Patronos da fermentada
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Para muitos cervejeiros, sejam eles fabricantes, vendedores ou consumidores, o patrono de sua deliciosa bebida é Gambrinus, aparentemente corruptela do nome Jan Primus (Jan I), o conde de Flandres, hoje uma região dividida entre França, Bélgica e Holanda. Pelo fato de aceitar ser membro honorário de uma associação de cervejeiros e as pessoas que o convidaram se sentirem honradas com isso, virou padroeiro da categoria. Alguns autores vão além. Consideram-no "pai" da cerveja. Apoiam-se em uma lenda do século 13, segundo a qual o diabo desafiou Gambrinus a fazer vinho sem uvas. Ele inventou a cerveja e venceu a aposta. Gordo e divertido, garante-se que viveu cerca de 300 anos. Antes de morrer, teria balbuciado com orgulho etílico: "Se houvesse bebido mais cerveja ao longo da existência, viveria muito mais." O gastrônomo e escritor catalão Néstor Luján, autor do livro Historia de la Gastronomía (Ediciones Folio, Barcelona, 1977), contesta o primado do conde Jan Primus, espalhado em Flandres e nos países germânicos. "É impossível aceitá-lo, pois o mundo antigo já conhecia a cerveja", diz. Outro argumento importante é o fato de não se ter certeza da existência do "pai" da bebida.
O gastrônomo e escritor catalão acrescenta que os céus oferecem patronos mais qualificados para a cerveja. Além de realmente terem passado por este mundo, contribuíram para seu aperfeiçoamento ou difusão. E, ao contrário de Gambrinus, ascenderam à glória dos altares. O primeiro citado por Luján é São Magnus, um beneditino medieval dedicado ao trabalho agrícola. Os pesquisadores o consideram um dos pioneiros no cultivo do lúpulo - a planta que confere à cerveja o aroma particular e o gosto amargo, contribuindo ao mesmo tempo para sua conservação. Viveu no antiquíssimo mosteiro ou abadia de Saint Gall, na Suíça. Documentos do século 10º revelam que eram produzidos ali três tipos de cerveja. Uma, muito fraca, destinava-se aos mendigos que chegavam pedindo ajuda ou aos peregrinos cumprindo promessas. Outra, mais alcoólica, servia para o consumo diário da abadia. A terceira, muito graduada e densa, era oferecida aos visitantes eclesiásticos ou à alta nobreza. Todo o religioso, homem ou mulher, consumia um volume expressivo de cerveja: entre dois e três litros por dia. Sedutora e higiênica, a bebida substituía a água quase sempre impura e, desse modo, prevenia doenças, dava prazer e alegria.
Obviamente, os mosteiros ou abadias da Idade Média também não inventaram a cerveja. Mas é inegável que mantiveram sua tradição, aperfeiçoando a arte, melhorando o aspecto, sabor e aroma. Enquanto puderam, mantiveram em segredo os avanços obtidos no processo de elaboração e detalhes importantes como a utilização do lúpulo. Dedicando-se ao cultivo dessa planta, São Magnus virou padroeiro dos cervejeiros alemães. Os franceses concederam a mesma distinção, por idêntico motivo, a São Arnolfo, o milagroso bispo de Metz. Contam seus devotos que, no escaldante verão de 642, durante uma procissão com suas relíquias, só um fiel teve a precaução de carregar uma jarra cheia de cerveja. O calor e a caminhada demorada tornaram o cortejo sedento. De repente, começou a sair da jarra uma cerveja fresca e espumante, suficiente para mais de 200 pessoas. São Magnus e Santo Arnolfo estão ligados à adição do lúpulo, mas quem deu a palavra sobre o poder antibacteriano da planta de origem européia, mostrando sua capacidade de aromatizar e conservar a cerveja, foi Santa Hildegarda von Bingen. Beneditina alemã, nascida na região do Reno, autora de livros sobre medicina, biologia, física, química, filosofia, além de obras espirituais inspiradas nas visões e êxtases que lhe incendiavam a alma desde criança, sustentou a tese esclarecedora em 1079.
Sempre que os católicos franceses relembram o milagre de Santo Arnolfo, os irlandeses contrapõem um elenco de prodígios semelhantes operados por Santa Brígida, padroeira de sua pátria, juntamente com São Patrício e São Columbus. Fundadora do mosteiro ou abadia de Cill-Dara, em Kildare, no século 5º, ela teria transformado inúmeras vezes água em cerveja. Certa ocasião, o vilarejo próximo enviou-lhe um barril repleto de leite para ser dado aos pobres. Ela mandou distribuí-lo e o líquido nunca esgotava. Quando todos se fartaram de leite, passou a sair cerveja do recipiente. Os devotos asseguram que o volume total equivaleu a 17 barris. Santa Brígida é relacionada a outros milagres parecidos. Antigamente, os irlandeses sempre brindavam em sua homenagem quando tomavam cerveja. Numa época de tisanas inócuas, só o céu conseguiria proteger o estômago e o fígado dos grandes bebedores.
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