Na rota do autoconhecimento
Os 241 quilômetros percorridos em 11 dias tornaram-se um desafio feminino em busca de superação física e emocional
Mais do que um roteiro de aventura, o Caminho do Sol se tornou uma viagem feminina - em vários sentidos. A começar pelo fator numérico. Ao longo de seus quase nove anos de existência, o percurso de 241 quilômetros, que sai de Santana de Parnaíba e acaba 11 dias depois em Águas de São Pedro, ganhou adesão maciça das mulheres: atualmente elas são maioria entre os caminhantes - 70%. Com mochila nas costas e cajado na mão, elas encaram com bravura dores musculares, bolhas nos pés e uma infinidade de obstáculos, principalmente os emocionais.
Para espanto geral, os homens desistem desse desafio - realizado em áreas rurais do interior paulista - mais facilmente do que elas. É o que garante o idealizador do Caminho do Sol, José Palma. "Embora o índice de desistência seja baixo no geral, essas peregrinas superam as dificuldades com muita garra para chegar até o fim", observa. "Os homens sofrem mais para se adaptar às adversidades."

Cerca de 10 mil pessoas já se aventuraram na empreitada. Novos interessados já podem começar a se preparar para a melhor época de realizar esse programa: o segundo semestre. Período de pouca chuva e com calor ameno. Entre a legião de andarilhas, muitos são os motivos que levam ao Caminho do Sol. O principal deles, explica Palma, é a maior disposição para uma viagem interior, em busca do autoconhecimento.
"Tudo indica que a mulher é mais predisposta a se confrontar com seu eu", avalia. "Não é à toa que boa parte das participantes está na faixa dos 40 e sente a necessidade de se reavaliar como mãe, mulher e profissional." Para ter uma ideia, basta dar uma olhada no site oficial e ler os depoimentos de quem viveu tal experiência. O último postado completa 1.142 impressões pessoais, em grande parte feminina, para variar.
Um deles é o da atriz Tatiana Libertucci, de 33 anos, que completou o percurso em janeiro deste ano. Como é de praxe, ela abraçou essa jornada para se "entender". "Precisava sumir do mundo, ficar um tempo sozinha, pois estava num momento confuso", conta.
A princípio pensou em fazer o famoso Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Mas acabou optando pela versão paulista, por ser mais barato e necessitar de bem menos tempo. Apesar de não ser nada fácil, é também uma alternativa para quem pretende se preparar para enfrentar a longa jornada espanhola, que leva pouco mais de 30 dias para ser finalizada, em cerca de 800 quilômetros bem suados.
"A minha preparação física resumia-se à malhação em academia", diz Tatiana. "Mas o que mais ajuda a aguentar os 11 dias de caminhada é o apoio do grupo. A gente entra sem conhecer ninguém e acaba quase irmão." Companheirismo é essencial porque, em algum momento, alguém vai pedir água e pensar seriamente em voltar para o aconchego do lar. Mesmo que surja alguma rusga com alguém do grupo, a solidariedade sempre está presente e é o combustível dos andarilhos.
Os peregrinos que estão com o espírito aberto para experimentar as alegrias e as durezas do trajeto - tal como a vida - sempre saem ganhando. Porque as transformações pessoais são, em grande parte, reveladoras. Apesar de cética, Tatiana, por exemplo, viu como supervalorizava seus problemas pessoais, o que lhe causava sofrimento desnecessário. O desapego é outro ensinamento tradicional a quem se arrisca em tal aventura, principalmente para as mulheres, conhecidas por seus ímpetos consumistas.
Perceber que dá para sobreviver apenas com o que cabe em uma mochila é um grande aprendizado. E olha que a mochila precisa estar leve para suportar a caminhada. Que o diga a consultora em marketing de moda Luciana Nunes, de 41 anos, baiana que mora em Porto Alegre com seus dois filhos. Acostumada a viver no mundo glamouroso da moda, entre grifes e consumo elevado à enésima potência, Luciana pôde resgatar a simplicidade. Aquela que estava esquecida na sua infância, quando morou em uma fazenda no interior da Bahia.
E foi por isso que Luciana criou coragem para enfrentar seu medo de virar a mesa na profissão. Duas semanas após a viagem, preparou um jantar aos filhos para comemorar o pedido de demissão e a abertura do seu maior sonho: uma empresa de consultoria. "Precisava de um impulso e tive isso no Caminho", diz Luciana, por telefone, de Paris, onde realizava pesquisas de mercado para seus novos clientes. Apesar de estar acostumada a rodar o mundo por causa de seu trabalho, sempre rodeada por luxo, a consultora confessa que essa experiência foi uma das mais importantes de sua vida.
