada do bandido. Ícone do cinema experimental, o filme foi aclamado no ano passado pela Wellington Film Society, da Nova Zelândia, como um dos quatro mais importantes do século 20. "Foi com o Rogério que entendi o amor", resume. Depois desse longa, fizeram outros filmes juntos, como A Mulher de Todos, outra atuação importante na carreira de Helena.

Fundaram com o cineasta Julio Bressane a produtora Belair - cuja história está sendo filmada por Bruno Safadi e Noa Bressane. Além de feitos como os longas Copacabana Mon Amour e Sem essa Aranha, em 1968, bateram um recorde: fizeram sete filmes em menos de seis meses, freneticamente. "Eram filmes de guerrilha, uma urgência: tínhamos que fazê-los naquele momento", conta Helena, referindo-se ao momento dramático da ditadura militar.

O casal exilou-se em Londres por dois anos. Apesar das incertezas sobre o futuro no Brasil, ela guarda boas lembranças desse período. "Era o momento do rock em Londres. Vimos o último show de Jimi Hendrix no festival da Ilha de Wight, com Caetano e Gil", conta Helena, que até hoje adora dançar ao som dos Stones e ouvir clássicos do blues, como Muddy Walters. Naquela fase da virada dos anos 70, ela e Rogério também moraram no Marrocos e viajaram por toda a África.

De volta ao Brasil, tiveram duas filhas: Sinai, que hoje tem 34 anos e é produtora de cinema; e Djin, atriz, de 30 anos. Depois da experiência com Paloma, Helena seguiu outro caminho. "Larguei tudo para ser mãe. Tanto que amamentei a Djin por cinco anos", conta. "Li e estudei bastante nessa fase, quando começou minha inquietação espiritual. Era uma mãe diferentona: deixava a Sinai brincar com agulha de costura aos 3 anos, tinha segurança de que ela não iria se machucar. Não era assustada."

BUSCA ESPIRITUAL

Por um longo período, nos anos 80, Helena viveu na comunidade de Nova Gokula, em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, com os hare krishnas. E acabou servindo como monja por anos, em diversos ashrams do mundo, com a dedicação de quem acordava diariamente às 3 da manhã para cumprir suas tarefas. "Gosto muito do princípio hare krishna, de que a grande alegria da alma é servir", diz ela, emendando com uma citação de que a função primordial do ator é ajudar o outro ator em cena. Depois, veio o estudo do taoísmo e do budismo. Hoje, pratica tai chi chuan, "importante para o equilíbrio e para não sair das regras", mas não segue nenhuma religião específica, embora adote princípios aprendidos nos anos de estudo. "O ateísmo me parece a única solução moral para o momento atual, porque, tirando a discussão em torno dos deuses e voltando o foco para o comportamento do homem é que ele vai poder melhorar", pondera.

A história de amor com Rogério atravessou décadas: passaram 35 anos juntos - até a morte do cineasta, em 2004. Helena cuidou dele durante os oito meses em que lutou contra o câncer. "Ele foi meu grande amor. Eu não poderia pensar que ia perdê-lo, depois disso, vi que tudo pode acontecer. Tem dias que ainda sinto vontade de gritar, mas quando se tem consciência do sofrimento, ele passa como um vento. Agora já não tenho tanto medo e atravessei o período da perda sem assistência de psicólogo ou psiquiatra."

Helena lembra carinhosamente que o amigo e parceiro na produtora Belair, Julio Bressane, diz que o luto gera movimento. No caso de Helena, um furacão de movimento: além dos filmes que está fazendo e das viagens divulgando a obra de Sganzerla, está super ativa como atriz. Interpretou uma bruxa em Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins, durante as fatídicas filmagens, quando morreu o ator Jece Valadão, e fez uma ponta em Hotel Atlântico, novo longa de Suzana Amaral - quem elogia. "Aos poucos, estou voltando a fazer cinema." Os palcos também continuam brilhando em sua vida. Ao lado da filha Djin, atua em O Sonho, de August Strindberg, que, neste ano, entra na terceira temporada em cidades do interior de São Paulo. gora corre o interior paulista. "O teatro está muito vivo. Fica lotado e as pessoas aplaudem de pé", empolga-se.

Pouco antes de morrer, o escritor e dramaturgo Plínio Marcos fez uma de suas lendárias leituras de tarô para Helena, dizendo que, naquele momento, sua vida ainda estava separada entre o bloco do trabalho e o da família, mas que isso se integraria no futuro. Esse momento parece ter chegado. Helena dirige a produtora Mercurio - cujo objetivo primordial é preservar e divulgar a obra de Rogério - com as duas filhas, Djin e Sinai, e recebe a ajuda da primogênita Paloma, que tem experiência em restauração. "A família é uma das coisas mais importantes na minha vida."

PRESENTE VIVO

O trânsito entre Rio e São Paulo faz parte da rotina de Helena, que mantém apartamentos nas duas cidades. No ano passado, foi declarada Cidadã Paulistana. "Gosto muito de São Paulo, é uma cidade que tem uma energia única, boa e criativa. O que dizem que é feio eu acho muito interessante, e gosto do anonimato que o paulista preza. Não há um deslumbramento pela celebridade", elogia.

Ela, que protagonizou períodos cruciais do cinema nacional, fala sem melindres sobre o momento prolífico de produção de longas brasileiros. "Existem alguns rompantes, alguns bons filmes." Elogia ainda produções como BR3, do Teatro da Vertigem, e Os Sete Afluentes do Rio Ota, adaptação de Monique Gardenberg para o texto de Robert Lepage, que, apesar de ter cinco horas de duração, ficou quatro anos em cartaz, com Helena no elenco. "Mas o teatro tradicional está um tanto estagnado."

Nos poucos momentos livres, Helena consegue curtir a companhia dos amigos relacionados aos múltiplos projetos, ir ao cinema e teatro. Os livros também são apreciados, mas sempre biografias, entrevistas e ensaios - romances são mais raros nas estantes de seu apartamento. "Sou inspirada pelas pessoas que conseguiram transformar suas vidas, vencer suas dificuldades e ser elas mesmas, realizando seus sonhos", comenta. E sobre sua própria biografia, como a musa a encara?

- A experiência da idade traz um choque, porque a sensação interna de juventude pode perdurar, mas a sua imagem se modifica completamente. Dá uma certa liberdade também porque o corpo já ultrapassou a barreira do objeto sexual e está mais livre, este é o lado bom. Se a mulher está ligada à admiração exterior vai se dar mal, porque a decadência física existe. Eu talvez tivesse tido mais esse sentimento se o Rogério estivesse vivo.

Helena fala que uma das principais questões que tocaram sua vida foi justamente o embate entre o masculino e o feminino. Apesar de achar que houve uma evolução na questão da sexualidade, diz que a maioria dos homens ainda desconhece o orgasmo feminino e ainda usa o sexo como meio de opressão. Por outro lado, acredita que houve uma melhora da consciência das mulheres.

"Elas, ou pelo menos a parcela mais informada, são a nata da sociedade. Existe um comportamento feminino que será o comportamento do futuro: da delicadeza, da sutileza, do amor, em detrimento desse jeito excessivamente testosterona da guerra, do domínio, do fanatismo. Pode observar que as platéias dos eventos mais interessantes, que mais tentam romper com o convencional, são predominantemente femininas. Então existe uma evolução."