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Penalidade mínima

Campeão mundial de mortes no futebol, Brasil não pune a violência e ainda permite o conluio de clubes com o crime, diz pesquisador

14 de dezembro de 2013 | 16h 00
Ivan Marsiglia

Domingo passado, final de tarde, o sociólogo fluminense Mauricio Murad assistia ao futebol em seu apartamento no bairro do Botafogo com seus dois filhos, um de 6 e outro de 10 anos. Foi quando o confronto entre torcedores do Vasco da Gama e do Atlético Paranaense explodiu, ao vivo e em cores, para todo o Brasil. "Senti minha casa invadida por selvageria e barbárie", conta o pesquisador formado na UFRJ, professor titular do programa de mestrado da Universidade Salgado de Oliveira (Universo) e referência internacional no tema da violência no futebol. Mesmo com décadas de experiência, Murad diz ter ficado chocado. "Não sabia o que dizer a meus filhos diante daquele filme de violência extrema, proibido para menores."

Jovem ferido durante confronto entre torcedores de Atlético Paranaense e Vasco, no domingo passado. - Carlos Moraes/ Agência O Dia
Carlos Moraes/ Agência O Dia
Jovem ferido durante confronto entre torcedores de Atlético Paranaense e Vasco, no domingo passado.

Antes do título da Copa das Confederações, na primeira década do século 21 o Brasil levantou a mórbida taça de campeão mundial em mortes de torcedores - ultrapassando as até então insuperáveis rivais Itália e Argentina. Somente de 2010 para 2011, o número de óbitos anuais na "pátria em chuteiras" quase dobrou: 23. E o ainda em curso ano de 2013 já registra o novo recorde de 30 mortos.

Apesar disso, e mesmo com a organização de uma Copa do Mundo marcada para junho de 2014, a omissão e o descaso continuam sendo a marca das autoridades brasileiras, alerta Murad. Na entrevista a seguir, Mauricio Murad, sociólogo, professor da Universidade Salgado de Oliveira, e autor de Para Entender a Violência no Futebol (Benvirá, 2012) explica como a brutalidade na Arena Joinville poderia ter sido facilmente evitada, denuncia a conivência de dirigentes de clubes com grupos criminosos ocultos nas torcidas organizadas - que, sublinha, são minoritários, de 5% a 7% de seus integrantes - e descreve as boas práticas internacionais de prevenção, punição e educação para o País virar esse jogo.

Como o sr. reagiu às imagens em Joinville?

Apesar de ser um pesquisador da violência no futebol há anos, as cenas me chocaram profundamente. Imagens de selvageria e descontrole que só têm comparação com aquelas da Taça Cidade de São Paulo, em 1995 (quando o Pacaembu se transformou em campo de batalha durante um jogo entre os juniores de São Paulo e Palmeiras, resultando em 101 feridos e um morto, Márcio Gasparin da Silva, de 16 anos). O que o Brasil todo viu na Arena Joinville foi brutal. E o descaso costumeiro da autoridade pública ficou ainda mais evidente pela total ausência da polícia. Era um clarão na arquibancada, eles se agredindo e eu me perguntando a todo momento: "Cadê a polícia? Cadê?". Foi uma sorte não ter havido nenhum óbito, porque o que ocorreu ali foi um conflito homicida. E com repercussão internacional: desde segunda de manhã não faço outra coisa a não ser conceder entrevistas para a imprensa estrangeira: TV japonesa, TV italiana, o Wall Street Journal, jornais holandeses e espanhóis. A tônica era: vergonha no país da Copa.

Qual é a explicação para tanta brutalidade?

Em duas palavras: impunidade e descaso. Veja quantos fatos tivemos este ano. Começou com a morte do menino boliviano em Oruro: aquilo provocou uma comoção social, todo mundo opinou, mas não aconteceu nada com os autores do homicídio. Depois, aqueles mesmos torcedores foram flagrados em outras brigas de torcida. E até furando a vigilância da Lei Seca. Eles estão presos? Não. Hoje a televisão nos mostra, com nitidez extrema, os rostos dos envolvidos na confusão em Joinville. No entanto, quantos estão presos até agora? Três? O que mais chama a atenção é o descaso completo: como se coloca um jogo daquele, considerado de alto risco, com um time que podia ser rebaixado, histórico de conflito entre essas duas torcidas e clima de ameaças mútuas nas redes sociais, num estádio sem polícia? Era uma tragédia anunciada no Orkut e no Facebook: tanto que a Fanáticos, torcida organizada do Atlético, proibiu a ida de suas mulheres e crianças à partida. Mas os responsáveis acharam por bem não pôr divisória entre as torcidas e prever segurança privada de - pasme - sete funcionários.

