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Ser negro, aqui e lá

Como brasileiros que vivem nos Estados Unidos lidam com a questão racial

25 de outubro de 2008 | 21h 47
Flávia Tavares - O Estado de S.Paulo

Alexandre da Luz saiu do subúrbio de Porto Alegre há três anos. Ele não aparenta os 40 anos que tem. Com a mulher, Jucilene, decidiu tentar uma vida melhor em Washington D.C., depois de trabalhar por anos na Febem de sua cidade natal.

 

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Versão em inglês desta matéria no 'Washington Post'

Alexandre é negro. Nunca foi militante e só começou a discutir o assunto quando um chefe, envolvido com o movimento negro, começou a lhe falar sobre a necessidade de se manter fiel à identidade racial. Não foi difícil entender o discurso do superior. Na Febem, como em qualquer centro brasileiro de detenção de menores (ou de maiores), a maioria dos internos é de negros. Os faxineiros são negros. Os vigias, também. Vá subindo na escala hierárquica e os personagens vão embranquecendo. Pois sendo negro e pobre no Brasil, a fala de Alexandre quando perguntado sobre sua vida nos Estados Unidos surpreende: "Eu aprendi o que é racismo aqui."

Que lição é essa que um homem na base da pirâmide social brasileira pode tirar sobre racismo em solo americano? O que ele ainda não teria experimentado, tendo sido chamado de "macaco", "crioulo" e "negão" por colegas na escola? A situação inédita foi a de ter sido discriminado pelos "irmãos", por outros negros - dessa vez, os americanos.

No Brasil, ele já havia sofrido retaliações de outros negros, geralmente os mais claros e estudados. Não raro alguém nega a própria negritude, na esperança de se afastar de sua origem e ter mais oportunidades. Mas nos EUA, onde, na cabeça de Alexandre, todos têm orgulho de sua cor, ele esperava os braços abertos de seus iguais e foi recebido com bem menos do que isso.

"Alguns ?irmãos? vinham prontos para me cumprimentar e eu abria um sorrisão. Assim que percebiam meu sotaque, fechavam a cara", lembra Alexandre, que trabalha com construção civil, ilegalmente. Seu sotaque entrega a condição de imigrante. Após três anos nos EUA, ele mal fala o básico de inglês.

A explicação que Alexandre encontra para o tratamento que os afro-americanos lhe dispensam é simples: emprego. Na disputa por trabalhos pesados, os empregadores tendem a escolher latinos, negros ou não, em vez de negros americanos. "Há muitos estereótipos que sugerem que os negros americanos são difíceis de lidar, preguiçosos. Claro que não é verdade. Isso surgiu para justificar o argumento de que nós não servíamos para ser livres. Depois da Guerra Civil, esse mito continuou para perpetuar o argumento de que nós não servíamos para ser cidadãos também", explica Jabari Asim, editor da revista Crisis e autor de diversos livros sobre a questão racial nos EUA.

Alexandre endossa a explicação de Asim e acrescenta, aplicando uma dose do racismo que ele diz ter aprendido nos EUA: "Pior é que é verdade. Os negros americanos não querem nada com nada. E nós, brasileiros, aproveitamos a chance."

O baiano Livaldi Pereira, mais conhecido como Baba Jan, traçou um caminho raro para brasileiros chegarem aos EUA. Migrou a convite. Foi chamado a morar em Washington para ensinar capoeira e música a jovens afro-americanos de áreas carentes. A cultura é sua arma para aproximar negros dos dois países e afastar crianças e adolescentes americanos das tentações de atividades perigosas e ilícitas. Na escola em que dá aula, Baba Jan é respeitado. A educação quebra o isolamento que os negros americanos impõem. "Os jovens acham que o hip hop e o gueto são sua única alternativa. Adultos têm menos resistência", conta, com uma fala mansa.

Baba Jan tem 30 anos e nasceu em um bairro muito pobre de Salvador. Lá, pessoas de todas as cores interagiam naturalmente - a condição social os unia. Ele percebeu ainda criança que negros no Brasil precisam "embranquecer" para subir na vida. "Para o negro ser negro, tem de sair do Brasil. Nos EUA, as pessoas podem ostentar orgulhosamente suas origens", diz, ostentando as suas, em seu cabelo rastafári.

