‘Quero fazer a parada direito’
Emicida, 24 anos, rapper - Ele twitta do celular, grava em casa as cópias de CD que vende e ficou conhecido graças a vídeos no YouTube
Leandro Roque de Oliveira chega à estação de metrô raspando um cartão de celular pré-pago. "Meu celular oficial está no conserto", explicou. Provisoriamente, Emicida, como é mais conhecido o rapper paulista de 24 anos, adotou o pré-pago para não perder uma das dezenas de ligações que tem recebido com convites para shows, propostas de gravadoras e contatos de jornalistas. "Pena que nesse aqui não dá para twittar", lamenta.
Quase 7 mil pessoas seguem o rapper, que atualiza o Twitter o dia inteiro do celular (quando ele funciona) e fala com entusiasmo da ferramenta. No microblog, ele interage com colegas (@marcelodedois está sempre em sua timeline) e fãs, e ocasionalmente solta pérolas como "Para mim, Chimbinha e Joelma são o mais próximo que temos de Jay Z e Beyoncé". Foi no Twitter que anunciou o lançamento de seu último single, "Avua Besouro", disponível para download no Noiz.com.br.
ÁUDIO E VÍDEO
É assim que Emicida devolve à web e aos fãs tudo o que deve a eles. "Começou em 2006, com um evento chamado Batalha do Santa Cruz ("rinha" de MCs realizada no metrô Santa Cruz). O pessoal gravava o áudio da batalha com o toca-MP3 ou o celular e, durante a semana, colocava tudo no Soulseek", conta, explicando como o compartilhamento foi importante para ele já no início da carreira.
Quando YouTube e celulares com câmera apareceram, o hábito dos fãs se manteve na nova mídia. No boca-a-boca, entre vídeos amadores de batalhas em festivais, improvisos de rua, entrevistas e vídeos oficiais de seu clipe "Triunfo", Leandro tem mais de 3 milhões de visualizações no site de vídeos.
Os MP3 sempre estiveram aí, mas foi o apelo gráfico dos vídeos que levou até o público as rimas espertas do rapper de nome curioso – o apelido surgiu porque ela era conhecido por ser imbatível nas "rinhas" de MCs, um "MCida", mas virou sigla de "Enquando Minha Imaginação Compuser Insanidades Domino a Arte". E assim Emicida chegou a vários públicos, inclusive o que não ouvia rap.
Em abril de 2009, lançou o disco – que ele chama de mixtape – Pra Quem Mordeu Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe, com capa desenhada por ele mesmo, que já foi ilustrador e sonhava em ser quadrinista. Com as cópias feitas por ele mesmo em casa, Leandro sai com os CDs na mochila e vende cada um a R$ 2. Até o fim de 2009, é a data dessa entrevista, ele já tinha vendido 8 mil cópias. Nada mal para uma época em que, teoricamente, ninguém mais compra CD. "Lá onde eu moro, tem cinco ruas e três lan houses. Eu coloco meus CDs pra vender na lan house. E vende bem, até", diz. "Não vou dizer que não dá dinheiro vender CD, pois ele tem pago minhas contas desde que o lancei. Mas que não deixa rico, não deixa".
Para ele, a música gratuita online é boa, "ainda mais no meu caso, divulga pra caramba".
HQ E BLOG
Leandro se diz um nerd dos mais clássicos. Apaixonado por quadrinhos, cresceu lendo os títulos de Will Eisner, criador do conceito de graphic novel, e sonhava trabalhar na área. "Queria ir pra gringa desenhar o Batman", conta. Ele diz ter a intenção, de longa data, de criar um blog com suas poesias e, quem sabe, as tirinhas que ainda produz. "Mas quero ter tempo de fazer com isso o mesmo corre que tenho feito com os CDs. Quero fazer a parada direito."
PIONEIRO NA DIVULGAÇÃO ONLINE O coletivo de hip hop carioca Quinto Andar só lançou seu primeiro CD em 2005, ano que o grupo encerrou suas atividades. Antes, usavam apenas a internet para divulgar seu trabalho – contando com a ajuda dos fãs, que subiam conteúdo do grupo por conta própria. O Quinto Andar revelou De Leve, Marechal e DJ Castro.
O RAP DE SP NA INTERNET
Sites como o Noiz e o Per Raps, que se dedicam principalmente à cobertura do cenário do rap em São Paulo, são responsáveis por ajudar a compor uma cena forte do movimento na web. Além de agenda de shows, os sites divulgam vídeos, fazem resenhas e até lançam singles – como o "Avua, Besouro".
‘RINHA’ DE MC DENTRO DE CASA
Buscar o termo "batalha de MCs" no Google retorna milhares de páginas de resultados. Boa parte deles inclui o Emicida. E a maioria esmagadora foi postada no último ano, o que mostra que os novos rappers conectados criaram incentivaram entre os fãs a cultura de filmar estas "rinhas" com o celular.
MÚSICAS INÉDITAS DOS RACIONAIS? Os Racionais MCs não estão oficialmente na internet. Mas apesar de não lançarem nenhum álbum de inéditas desde 2002, o grupo liderado por Mano Brown tem visto suas faixas inéditas caírem na rede, uma a uma. Foi o caso de "Mulher Elétrica" e "Tá Na Chuva", que vazaram não se sabe como em 2008 e já estão no YouTube.
TV EMICIDA
Na final da Liga dos MCs de 2006, Emicida venceu o veterano Gil.
No festival Humaitá pra Peixe, em 2007, um fã filmou uma das "rinhas" do rapper.
"Triunfo", filmado em São Paulo, é o primeiro videoclipe de Emicida.
No festival Indie Hip Hop de 2008, um fã gravou a performance do rapper Kamau com o Emicida.
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