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O laboratório da casa

Com projetos polêmicos, a 25ª edição da Abitare il Tempo discute novas linguagens do construir

10 de outubro de 2010 | 11h 00
Marcelo Lima - O Estado de S. Paulo

A Abitare il Tempo, mostra de design e decoração realizada anualmente em Verona, no norte da Itália, completa 25 anos exibindo surpreendente vitalidade. Muito, é preciso que se diga, em função de sua fórmula particular: além de ser uma feira comercial no seu sentido convencional, apresentando produtos em estandes diversos, a Abitare se propõe a discutir os novos padrões de consumo ligados ao universo do móvel, por meio de eventos culturais.

"Cultura e mercado nem sempre se dão bem. Mas quando o fazem, se acende a chama da inovação", afirmou, a respeito da Abitare, Rolf Fehlbaum, o todo-poderoso presidente da Vitra, ao receber o prêmio Abitare il Tempo de 2008. Uma reverência já outorgada a nomes como Ettore Sottsass, Ingo Maurer e Alessandro Mendini, que foi concedida este ano a Alberto Alessi, dono da gigante dos utilitários italianos que leva seu sobrenome.

Mostras especiais. Tão singular quanto a ideia de "turbinar" a feira com exposições conceituais, a apresentação contextualizada é outro diferencial do evento. Mesmo diante de uma das mais profundas crises econômicas da Europa, a Abitare il Tempo permanece firme no seu objetivo de estimular as sensações de seus visitantes.

No Shopping Lab, por exemplo, projeto executado pelo estúdio Bestetti, 12 ambientes apontam para novas possibilidades de composição dos espaços domésticos, com móveis e equipamentos fornecidos pelos principais fabricantes presentes na mostra. Uma solução de efeito capaz não apenas de colocar em evidência a excelência da produção italiana, mas também de captar, de imediato, a atenção dos visitantes.

Na Textile Storm, instalação criada por Claudio La Viola, com a colaboração de Davide Ripamonti e Nanni di Viabizzuno, 15 empresas líderes no setor têxtil italiano apresentaram novas padronagens, tendo como suporte grandes guarda-chuvas giratórios. E, como fundo musical, o som de uma violenta tempestade, entrecortado pelo canto magistral de Maria Callas.

Tais cuidados de produção, ao longo dos anos, ajudaram a definir a identidade da mostra e contribuíram para aumentar sua credibilidade internacional. Não por acaso, uma de suas célebres exposições, Itália-Europa, de 1999, com curadoria de Giulio Cappellini, reuniu 100 promissores designers de todo o mundo. Entre eles, nomes hoje consagrados como Tom Dixon, Konstantin Grcic, Ferruccio Laviani e Ross Lovegrove.

Idealizada por Alessandro Mendini, a mostra Cadeira de Proust, de 2005, outro grande momento, marcou o 20.º aniversário do evento. Entre os convidados, encarregados de redesenhar uma poltrona, nomes como Toshijuki Kita, Fabio Novembre e Andrée Putman, além dos brasileiros Fernando e Humberto Campana.

Emblematicamente, Mendini voltou à cena este ano com Abitare l’Utopia, exposição que comemorou, em grande estilo, os 25 anos do evento (leia mais na pág. 18) - uma emocionada homenagem à exuberante criatividade italiana, sinalizando que, em se tratando de design, mais do que nunca é tempo de sonhar.

A casa sustentável. Poucos assuntos têm permeado tanto todos os setores da sociedade quanto a sustentabilidade. Natural, portanto, que a atenção dos arquitetos de todo o mundo tenha se direcionado para a questão. A Abitare il Tempo 2010 não deixou de lado essa preocupação e acertou, mais uma vez, ao abordar o tema.

Particular ao universo da mostra, a discussão em torno da arquitetura sustentável se dá todos os anos com base em casas modelo, construídas sempre em um mesmo pavilhão. Este ano, foram três os projetos apresentados: Green Frame House, de Nicola Ponti e Antonia Astori; Out Home, de Roberto Semprini; e Oversea Building, de Simone Micheli.

"Não se trata apenas de charme industrial, mas da reutilização de uma estrutura destinada, a princípio, a ser eliminada", afirma Nicola Ponti, justificando o uso de contêineres como elementos construtivos em seu projeto, a Green Frame House. As caixas metálicas formam o sobrado que, em termos visuais, mais se assemelha a um hospital de campanha, e que em nada remete às idílicas casas de campo que são a opção preferencial de nove entre dez projetos declaradamente ecofriendly.

Na prática, é uma casa planejada em todos os detalhes para bem responder às exigências de funcionamento sustentável, mas que, em função de seu visual radical, corre o risco de não cair nas graças do público. "Não buscamos propor uma resposta definitiva para a questão", diz a coautora Antonia Astori. "A intenção foi chamar a atenção para a reciclagem, um aspecto pouco explorado pelo mercado da construção, mas que tem tudo a ver com sustentabilidade."

Mais abordável e mais ligada à ideia aprazível que se têm das casas de campo, a Out Home, projetada por Roberto Semprini, tem como tema a integração interior-exterior. Tomando os exteriores como uma extensão natural do espaço interno, a residência unifamiliar proposta pelo arquiteto volta-se inteiramente para fora.

"Os novos materiais e tecnologias nos permitem fazer do jardim uma sala. E mais: cozinha, banho, sauna e até mesmo o quarto podem se adaptar ao ambiente externo. É preciso viver essa nova simplicidade", defende Semprini, em meio a seus móveis sofisticados, saunas digitalizadas e lareiras com controle remoto.

Forte candidato ao posto de projeto mais polêmico desta edição da Abitare, a Oversea Building, de Simone Micheli, por sua vez, se propõe a discutir uma nova imagem para a casa. "Procurei ampliar as nossas referências visuais, abolindo uma dimensão homogênea, plana, monótona", explica Micheli, que espalhou por todas as paredes da casa joaninhas gigantescas, impressas digitalmente em papel: uma verdadeira e inesperada invasão.

Em forte contraste com as linhas básicas e com a geometria fluida da construção, as imagens ampliadas do amigável inseto se repetem dentro e fora da casa, para, no entender do arquiteto, interferir na percepção sensorial que se tem da obra. "Nosso tempo tem uma dimensão complexa. Precisamos investir em novos códigos, pesquisar alternativas", argumenta Micheli, a respeito de seu excêntrico projeto.

A interação visual entre áreas internas e externas faz da construção, segundo ele, um edifício "pós-orgânico", capaz de falar a mesma língua dentro e fora. "Procurei transpor a linha invisível que se impõe na maioria das casas entre o interior, tranquilo e envolvente, e o exterior, ameaçador e turbulento."

A proposta, apesar de sua aparência pouco convencional, acaba por se revelar igualmente válida. Sobretudo por também abordar a sustentabilidade do ponto de vista do funcionamento e não ceder ao apelo fácil do natural e do orgânico, como acontece no projeto de Semprini.

Da mesma forma, a utilização de contêineres reaproveitados no projeto da Green Frame House não deve ser vista apenas como um ato de provocação, mas como uma real alternativa para os nossos tempos. Uma opção, por certo, não tão atraente em seu aspecto visual. Mas, nem por isso, menos pertinente.