O brasileiro estranhou ao notar que, nos EUA, são os brancos que mais se interessam pela cultura afro-brasileira. "O negro americano se perde porque se rebaixa. E é isso que o sistema quer. O branco, em compensação, quer aprender cada vez mais." Baba Jan fala do "sistema", mas tem dificuldade em explicar como este é ao mesmo tempo opressor e aberto ao negro americano que quer se inserir. "As portas estão abertas. Mas eles não entram", resume.

O radialista Toni Regusters, que apresenta um programa de música brasileira voltado à comunidade afro-americana de D.C., concorda. "O problema está no acesso à informação sobre as oportunidades. Sabemos que elas existem, porque vemos pessoas bem-sucedidas ao nosso redor, mas não sabemos usá-las."

O estúdio de capoeira de Baba Jan é a alguns quarteirões da Howard University, uma universidade de alunos majoritariamente negros em um bairro idem. É comum ver nas ruas jovens negros usando camisetas estampadas com a imagem de ícones do movimento negro americano, como Malcolm X, Martin Luther King e, agora, Barack Obama. Nada parecido acontece no Brasil, onde os ícones negros vêm predominantemente da música. Ou do futebol.

Miriam Chantel é uma carioca alta, grande, chama a atenção por onde passa. Mora em Washington D.C. há 12 anos. Sua mãe é passadeira da Embaixada do Brasil nos EUA, por isso ela não está ilegal no país. Fala um inglês bem pronunciado, tem os cabelos curtos e já foi percebida como americana algumas vezes. Quando, numa fila de cinema, falava com a irmã em português, uma senhora americana perguntou: "Que língua é essa? De onde vocês são?"

"Somos brasileiras e falamos português", respondeu Miriam.

"Oh, não sabia que havia negros no Brasil", disse a senhora.

Há, sim. De fato, o Brasil é tido como o país com o maior número de negros fora da África. Há a expectativa de que, ainda este ano, a população que se autodeclara negra ultrapasse a que se denomina branca. Ainda assim, os negros brasileiros têm os piores índices de educação e salários - a remuneração média dos negros é metade da dos brancos e os negros ocupam apenas 3,5% dos cargos de chefia.

"Mesmo trabalhando como garçonete, tenho uma vida aqui que não conseguiria ter no Brasil", afirma Miriam. Ela e o marido - Roberto, também brasileiro, que toca numa banda de música brasileira com Baba Jan - têm um carro, saem para jantar em bons restaurantes e pagam uma escola particular para o filho Matthew, de 4 anos. Roberto, que vive em Washington há mais de 20 anos, salienta que a economia está piorando para todos, negros, brancos, latinos... E apesar de confiar em que Barack Obama possa vir a ser um grande presidente, acredita que os americanos não estão prontos para aceitá-lo. "Olha, capaz que ainda rola um atentado contra ele, viu?", diz um desconfiado Roberto.

Na escolinha, o filho de Miriam e Roberto experimenta uma integração com crianças de todas as etnias que a brasileira apenas sonhou para si. "As novas gerações não têm esse sentimento de separação. Convivem com todo tipo de gente sem fazer distinção de cor ou origem", comemora. O escritor Jabari Asim também aposta num futuro de maior aceitação entre negros de diferentes origens. "Teremos de prestar atenção ao que acontecerá à segunda geração de afro-latinos nos EUA. Normalmente, eles acabam se casando com afro-americanos e as diferenças vão se diluindo", diz.

Miriam pensa que o Brasil ainda está longe desse cenário de integração, mesmo 120 anos depois da abolição da escravatura. Por isso, apesar da saudade, não tem planos de voltar.

Num ambiente bem diferente, longe do trabalho braçal e da ilegalidade, está o geógrafo Ronaldo da Silva, de 35 anos. Ele é goiano e bolsista na American University, onde desenvolve sua tese de doutorado. É o segundo mais jovem de 17 irmãos. Desses, só dois foram para a universidade. E só Ronaldo tem pós-graduação.

