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O fim do Geocities encerra a saudosa era da web 1.0

01 de novembro de 2009 | 17h 38

Na semana passada, a memória da web perdeu um pouco com o fim do site Geocities.com.

Inaugurado em 1994, ele não tinha mais razão de existir e provavelmente foram só uns poucos saudosistas que lamentaram ou mesmo compreenderam a perda. Nesses tempos de web 2.0 em que qualquer um abre seu blog, lugar para criar página estática não faz qualquer sentido.

Mas já fez. Muito marmanjo que ganha seu dinheiro vendendo consultoria sobre o mundo digital começou publicando incerto seu primeiro site ali. Um site, preferencialmente, com placas de "em construção" que piscavam, letras multicoloridas e todos os horrores gráficos e móveis daquela primeira geração da web.

Outros dinossauros da web 1.0 ainda estão aí. Muito antes do Google, por exemplo, pesquisa séria, de peso, era feita no Altavista. Pesquisa de leve, naqueles dias, era com o Yahoo. Neste caso, um grande índice selecionado a mão dos melhores sites da rede (sim, por muito tempo o Yahoo foi só um índice).

Seu antecessor foi o Lycos, criado em 1994. Era bastante direito. Naquela época, parecia, a cada ano um site de buscas novo surgia para desbancar o antigo. Há de ter parecido um grande negócio para o Terra ter comprado este Lycos. Aí veio o Google e ninguém mais era bom o bastante. Em 2004, o grupo espanhol vendeu o Lycos para uns coreanos. Continua de pé.

Lia-se muito naquela internet de antanho. E nem todas as páginas eram horríveis. Havia, por exemplo, a HotWired, site da revista Wired, um projeto megalômano, graficamente ousado que inventou muito do que entendemos por web, hoje. Por exemplo: banners publicitários (a publicidade na web inventada pela boa turma da HotWired, aliás, fez 15 anos no último dia 25). Pois quando a web quebrou na Bolsa no fim da era 1.0, início da 2.0, a editora da Wired quebrou junto e decidiu vender suas posses. A veterana Condé Nast comprou a revista; o Lycos comprou o site.

Era assim no tempo em que editoras acreditavam que as revistas ficavam e sites eram só modismo.

É uma pena que a HotWired seja lembrada, hoje, apenas pela invenção do banner mas não pelo Suck!, site de humor que diariamente fazia graça de algum outro site da rede. Imitava o estilo de um escritor, as manchetes exageradas de uma revista – perceber a referência era coisa para profissionais. E, sim, a web era pequena o suficiente para que todos lá dentro conhecessem todos os outros.

Tão pequena e fácil de mobilizar, aliás, que quando em 1996 Bill Clinton assinou uma lei severa a respeito das liberdades online, a web amanheceu negra. Literalmente. Não havia site, grande ou pequeno, que não tivesse transformado sua cor de fundo em negro. Foi um dia e tanto, aquele primeiro de fevereiro, até hoje nos anais marcado como a Quinta-feira Negra.

É engraçado. A web anterior aos estilos pré-fabricados embora direitos de blogs que vemos hoje era muito feia mas tinha suas manhas e mitos. Era o caso do designer David Siegel. Nunca mais se ouviu falar dele mas houve o tempo em que citá-lo era mostra de sapiência.

Nada, no entanto, se comparava a ganhar, no Brasil, o prêmio Que Página Legal. Consistia num selo que o premiado inseria em seu site.

Geocities se foi mas o Yahoo continua aí, a revista Salon também; era uma web sem comentários ou scraps, mas tinha seus livros de visita. E quem a conheceu bem sabe consigo um segredo: ainda daria para fazer hoje um Suck! porque o espírito da rede continua rigorosamente o mesmo.

 

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