
Nunca antes na história daquele país...
A disputa entre um negro e uma mulher branca era algo inédito nos EUA. Ela saberá ajudá-lo agora que foi derrotada?
Nunca as eleições primárias à presidência dos EUA despertaram tanta atenção no mundo inteiro como as deste ano. A proverbial capilaridade da web, por si só, não explica o fenômeno. Já havia internet em 2000 e 2004, mas não havia, como nunca houve na disputa pela Casa Branca, uma dupla como Barack Obama e Hillary Clinton, um candidato negro e uma candidata branca. Em 1872, Victoria Woodhull e Frederick Douglass dividiram a mesma chapa, mas os dois pertenciam a um partido nanico (o independente Equal Rights Party) e eram brancos. Como estava previsto, apesar de brancos, perderam.
Concorrendo, em 1984, por um dos dois únicos partidos com peso eleitoral, no caso, o Democrata, Walter Mondale e Geraldine Ferraro também perderam. A surra teria sido maior se a chapa fosse encabeçada por Ferraro. O eleitorado americano parece ter menos confiança nas mulheres do que nos negros. Em 2007, uma pesquisa Gallup revelou que 97% dos americanos aceitariam votar num negro para presidente e 88% numa mulher.
A julgar pela vitória de Obama, a pinimba sexista continua prevalecendo sobre a birra racista. Esta, segundo outras pesquisas, diminuiu acentuadamente nos últimos oito anos. Na virada do século, apenas 37% dos americanos se conformariam com um negro dando as cartas na Casa Branca. Há pouco mais de um mês, esse percentual bateu nos 70%. O que mais nos reserva o efeito Obama?
Até porque ganhou por pontos, não por nocaute, especula-se que, para fortalecer sua candidatura, torná-la "praticamente imbatível", Obama acabe convidando Hillary para vice, que é tudo o que ela, nas atuais circunstâncias, mais almeja. Valeria a pena tamanha colher de chá para uma adversária notoriamente pérfida e egocêntrica? Valeria a pena afrontar, a um só tempo, os eleitores racistas e sexistas? Até quando os clintonistas fundamentalistas persistirão na idéia de não votar em Obama em novembro?
O que o candidato democrata tem mais a fazer agora é tentar reunificar o partido, sem abrir mão de seus princípios e de seu estilo distinto de fazer política, e fazer as escolhas certas, o que inclui a indicação de um vice afinado com seu jeito de ser, pensar e agir. Hillary, portanto, nem pensar. A despeito de algumas pesquisas que a deram como virtual vencedora num confronto com o republicano John McCain, que, no entanto, derrotaria Obama, os últimos dados disponíveis apontam Obama seis pontos percentuais à frente de McCain. E se essa diferença não aumentar daqui para a frente, com o desenxabido McCain acumulando burradas, propostas obtusas, e apoiando até o orwelliano programa de espionagem interna montado pelo governo Bush, como fez na quinta-feira, o jeito será protelar o sonho de mudar a América e, por tabela, o mundo.
Obama ganhou por pontos, mas licitamente. Entendeu e trabalhou com mais esperteza as regras do jogo. Desqualificado por Hillary como inexperiente, ingênuo, e demasiado fraco para enfrentar McCain, submeteu-a a uma escalada de humilhantes revezes, levantando muito mais fundos para sua campanha, organizando-a de forma mais metódica e estrategicamente mais efetiva, e, por fim, conquistando as adesões necessárias à sua indicação. Obama sacou que a atmosfera política do país mudara. Hillary, não.
A senadora não representa tanto a mesmice (ou a velha política) quanto McCain, não por acaso apelidado de Bush III, mas era a candidata do establishment, beneficiária de uma rede de relacionamentos entrelaçada pelo marido e de uma marca (Clinton) poderosa, não o bastante, contudo, para fazer frente à empolgante convocação de Obama para "mudar o país". Seu primeiro erro foi desprezar, sobranceira, o modus operandi do partido nas primárias, sem dúvida discutível com toda aquela cabala de caucus, delegados & superdelegados, mas regras foram feitas para ser respeitadas. O segundo erro foi tentar atropelá-las.
Em cinco meses de campanha ela fez mais inimigos do que amigos; perdeu financiadores e aliados; mostrou-se oportunista e mesmo desleal, estimulando a difusão de baixarias sobre Obama e fazendo-se de sonsa quando algum aliado gozava o apreço, soi-disant "elitista", do senador por salmão, chá orgânico e brócolis cozido. Atiçando o fogo, quando não riscando o fósforo, o matreiro Bill Clinton. Se os maiores aliados de McCain trabalhavam na campanha de Hillary, como acreditam vários analistas, o maior adversário de Hillary durante as primárias foi seu próprio marido.
Antes do primeiro caucus, em janeiro, dois integrantes da equipe de Hillary soltaram na internet um e-mail alertando para os "perigos" da candidatura de Obama à presidência, que terminava com a seguinte insinuação: "Os islâmicos prometeram destruir os EUA de dentro do país, e poderão executar esse plano de seu posto mais elevado". Ambos foram demitidos, mas o mal estava consumado e os blogueiros de direita se fartaram de ameaçar o eleitorado pintando Obama como um "candidato terrorista", cujo juramento de posse ao assumir a presidência seria feito sobre o Corão, em vez da Bíblia.
Cabos eleitorais de Hillary cansaram de cometer insinuações racistas a respeito de Obama. Uma tal de Harriet Christian apareceu no YouTube chamando o senador de "macho negro impróprio" (tradução literal de "inadequate black male", passível de ser entendido como "chantagem inadequada"), para em seguida alardear sua preferência por McCain. Não é a única. Acredita-se que 30% do eleitorado clintonista pretendam ficar em casa no dia 3 de novembro ou então votar no candidato republicano. Um repórter da revista The New Republic flagrou eleitores de Hillary envergando camisetas com os dizeres "McCain in ?08! No-bama! No-bama!" e até um famoso panfletista de Minnesota a distribuir um calunioso folheto com "todos os segredos sujos de Obama", envolvendo "crimes, drogas e homossexualismo".
Bill e Hillary não podem ser responsabilizados diretamente por agressões desse tipo. Mas podem, sim, empenhar-se junto aos seus mais fanáticos eleitores para que transfiram seu apoio e seus votos para o candidato democrata, já que ele, afinal de contas, representa o coroamento de um sonho acalentado desde a luta pelos direitos civis, nos anos 1960. Luta de que Bill e Hillary participaram ativamente. Quando eram jovens. E ambiciosos só no bom sentido.
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