Ele é um exemplo clássico das estatísticas no Brasil, onde somente 6 em cada 100 jovens negros entre 18 e 24 anos freqüentam instituições de ensino superior. "Conforme ia subindo nos degraus de escolaridade, meus amigos negros iam desaparecendo", conta. Seu testemunho é de que, no ambiente universitário, o preconceito praticamente inexiste. Negros e brancos americanos mais educados não discriminam os colegas afro-latinos, porque a convivência nas salas de aula derruba a resistência às diferenças. "Colocar o negro na universidade é a única forma de promover a formação de uma classe média de negros e, assim, de lideranças do movimento." Com essa idéia em mente, Ronaldo vê com entusiasmo a figura de Barack Obama. "Talvez sua ascensão seja inspiradora, mostre ao negro brasileiro que há outras formas de ser bem-sucedido que não num time de futebol."

O racismo institucionalizado que os EUA viveram até o movimento pelos direitos civis contribuiu para que os negros americanos criassem uma espécie de autodefesa. Esta é a opinião da professora de sociologia Vânia Penha-Lopes, uma negra brasileira, "daquelas que não deixam dúvidas", que dá aulas no Bloomfield College, em New Jersey. "O afro-americano sofreu muito com a segregação. Ele se isola por medo de perder o que conquistou desde então", diz. O radialista Tony Regusters completa: "Há uma paranóia a ser superada entre os negros americanos. Não só contra pessoas de outros países, mas entre nós mesmos."

Vinda de uma família de classe média do Rio de Janeiro, Vânia admite que o fato de o Brasil nunca ter tido "um racismo por lei" contribui para que o preconceito seja mais velado. A socióloga acredita, porém, que o preconceito dos brancos americanos também está mais sutil, graças à luta do movimento negro, que tornou o racismo execrável socialmente e criou o "politicamente incorreto". E o jornalista Jabari Asim segue a mesma linha. "Depois dos anos 60, o racismo nos EUA se tornou mais disfarçado, sim. Antigamente, alguém poderia dizer a um negro que o emprego não seria dele pelo simples fato de não querer contratar um negro. Agora, o discurso é algo como ?você não é o que estamos procurando?. Algumas pessoas mudaram seu sentimento, outras estão apenas obedecendo à lei", lamenta.

Vânia é bisneta de escravos e, além de bacharel em ciências sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é mestra em antropologia e doutora em sociologia pela New York University. Ela fala sobre sua carreira reverberando um ensinamento que, ainda criança, ouviu de sua mãe: "Filha, como você é negra, todo mundo espera o pior de você. Esteja sempre limpinha e seja sempre excelente, para, talvez, ser considerada boa."

Numa noite chuvosa de um domingo de julho, a banda de Baba Jan toca numa boate em Springfield, no subsolo. Brasileiros de todas as cores e camadas sociais dançam e cantam, alguns de olhos fechados, músicas populares brasileiras. A saudade de casa não tem preconceitos, aloja-se no coração de qualquer imigrante. Alexandre dança agarradinho a Jucilene. Roberto toca sua guitarra, empolgado, enquanto sua mulher, Miriam, está servindo mesas em um restaurante no bairro de Adams Morgan. Baba Jan balança suas tranças impunemente, enquanto toca a percussão.

Enquanto isso, Ronaldo estuda a integração sul-americana no quarto de um apartamento próximo a American University. Vânia está de férias no Rio de Janeiro. Jabari Asim trabalha em seu novo livro, sobre o candidato democrata à Casa Branca, Barack Obama. Tony Regusters fala sobre o Brasil aos negros americanos que possam se interessar, em seu programa na WPFW-FM.

"Melhoramos muito em pouco tempo, tanto brasileiros quanto americanos", diz Ronaldo. "Por isso, sou otimista."

* Flávia Tavares produziu esta reportagem no programa para jornalistas latino-americanos do Washington Post, promovido pelo Woodrow Wilson Center. A matéria será publicada no site washingtonpost.com esta semana





Tópicos: Brasil, EUA, Trabalho, Negros

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