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Turistas ou Viajantes?

31 de julho de 2007 | 0h 57
O Estado de S.Paulo

Mr. Miles está triste. A notícia do passamento de sua querida amiga Ursula H. o alcançou em Barrow, no Alasca, cidade que fica mais de 500 quilômetros ao norte do Círculo Polar Ártico - e onde o sol não se põe nesta época do ano. Dessa vez, contudo, nosso solerte viajante sentiu-se na mais escura das noites e pediu permissão para uma curta digressão pessoal em sua coluna:

''''Ursula, my friends, foi dessas raras pessoas capazes de transformar a sua vida e a dos que a conheceram em uma jornada de emoções e alegrias. Era, nesse sentido, uma viagem em si mesmo. Uma travel woman, indeed.''''

Aos leitores que supuseram que nosso correspondente foi a Barrow para se encontrar com algum líder esquimó (a cidade é a base de uma população de mais de 60 mil nativos inupiat que vivem nas barras do Ártico), mr. Miles lamenta decepcionar. ''''Dessa vez, my friends, vim apenas para a festa de aniversário de Frank Tate, o simpático proprietário do restaurante Pepe''''s North of the Border, que conheci, anos atrás, nos bastidores do programa de Johnny Carson, na televisão americana.

A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles: (...) me irritam as hordas de turistas que vestem bonés, usam máquinas no pescoço, compram bibelôs. Tenho a sensação de que o turismo destrói uma cidade (...). A minha questão é: o que diferencia turistas como eu, que querem viver uma cidade, de turistas como ''''eles''''?

Guilherme Alpendre, por e-mail

''''Well, my friend: as diferenças físicas, of course, você mesmo acabou de descrever. Viajantes discretos são menos evidentes do que turistas disfarçados de turistas. Se você perguntar para um pickpocket, ele vai achar os membros do segundo grupo muito mais interessantes. Don''''t you think so?

Também me incomoda conviver com legiões de excursionistas, sobretudo em função do comportamento pouco elegante das multidões. Mas, ao contrário de você, my fellow, procuro enxergar em cada turista-comprador-de-bibelôs um futuro apreciador da humanidade. Sempre me ocorre, Guilherme, que quase todo apreciador de bons filmes iniciou-se vendo um gato e um rato se matando incessantemente numa matinê de domingo. Do you know what I mean?

Sou forçado, however, a concordar com seu raciocínio de que, em alguns casos, o turismo realmente destrói lugares. O mundo está cheio de pequenas vilas pitorescas que sucumbiram ao assédio dos visitantes e travestiram-se de tal forma que seus próprios habitantes já não são capazes de reconhecê-las.

That''''s a shame. Comunidades mais sábias, otherwise, souberam fazer da presença dos visitantes o capital que lhes faltava para proteger e valorizar seu patrimônio histórico, artístico e cultural.

Anyway, my friend, louvo o seu prazer de ''''viver uma cidade''''. É, como você sabe, o que me agrada também. Por isso, procuro épocas e horários alternativos para as grandes atrações e me arrisco a explorar o que é menos evidente sempre que possível. Mas não me engano, Guilherme: mesmo sem boné ou máquina fotográfica, sou um turista como eles, sempre com mais a aprender.''''

Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 131 países e 7 territórios ultramarinos. É colunista e conselheiro editorial da revista ''''Próxima Viagem ''''