
O homem que das pedras fazia sopa
Herói sem caráter, esperto, trapaceiro e simpático, protagonista de antigas fábulas ibéricas, Pedro Malasartes saiu de moda. Só as pessoas mais velhas lembram das peripécias do personagem imaginário que por muitos séculos divertiu crianças e jovens em Portugal, Espanha e terras colonizadas pelos dois países. No Brasil, falou-se em Pedro Malasartes no primeiro livro infantil nacional, Contos da Carochinha, de 1894, escrito por Figueiredo Pimentel. Poderia ter caído no ostracismo, não fosse o socorro de Mazzaropi, que o representou no filme As Aventuras de Pedro Malasartes, de 1960; de Renato Aragão, que lhe dedicou um programa especial na TV Globo em 1998; e de Ana Maria Machado, que o recontou no livro Histórias à Brasileira - 2 (Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2004). Ninguém lembraria, por exemplo, da antológica sopa de pedra inventada por ele.
Luís da Câmara Cascudo, no Dicionário do Folclore Brasileiro (Global Editora, São Paulo, 2000), descreve-o como "o tipo feliz da inteligência despudorada e vitoriosa sobre os crédulos, os avarentos, os parvos, os orgulhosos, os ricos e os vaidosos, expressões garantidoras da simpatia pelo herói sem caráter".
Diz também que a mais antiga referência lusitana a esse legítimo representante da literatura picaresca se encontra no Cancioneiro da Vaticana, do século 16: "Chegou Payo de maas Artes..." Na Espanha, onde aparece em um documento do século 12, chamam-no Pedro de Urdemalas ou Urdimalas; no Chile e México, vira Pedro Urdemales; na Argentina, Bolívia, Paraguai, Peru e Venezuela é Pedro Rimales. Em todos os lugares inventa a sopa de pedra, exceto em Portugal, onde o trocam nessa fábula por um frade de uma ordem que, proibida de ter bens, obrigava os religiosos a viverem da caridade alheia.
Cansado e faminto, Malasartes bateu na porta da casa de uma mulher avarenta. "Consiga-me alguma coisa para comer", implorou. O galinheiro estava cheio, a horta repleta, o pomar carregado, porém ela respondeu não ter nada. "Sendo assim, vou fazer uma sopa de pedra", disse Malasartes. Então, pegou uma pedra no chão e lavou bem. Depois, pediu uma panela de barro e um fogão para cozinhar. "Ora, essas coisas eu tenho", admitiu a mulher.
Malasartes acendeu o fogo, colocou a pedra na panela, encheu-a de água e, quando começou a chiar, provou a "sopa". "Está ótima, mas ficaria melhor se tivesse um pouco de gordura", avaliou. A mulher trouxe um pedaço de toucinho. A seguir, ele solicitou orelha de porco, depois morcela, sal, feijão-mulatinho, batata, couve, coentro e pimenta-do-reino, sendo atendido. Preparada a sopa, ofereceu um prato à mulher, que a adorou. Na panela, restou apenas a pedra. Malasartes a lavou novamente e guardou no bolso. "Carrego-a comigo para fazer outra sopa no dia em que precisar enganar outra velha boba", explicou. Saiu disparando...
Em Portugal, a sopa de pedra é levada a sério. A cidade de Almeirim, no Ribatejo, a 70 quilômetros de Lisboa, transformou-a em atração turística. Quase todos os seus restaurantes a preparam.
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