Os lugares freqüentados pela família real no Rio, 200 anos depois
Monumentos estão sendo recuperados a toque de caixa, num movimento semelhante ao que ocorreu há 2 séculos
A chegada da corte portuguesa ao Brasil, em 7 de março de 1808, mudou definitivamente os rumos da história - de uma hora para outra, o Rio de Janeiro se transformou em sede do reino, os portos foram abertos às nações amigas (até então, o comércio era apenas com Portugal), artistas, naturalistas e cientistas vieram ao País a fim de estudá-lo e importantes instituições foram criadas.
A cidade teve de se preparar para receber a corte - cerca de 15 mil pessoas, segundo historiadores. Ruas foram abertas; as vias que existiam, limpas. Casas passaram por adaptações para virarem verdadeiros palácios. E muitas construções desse período ainda resistem.
Em uma volta pelo centro do Rio pode-se visitar o Paço Imperial, sede do governo, a Galeria do Convento, que foi residência de d. Maria I, a Louca, a Casa França-Brasil, primeiro prédio de estilo neoclássico, projetado pelo arquiteto Grandjean de Montigny e construído em 1820, por ordem de d. João VI. Hoje, é centro cultural, com cinema e bistrô que serve pratos inspirados nas culinárias francesa e portuguesa.
OUTRO CENÁRIO
Mas a paisagem não é a mesma. Aterros sucessivos redesenharam a orla. Onde, na época de d. João, havia um morro, está a Esplanada do Castelo - o morro foi desfeito em 1922. Sobrou apenas a Ladeira da Misericórdia, o primeiro logradouro público do Rio de Janeiro, que hoje liga nada a lugar nenhum.
Outros prédios ainda estão de pé, mas mudaram de função, como a Tesouraria Real, na Rua do Rosário. Ali funciona um restaurante. "Temos desamor ao passado. Infelizmente, prédios históricos foram demolidos para dar lugar a construções sem valor", afirma o professor de História e guia de turismo Milton Teixeira.
É possível desvendar o Rio de d. João em passeios guiados. Teixeira, por exemplo, está com a agenda lotada nos fins de semana até dezembro.
Nos roteiros, que podem ser marcados durante a semana, o professor faz questão de contar histórias pitorescas, curiosidades e até mesmo algumas fofocas da corte.
"Há quem diga", ele começa, "que o pintor Debret tinha uma quedinha por d. Carlota Joaquina. Como ele elogia essa mulher nas suas correspondências!", conta. Ele relata ainda a "vida de divorciados" que o príncipe regente e sua mulher levavam. "Ele vivia na Quinta da Boa Vista com os filhos mais velhos. Ela, em Botafogo ou na Chácara do Catete, com as duas caçulas. Só se encontravam em eventos públicos ou nos fins de semana, quando ela levava as meninas à Quinta."
Teixeira narra ainda a ousadia dos irmãos da Igreja do Rosário, que eram negros e mulatos, na chegada de d. João. "Os cônegos da Sé proibiram que eles beijassem a mão do príncipe regente e os trancaram. Eles conseguiram sair por uma porta lateral e entraram na igreja junto com d. João, que ia agradecer pela viagem bem-sucedida", conta.
O arquiteto e urbanista Antônio Agenor Melo Barbosa também leva grupos, principalmente de estudantes de Arquitetura, para conhecer o centro do Rio. E engata: "O Morro da Conceição é uma das áreas mais preservadas, remanescente ainda de antes da chegada da corte, remonta ao período colonial. Os espaços urbanos são os mesmos, inclusive os nomes dos logradouros."
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