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Tênue grito

Marina e Eduardo Campos querem vocalizar o protesto contra a mesmice do PT-PSDB, mas quem grita precisa ter o que dizer

02 de março de 2013 | 16h 45
Carlos Melo

Os desacertos entre PT e PSDB são antigos, anteriores a ambos: quando se articulava a formação do partido de Lula, o convidado Fernando Henrique preferiu ficar no MDB. Feriu suscetibilidades. Em 1985, o embate pela Prefeitura de São Paulo entre Eduardo Suplicy e o futuro FHC levou à vitória de Jânio Quadros. A desinteligência repercutiu nacionalmente, o retrocesso foi creditado ao PT, naquele tempo refratário a concessões. É uma história longa, que já está ficando chata.

Marina Silva registra programa da Rede - Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão
Marina Silva registra programa da Rede

No princípio, havia a esperança de aproximação. As disputas entre FHC e Lula, na década de 1990, tornaram, no entanto, o relacionamento mais difícil. Mas rompimento mesmo se deu nas campanhas de José Serra, chegando duas vezes ao paroxismo (2010 e 2012). Trata-se de tensão comparável aos desencontros de um casal que não deu certo: passaram a se odiar porque não podiam mais se amar, adorando-se pelo avesso.

De modo que onde houver um petista haverá um tucano para contradizê-lo, e vice-versa. São, com efeito, os mais fortes partidos. Mobilizam recursos e milhões de eleitores e simbolizam distintas práticas políticas e estéticas: o popular PT e o aristocrático PSDB. O PT de militantes de amor cego, incondicional e acrítico. O PSDB, seu contrário, de ressentimento contido, pleno de críticas e poucas mediações. Cada um com seus interesses, esticam uma novela que poucos ainda suportam.

É um processo histórico que comprometeu a qualidade do ar. Desenvolveu uma atmosfera pouco amigável que faz sobrar balas perdidas para quem não está nem com um nem com outro. Para muita gente, passou dos limites; seria hora de acabar. Ao vislumbrar uma nova eleição, a maior angústia é imaginar que tudo acontecerá do mesmo jeito, mais uma vez. Sem novidades, na mesmice que enjoa.

A maior tendência é que seja exatamente assim: mantidas as circunstâncias do presente, Dilma se coloca como favorita. Seu governo não é uma Ferrari, nem o País um paraíso, mas as condições ainda lhe dão combustível potente. Por sua vez, difícil imaginar que o oponente não venha do PSDB: tempo de TV, apoio político e recursos financeiros, articulação com grandes grupos - nada disso brota do chão nem pode ser desprezado. O PSDB é ainda a oposição mais encorpada e feroz.

PT e PSDB sabem disso e a manutenção do status quo de cada um interessa a ambos. Nos últimos dias, fizeram gestos quase reflexos. Lula e Dilma provocaram tucanos, FHC e Aécio cutucaram petistas. De um modo um tanto manjado, revelaram os adversários que preferem ter, com segurança e sem surpresas: um enfrentar o outro.

Mas a antecipação da artilharia e a precipitação da disputa eleitoral fazem pensar: o que pretendem? Claro, em primeiro lugar, firmar e reafirmar candidaturas. Aécio precisa consolidar seu nome entre companheiros de partido e no campo mais amplo da oposição - como se sabe, nem todo tucano paulista suspira por esse mineiro. E Dilma, após a desastrada movimentação do PT, necessita reafirmar a autoridade, mostrando que será ela, e não o padrinho, candidata no ano que vem. Mas o que mais temem e o que os faz jogar esse jogo que parece combinado?

Sabem que, ao longo do tempo, a mesmice da polaridade sufoca. Cansa, dos eleitores mais fiéis aos mais apáticos. Dispersa a atenção e o interesse. Desgastando os materiais, exaurem-se como opção. Há muito tempo, têm pouco a dizer. E quase nada é novo. Há, notoriamente, um esgotamento tanto do modelo e instrumentos de desenvolvimento quanto do discurso e das lideranças - se é que se pode usar esse termo. Há gente que anseia por coisa diferente.

Imaginem a loucura de olhar o mesmo quadro por décadas a fio. Apreciá-lo por repetidas vezes, sempre, indefinidamente, sem esperança do novo, angustia. Nem se fosse obra de um grande mestre e excepcional artista. Não é o caso. A paisagem fixa, intransitiva, sem movimento, calada, a água parada, a mosca suspensa no ar, o mesmo borrão no chão, os personagens inexpressivos, um aspecto geral sensaborão... Um dia isso tudo perde sentido, gerando desistência ou revolta: o abismo, o desespero, a rebeldia, o grito. O clamor pelo novo.

Marina Silva e sua Rede Sustentabilidade, Eduardo Campos e seu enredo de imprevisibilidade se voluntariam: querem vocalizar o grito, dispostos a romper com a mesmice, agitar as águas, dar movimento à paisagem estática. Mudar o quadro. Mas encaram vários problemas. O principal é o fato de ambos correrem na mesma faixa, na intersecção de tucanos e petistas.

Juntos poderiam alargar o espaço, ampliar à direita e à esquerda, pelo menos até o muro intransponível do governismo e do petismo, que parece mais sólido que Aécio. Na direção dos tucanos, qual seria o limite? Não é por outro motivo que Marina preserva Campos e Aécio passou a alvejar os dois.

Outra dificuldade é efetivamente estarem juntos, o que é pouco provável. A Rede de Marina aspira ao novo e ao puro. O PSB de Campos não é exatamente assim. Ademais, poder é poder: quem o cederia? Separados somam pouco. Para estarem juntos, depende do que nem sequer sabemos que não sabemos: o improvável, um cisne negro. De certo, a primeira coisa é entender que mesmo quem grita precisa ter o que dizer.

* CARLOS MELO É CIENTISTA POLÍTICO

 




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