Noronha exibe sua melhor (e mais perfeita) forma
Começa agora a alta temporada, sem chuvas, com temperaturas amenas e mar calminho
O avião acaba de decolar e a aeromoça avisa: após o serviço de bordo, estão liberadas as visitas à cabine de comando. Alguns poucos curiosos vão conferir os painéis com mil luzes e alavancas; piloto e co-piloto estão numa calmaria só, voando num céu sem nuvens, sobre o mar azul. Segurança? Eles se limitam a apontar para a porta reforçada - agora aberta -, obrigatória pós 11 de Setembro. A inusitada visita, impensável nos últimos sete anos, dá uma dica do destino: quem, raios, vai se preocupar com atentados, ameaças e afins quando a aterrissagem será na pequenina pista de Fernando de Noronha? Veja também: O tubarão vai à mesa em forma de bolinho Uma praia para chamar de sua Trilhas de ótimo 'esforço-benefício' Tour de barco tem ponto alto no balé dos golfinhos Não quer mergulhar? Vá de prancha
Só falta o piloto fazer um vôo panorâmico. Quase. Mas algumas das maravilhas do arquipélago - os moradores chamam Noronha de ilha mesmo, pois é a única, num total de 21, habitada - podem ser vistas antes do pouso. Espertos, os gringos já sentaram do lado certo do avião (esquerdo na ida) e estão de máquina fotográfica em punho. Errei o lado. Azar, as fotos aéreas ficam para a volta.
Bastou uma tarde para descobrir que as tomadas do avião não fariam a mínima falta. A beleza natural é tão gritante e evidente que aqueles borrões sem foco do alto definitivamente não fariam justiça. Melhor assim. Outra descoberta: fim de julho, começo de agosto, quando eu fui para lá, não é exatamente a melhor época para visitas. Noronha ainda está no "inverno", o que significa algumas trovoadas ao longo do dia e umas tardes de céu nublado. A coisa muda, mesmo, a partir do fim do mês, quando as nuvens desaparecem, as temperaturas ainda estão amenas e o mar... bem, o mar é quase uma piscininha infantil na maioria das praias: morno e sem ondas. Mesmo assim, os deuses que protegem os jornalistas resolveram cooperar; os dias estavam lindos e as chuvas ficaram para as noites, quando não tem muito o que fazer por lá mesmo.
Triagem turística
Os preços - dos pacotes às refeições, multiplique os valores cobrados numa capital como São Paulo por dois, mais ou menos - fazem uma espécie de triagem turística. Os estrangeiros, com euros no bolso, levam vantagem. Os brasileiros ainda têm Noronha como um sonho inalcançável. Não, não é. Dá trabalho para chegar, é longe, caro - turistas ainda desembolsam R$ 34,48 por dia pela Taxa de Preservação Ambiental (se puder, pague antes, pela internet, para evitar a fila no aeroporto) - e, na alta temporada, torna-se quase impossível entrar. Mas se não fosse assim, que graça teria?
A ilha tem pouco mais de 2 mil habitantes fixos (com a população flutuante, esse número sobe para mais de 3 mil). A eles, podem somar-se apenas 600 turistas por dia. É mais ou menos como aquelas megaliquidações de começo de ano: se nenhuma dessas 600 pessoas arredar o pé durante uma semana, esqueça, você não vai conseguir entrar. Exceção apenas para quem chega nos navios de cruzeiro, na altíssima temporada, e que acaba fazendo passeios rápidos. Eis um pecado mortal.
O mais recomendado é passar pelo menos uma semana por lá, para conhecer tudo muito bem, fazer um monte de amizade e até cansar de ver golfinhos e tartarugas. Mais uma dica? Esqueça o tal do ilhatur, oferecido pelas agências de turismo locais como a sétima maravilha do mundo. O passeio, que promete tempo de sobra em todas as praias, é uma bobagem.
Alugue seu próprio buggy (sim, eu fiz isso e adorei) e saia livre pelas estradas de Noronha. Você só vai precisar de algum conhecimento em perrengues ao volante, pois as vias estão em péssimo estado de conservação mesmo na Vila dos Remédios, onde fica boa parte das pousadas e onde há alguma infra-estrutura (internet a R$ 4 por 30 minutos, Correios e os restaurantes mais bacanas).
Não espere, porém, ir muito longe. A BR-363, que corta a ilha e vai da Baía do Sueste ao Buraco da Raquel (veja mapa ao lado), leva só 10 minutos para ser percorrida pelo valente carrinho. Em compensação, você vai chegar em pouquíssimo tempo a todos os pontos de partida para as trilhas mais incríveis de Noronha (a maioria muito bem sinalizada).
Passeios
Você pode comprar o passeio de barco, a grande chance de ver os tais golfinhos rotadores, habitantes dos mais festejados de lá, e uma ou outra aventurinha. Muita gente prefere fazer o batismo de mergulho - há pelo menos 20 pontos e a visibilidade é perfeita -, a cerca de R$ 250 por pessoa. Quem tem pouca afinidade com o fundo do mar pode escolher a prancha submarina (veja mais na página 13), idéia bem bacana e que não exige força nem habilidade.
Os ilhéus dizem que quem prova daquelas águas não consegue ficar muito tempo sem voltar. Não duvido. No meu caso, a saudade começou a apertar já no vôo de volta. Dessa vez, sem direito a visitas à cabine do piloto.
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