Histórias emocionantes não faltam. Regiane Orlando Trolesi Neves, de 34 anos, e Fábio Luiz Neves, de 36, batizaram o filho na Casa de Santiago: local de chegada dos peregrinos, no município de Águas de São Pedro. Explica-se. Após anos de tentativas para ter um filho, um exame revelou o que impedia a realização desse sonho. A endometriose severa dela, agravada pela baixa produção de espermatozoides vivos de Fábio, causavam infertilidade no casal.
Em vez de recorrerem a um doador para inseminação artificial, partiram para a adoção. Na espera para adotar uma criança, que já contabilizava três anos de expectativa, eles decidiram fazer uma programação diferente nas férias. "Estávamos almoçando e pensando que viagem faríamos quando vimos uma reportagem na TV sobre o Caminho do Sol", recorda a educadora Regiane. "Como eu procurava algo bem diferente e marcante, resolvemos ir atrás."
Católicos praticantes, eles planejaram aproveitar a caminhada para refletir sobre a adoção e rezar para que ela acontecesse logo. Entre trancos e barrancos, conseguiram emocionados completar todo o percurso. Em São Paulo, exatamente cinco dias depois, Regiane engravidou: "Sempre quis ser mãe, tinha muita fé que isso aconteceria adotando uma criança, mas nunca imaginei que seria possível gerar uma vida com os nossos problemas. Ficamos muito surpresos. "
O nome do bebê, Tiago, foi uma homenagem a São Tiago (Santiago, em espanhol): uma das imagens presentes no local de chegada do Caminho do Sol. "O final foi cheio de surpresas, emoções e lições de vida, mas o ponto mais marcante dessa experiência veio depois, com a chegada do meu filho", conclui Fábio, que atua na área de Recursos Humanos. Domingo que vem, dia 17, Tiago fará três anos.
Vai encarar?
Para aqueles que querem enfrentar o desafio, o site www.caminhodosol.org tem todas dicas. Se mesmo assim surgirem dúvidas, basta mandar e-mail para o próprio idealizador do trajeto, José Palma, no endereço indicado na página. Ou então, ler o livro Relatos de um Cajado - Contos & Causos Peregrinos, Vivenciados no Caminho do Sol (LCTE Editora), escrito por ele. Para mostrar que a caminhada não é só sofrimento e flagelo, Palma selecionou "causos" divertidos dos viajantes. Um deles é o de uma mulher que encarou a jornada em áreas rurais do interior paulista sem saber a diferença entre boi e vaca.
É bom saber também que não basta disposição para cair na estrada. Além de equipamentos, é necessário pagar taxas: inscrição (R$ 93), seguro (R$ 8), diárias das pousadas com alimentação (cerca de R$ 70), travessia do Rio Piracicaba (R$ 5) e gastos extras, como bebidas.
Rio morto e urubus
Luciana Nunes, 41 anos, fez o Caminho em outubro de 2010
"O segundo dia, em Pirapora do Bom Jesus, foi o mais sofrido para mim. Nunca tinha feito uma caminhada tão longa - no máximo, academia três vezes por semana. Para piorar, o sol e o calor estavam escaldantes. O trecho também não ajudava: em vez de uma trilha bucólica, andamos na beira da estrada movimentada, com ladeiras e repleta de lixo. Mas o pior foi a aproximação com o Rio Tietê. Era penoso vê-lo morto, sem vida, povoado por urubus. Nesse cenário triste, me perguntei o que estava fazendo ali. Havia saído de Porto Alegre, onde moro, para fazer um caminho que idealizei. Quase desisti, mas felizmente cheguei até o fim."
Choro emocionado
Regiane Neves, 34 anos, casada com Fábio, 36: peregrinos de 2010
"Passamos por Itu no quarto dia. Ao contrário de mim, que malhava, o Fábio fez o caminho sem preparo algum. Por causa do estresse físico, o joelho passou a doer muito. Mas ele não desistiu e seguimos bem devagar. Ao chegar à pousada, horas depois do grupo, ele foi recebido com aplausos e chorou de emoção de ter conseguido se superar. Depois foi medicado, colocou gelo no joelho e, no dia seguinte, já estava bem para seguir em frente. Fiquei muito orgulhosa dele."
Aprender a ver
Tatiana Libertucci, 33 anos: caminhou em janeiro
"Em Piracicaba, andei afastada do grupo e não percebi quando passei pela pousada de Monte Branco, onde ficaríamos. Só me dei conta disso cinco quilômetros à frente. E ainda por cima caiu uma tempestade. Juntou dor, cansaço e raiva. Consegui uma carona quando retornava aos prantos. Até o último dia, culpei a organização por causa disso. Mas, num estalo, saquei que simplesmente não enxerguei a indicação e passei direto. Percebi que, na minha vida, não vejo as coisas que estão na minha frente. Foi uma grande lição."
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