
Um campeão arrancado das uvas ancestrais de Maiorca
O Ànima Negra quase ficou ilhado. Mas uma garrafa chegou a mãos importantes
"Este ano não vou matar o porco" diz Miquelángel Cerdà, vinhateiro da Ilha de Maiorca. "Como? Não era uma conversa sobre vinhos?" "É... o porco, todos os anos nossa cidade inteira participa, comemorando o dia da morte de Franco." E, animado, narra em detalhes a matança e como a comida é preparada, sob a direção do mais notável cidadão da pequena Felanitx: o pintor Miquel Barceló.
O vinho custou a aparecer no assunto, como demorou a entrar na vida dele. "Sou engenheiro aeronáutico, quer dizer, quase sou. Larguei a carreira faltando um mês para me formar. Comprei um barco e fiquei dez anos navegando no Mediterrâneo." Numa viagem, Cerdà viu que na Ilha de Stromboli cada casa tinha um microvinhedo, para ter vinho da família, nada mais. Achou boa saída para a crônica dureza na hora de comprar suas garrafas.
Ele e dois amigos compraram um vinhedo abandonado de Callet, uva autóctone menosprezada. "Todo mundo só queria plantar Cabernet Sauvignon e essas uvas maiorquinas iam sumindo." Recuperaram tudo, vinificaram usando o estábulo abandonado de um deles, Barceló contribuiu com o desenho do rótulo e nasceu o Ànima Negra, que quase consumiram entre as famílias. Mas uma garrafa acabou encontrando o destino do crítico do El Mundo, Victor de la Serna. O Ànima Negra foi eleito vinho revelação do ano de 1999. Daí foi aos 94 pontos de Robert Parker, a escolha como vinho da semana de Jancis Robinson e a consagração. Tudo em pouquíssimo tempo. "Em uns meses passamos a enfrentar o dilema da demanda excessiva. Para mantermos nosso vinho como queríamos não podíamos vender tudo que queriam os importadores. Foi um susto."
Cerdà é um radical da autenticidade. "Plantamos abricós junto aos vinhedos, olhamos a Lua, porque os antepassados prestaram atenção nela, seguimos as estações, mas não somos nada dessas coisas da moda: orgânicos, biodinâmicos. Somos gente insular. Quando uma pessoa é um ilhéu precisa pensar nas variações de clima e ter previsão para tudo. Minha avó foi uma vez a Palma, 30 quilômetros para ela era uma distância incrível." O barco? "Vendi em 2000, para comprar barricas", conta, rindo. "Mas sinto falta de uma coisa. Gostava de deitar no tombadilho e ver a tempestade caindo no mar. Agora temo a chuva por causa das uvas."
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