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Dias Lopes

Poucas receitas da culinária carioca se espalharam tanto pelo Brasil como o picadinho. Com popularidade superada apenas pela da feijoada, o picadinho nasceu como refeição completa em finais do século 19, no restaurante G. Lobo, da Rua General Câmara, 135, no Rio. São pedaços miúdos de carne, cortados na faca, dourados em óleo, temperados a gosto e servidos com acompanhamentos diversos: arroz, ovo poché, batata noisette (redondinha e dourada na manteiga), couve refogada, ervilha, farofa, às vezes caldo de feijão e banana frita ou à milanesa. Popularizou-se no bairro da Lapa, berço da boemia carioca.

Com a mesma finalidade revigorante - alimentava boêmios antes ou depois dos excessos etílicos -, o picadinho subiu de classe social nos anos 50 ao ser introduzido no cardápio da boate Meia-Noite, do Copacabana Palace, o deslumbrante hotel da Av. Atlântica, 1.702, cujo glamour ainda não foi igualado no Brasil. No início, a receita era feita em panela de cobre. Ia à mesa em recipiente de barro, com arroz, verdura picada, farinha de mandioca e ovo poché. Aperfeiçoado, deixou de ser comida de pobre para se tornar prato de rico. O upgrade é atribuído a Paul Rufin, ex-chef executivo do Copa, que batizou o picadinho com o nome da boate. Ela só abria à meia-noite e fechava ao raiar do dia.

linkConfira a receita: 'Picadinho Meia-noite'

O mais precioso registro sobre a boate Meia-Noite e sua receita de sucesso está no livro de Fery Wünsch Memórias de um Maître de Hotel (Edição Particular, RJ, 1983). O autor, nascido na extinta Checoslováquia, veio para o Brasil em 1930, tornando-se maître sênior e a seguir diretor dos restaurantes do Copa. Trabalhou ali por 40 anos. Antes de chegar ao Brasil, atuou em dois restaurantes históricos da capital francesa: o Café de Paris e o Boeuf à La Mode. Também prestou serviços ao rei Fuad I, do Egito, pai do célebre mulherengo rei Farouk.

Fery contou no livro que ficou chique saborear o picadinho meia-noite. Muitos clientes da boate o solicitavam. Eram milionários e personalidades cariocas, em "esticadas", como se dizia, depois de shows, filmes ou de espetáculos artísticos no Teatro Municipal; políticos, diplomatas, artistas e intelectuais nacionais e internacionais; ou estrelas de Hollywood em visita à cidade. Provaram e gostaram do picadinho meia-noite, entre outros, a princesa italiana Ira de Furstenberg, que causou alvoroço ao trocar o marido europeu pelo industrial brasileiro Baby Pignatari; a atriz e modelo Ilka Soares; o poeta Augusto Frederico Schmidt; o cronista Rubem Braga; o empresário João Havelange, futuro presidente da Fifa; o filólogo e dicionarista Antonio Houaiss.

Segundo Fery, o picadinho meia-noite era o prato favorito de João Neves da Fontoura, nascido no Rio Grande do Sul, duas vezes ministro das Relações Exteriores do Brasil. Também foi saboreado por outros gaúchos transplantados para o Rio de Janeiro pela Revolução de 1930, a começar por Getúlio Vargas e Oswaldo Aranha. Entretanto, não por acaso, os adeptos mais fiéis da especialidade sempre foram os playboys, começando por Jorginho Guinle - sobrinho do hoteleiro Octávio Guinle, fundador do Copacabana Palace em 1923 - e seus grandes amigos: Baby Pignatari, Carlos Niemeyer, Ibrahim Sued, Mariozinho de Oliveira e Sérgio Peterzone. Curiosamente, em 2004, o último desejo do Jorginho não foi o picadinho meia-noite. Internado em razão de um aneurisma na aorta abdominal, ele assinou um termo de responsabilidade e abandonou o hospital. Na saída, disse a Claudia Fialho, diretora de relações públicas do Copa, que ia para o céu. Ao ver o espanto da amiga, pois todos sabiam do seu obstinado ateísmo, acrescentou: "Vou para o Copa." Acomodado no quarto 152, pediu um estrogonofe de frango, um milk shake como sobremesa e, para beber, chá earl grey. Morreu dormindo.

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