Vivemos um surto de violência no futebol? Em 2012, batemos o recorde mundial de mortes relacionadas ao futebol comprovadas por inquérito policial. A causa tem a ver com os fatores que acabei de citar, mas também com o crescimento das práticas de violência em geral no Brasil. Segundo um relatório da ONU, somos o quarto país mais violento do mundo. O segundo em mortes de adolescentes e jovens. Campeão de assassinatos à bala. E o que tem o trânsito que mais mata - só no ano passado, foram 42 mil mortos. É preciso entender a violência no futebol brasileiro no contexto da violência econômica, social e política do Brasil.

Mas qual a razão desse pico nos últimos dois anos, em um período de baixo desemprego e relativa prosperidade no País?

Crescimento econômico por si só não resolve o problema da violência. Ficamos na hipocrisia do discurso oficial traduzido em números, sem perceber o que está por trás deles. O caso do trânsito, que já citei, é um exemplo. O do tráfico de drogas é outro: hoje o crack atinge 98% das cidades brasileiras. E a impunidade: segundo o Tribunal de Contas da União, 95% dos processos criminais no Brasil não são finalizados - um absurdo completo! O desenvolvimento de um país depende também de fatores como a qualidade da educação, o funcionamento da Justiça, etc. É por isso que prefiro falar em violência "no" futebol e não "do" futebol.

Apesar disso, o fenômeno da violência no futebol tem sua dinâmica própria, tanto que ocorre também em países desenvolvidos.

Sim. Você tem a realidade macrossocial, da qual eu estava falando, e a realidade microssocial, que é essa dinâmica própria do futebol. Ele é um fenômeno de multidões apaixonadas - e a paixão tudo exacerba, é fácil se ultrapassar limites. E como na multidão os indivíduos presumem estar em anonimato, tendem a agir de maneira ainda mais transgressora. Então, é preciso entender a multidão para saber contê-la. E as nossas polícias estão despreparadas para lidar com elas. O que ficou claro na reação da PM às manifestações de junho. E também nas Jornadas da Juventude, quando o plano de segurança era tão absurdamente malfeito que o carro do papa parou num engarrafamento. Faltam conhecimento e estratégia operacional para se lidar com multidões. Tanto nos distúrbios de rua como nos do futebol, a nossa polícia entra em bloco atacando todo mundo. Passei cinco anos na Europa estudando protocolos internacionais e eles dizem o contrário: a força de segurança deve recortar a multidão, desagregá-la, não investir em bloco. O sentido jurídico e ético da repressão é estabelecer a diferença entre quem cometeu e quem não cometeu delito. Do contrário, você não pune os culpados, permite que eles se escondam na multidão e agride pessoas inocentes.

Além da correta intervenção nos conflitos, o que pode ser feito para evitá-los?

Políticas de prevenção são sete vezes mais baratas do que as repressivas. Por isso, nem que fosse por razão econômica, nossas autoridades deveriam investir em inteligência. A lei brasileira contra o crime organizado já permite a interceptação telefônica e eletrônica, além da infiltração de agentes em grupos de vandalismo. Detectamos que eles são uma minoria mesmo dentro das torcidas organizadas: cerca de 5% a 7% de seus integrantes. É por isso que nunca defendi a proibição das organizadas. Ademais, é uma medida inócua, pois elas reaparecem com outro nome e CGC, desmoralizando a autoridade. Ou, pior, vão para a clandestinidade. É perfeitamente possível desmontar esses grupos minoritários de dentro para fora.

Qual é o perfil dos arruaceiros?

