Senhora de Cao: prova do poderio feminino
Foram necessários 8 meses para decifrar a múmia (única na história)
Se o Senhor de Sipán revelou ao mundo o poderio e a riqueza dos líderes mochicas, as Huacas do Sol e da Lua são o mais impressionante exemplo da arquitetura desse povo. Em um complexo a apenas cinco quilômetros de Trujillo, terceira maior cidade do Peru, os mochicas construíram duas imensas pirâmides de adobe e fundaram ao redor delas sua capital.
Huacas - em quíchua, lugar sagrado - eram os templos onde funcionavam os centros administrativo e cerimonial da cidade. Elas só foram descobertas em 1991, quando, de fato, iniciou-se a investigação arqueológica. Antes disso, os huaqueros, em busca de ouro, destruíram boa parte desse patrimônio.
A Huaca do Sol é uma pirâmide de 43 metros, onde eram realizadas as funções políticas. Reza a lenda que ela foi erguida em três dias por 250 mil homens e com 140 milhões de adobes. Como sofreu saques, está fechada para turistas. As escavações ali ainda não começaram.
Em compensação, o Templo da Lua é uma obra-prima. Primeiro porque revela uma técnica de construção incrível, com cinco níveis arquitetônicos. A explicação é fácil: cada geração de mochica ''enterrava'' as estruturas dos antepassados, construindo sobre elas, sem destruí-las, um novo andar.
É também no Templo da Lua que os mochicas realizavam cerimônias sagradas, como a do sacrifício, para aproximar-se do mundo divino. Os corpos (e sangue) serviam como oferendas para os deuses. Em troca, eles pediam bom clima.
Nas paredes do templo, os mochicas deixaram gravadas figuras que exibem ritos, mitos e deuses, com destaque para o ai-apaec - ele aparece em quase todos os murais. O mais bem preservado é o da fachada norte, com 75 metros de largura e 22 metros de altura. Ali estão representações de guerreiros, sacerdotes e seres mitológicos.
Na Huaca da Lua também foi encontrada uma tumba com 40 guerreiros, o que prova que o povo era formado principalmente por homens jovens e fortes, entre 14 e 34 anos.
Mulher no poder
Diante desse quadro da sociedade, nem os arqueólogos esperavam descobrir a tumba de uma jovem mulher que, tudo indica, foi líder dessa civilização. Batizada Senhora de Cao, ela foi encontrada em 2005 no Sítio Arqueológico El Brujo, também nos arredores de Trujillo.
Além do fato de ser mulher, a descoberta impressiona porque a Senhora de Cao foi mumificada - prática nunca antes vista nessa cultura. Seu corpo estava envolto em 26 camadas de mantos de algodão e pesava 120 quilos. ''Foram necessários oito meses para decifrá-la'', conta o arqueólogo Antônio Cruz.
De fato, a Senhora de Cao conserva unhas, cabelos, dentes, pele e tatuagens por todo o corpo. O embalsamamento, aliado ao tempo seco e aos pigmentos de cinabre (sulfato de mercúrio) com os quais foi pintada no funeral, impediram a decomposição. Nessa época, 300 d.C., ela teria entre 20 e 25 anos.
Os indícios de que era uma nobre mochica foram encontrados no sarcófago: coroa de cobre, cetros, 360 placas douradas, 15 colares de turquesa e 44 narigueiras, além de 130 cerâmicas. Essas relíquias ainda não têm museu, previsto para este semestre. Enquanto isso, a Senhora de Cao está guardada a sete chaves no laboratório do El Brujo.
Huaca da Lua: www.huacadelaluna.org.pe; 11,20 soles (R$ 7). El Brujo: R$ 7
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