São verdadeiros bandidos, com processo criminal aberto, passagens pela polícia, envolvidos com o tráfico de drogas e até com facções do crime organizado. Por isso, é difícil o torcedor pacífico denunciá-los. Às vezes vejo na TV: "Por que o chefe da torcida organizada não entrega?". É perigoso. Então é trabalho da polícia, tem de haver monitoramento e quem sabe um disque-denúncia sigiloso para as torcidas - ideia que defendo há 20 anos. Quando presenciei o conflito entre a Gaviões da Fiel e a Mancha Verde na Av. Inajar de Souza (que resultou na morte de dois palmeirenses, André Alves Lezo e Guilherme Vinicius Jovanelli Moreira, em março de 2012), na zona norte de São Paulo, quem me avisou que haveria briga foi a própria polícia, a partir do monitoramento de ameaças na internet. Se a polícia sabia, por que não se pôs preventivamente lá e impediu a tragédia? No dia, havia uma única patrulhinha com dois cabos e um soldado. A declaração deles foi simplesmente estarrecedora: "Ficamos acuados olhando aquilo tudo". Como assim? As autoridades são omissas, inoperantes, sabem o que acontece e quem faz, mas não cumprem suas funções institucionais e constitucionais.

O pesquisador Bernardo Buarque de Hollanda, da FGV/Rio, diz que há também a responsabilidade dos clubes, que mantêm uma relação de ‘dependência recíproca’ com as organizadas. O sr. Concorda?

Sim. Existe uma cumplicidade entre muitos dirigentes de clubes e os setores vândalos das torcidas organizadas - que, repito, não são as organizadas como um todo. Essa conivência tem caráter ainda mais perigoso porque os dirigentes usam esses grupos como cabos eleitorais nas disputas internas e também fora delas - em suas pretensões políticas externas. Candidaturas a vereador, deputado, etc. Em troca, esses grupos recebem ingressos, subvenção para transporte e hospedagem nas viagens do time e produtos licenciados do clube para revender. E é óbvio que, quando há um problema mais grave, como agora, os clubes têm um interesse frouxo em puni-los. É por isso que medidas esportivas como perda de mando de campo ou pontos na competição são importantes, mas insuficientes: é preciso que as punições recaiam no âmbito criminal.

Por que uma ideia simples e barata, como a de obrigar os arruaceiros a comparecerem à delegacia durante os jogos do seu time, nunca pegou no Brasil? Ela funcionou bem na crise dos hooligans na Europa nos anos 1980.

Pois é. Essa é uma excelente ideia, que eu já defendia no primeiro relatório que fizemos, ainda na década de 1990. É uma medida a um só tempo punitiva e preventiva, pois tira o sujeito de circulação nos dias de jogos tanto dos estádios quanto das ruas. Na Europa o padrão era o seguinte: o arruaceiro tinha que chegar na delegacia duas horas antes do jogo e esperar outras duas para ir embora, sob pena de prisão em caso de desobediência. Nas poucas vezes em que essa ideia foi aplicada corretamente no Brasil, teve êxito extraordinário. Mas também ouvimos relatos como o de um torcedor que foi cumprir essa orientação no DP e ouviu do delegado: "Vai ali fora, compra duas pizzas gigantes pra nós e pode ir embora". O torcedor, claro, nunca mais se apresentou. Ou seja, no Brasil tudo acaba em pizza mesmo.

É exagero dizer que as cenas de horror em Joinville podem se repetir durante a Copa?

As autoridades argumentam que o público da Copa é outro e que tudo será diferente. De fato, é outro. No entanto, 90% das 30 mortes deste ano relacionadas ao futebol no Brasil aconteceram fora dos estádios. Não adianta majorar o preço dos ingressos com a ideia de que isso vá impedir a violência. Em 2014 as ruas vão estar cheias, os bares estarão abertos e o turista estrangeiro corre risco, sim.

O sr. sustenta que o futebol deveria servir de laboratório para uma política de segurança pública no Brasil. De que maneira?

Pelo impacto simbólico e coletivo que o futebol tem em nosso país, eu defendo que esse plano de segurança estratégico a ser aplicado dentro e fora dos estádios - de repressão no curto prazo, prevenção no médio prazo e reeducação no longo prazo - possa servir de modelo para outros grandes eventos de massa no Brasil. E, respeitando-se as especificidades de cada tipo de violência e grupo atingido, como um ensaio para a nova política nacional de segurança de que precisamos.






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