'A função do manguezal não pode ser traduzida em dinheiro'
Para a doutora em Ciências e Zoologia, Yara Schaeffer Novelli, a emenda que permite o uso de apicuns nada mais é do que uma reforma agrária às avessas
Quatro perguntas para Yara Schaeffer Novelli

Graduada em Historia Natural pela Universidade do Brasil (atual UFRJ), mestre em Oceanografia Biológica pela Universidade de São Paulo, doutora em Ciências e Zoologia pela Universidade de São Paulo e livre-docente em Oceanografia Biológica também pela USP. Atua principalmente nos temas: manguezal, impacto ambiental e ecologia de ecossistemas costeiros tropicais.
1 - Você estudou os manguezais a vida inteira. O que pensa da emenda que permite o uso de apicuns e consta da proposta de Código Florestal que será votada na Câmara?
Penso que ninguém está agindo como se estivesse lidando com a evolução de um diploma legal, mas querendo legalizar atividades ilegais, tentando "arrumar a casa" para não penalizar os que estão ao arrepio da lei. É uma reforma agrária às avessas: pega-se um patrimônio nacional, como é a zona costeira - um ecossistema costeiro como o manguezal é considerado Área de Preservação Permanente (APP) - e se toma por um patrimônio do governo. Patrimônio nacional não é patrimônio do governo. É como mudar o Código Penal e deixar de considerar o assassinato de um semelhante como crime para salvaguardar quem matou pessoas.
2 - Qual o cenário que se desenha caso o projeto de lei seja aprovado na Câmara como está?
O manguezal é parte da dinâmica costeira. O que vem acontecendo na zona costeira dos países tropicais, principalmente, é um movimento de ocupações desordenadas, em que vale a máxima "quem pode mais, chora menos". Com o advento da carcinicultura, aparece a ideia de aproveitar rapidamente o filão. Que filão é esse? Ora, os manguezais onde se cria o camarão são patrimônio nacional, 'não tem dono', na visão dos empreendedores. Então, esses terrenos, que são de todos nós, estão sendo privatizados, e o que é pior: há lá uma população vivendo daqueles ecossistemas há séculos, que está sendo jogada na rua. Ou está virando boia-fria para despesca nos criadouros de camarão.
3 - Qual é o grande problema da carcinicultura?
Não é um, são vários. Quando se passa a explorar um único recurso do manguezal, isso significa eliminar um sem-número de usos, de bens e de serviços que são prestados gratuitamente para uma diversidade de outros brasileiros que só têm esse ambiente para viver. Usam-se produtos químicos como o metabissulfito, que chega a provocar intoxicação e doenças pulmonares nos trabalhadores. A espécie cultivada não é nativa, é uma exótica. E, o mais interessante, desde 1990, o IDH dos municípios costeiros do Nordeste onde houve um crescimento grande da carcinicultura não mudou. O recurso não fica no município. Temos provas técnicas irrefutáveis de que é um péssimo negócio - a não ser para aqueles que ocuparam um patrimônio público.
4 - Qual é a longevidade do uso desses terrenos para a criação de camarão?
Pequena, cerca dez anos no máximo. Depois disso, passam para outros, porque não vale a pena ficar corrigindo problemas de acidez, gastar dinheiro com isso. E o terreno está ali mesmo... Agora, é possível criar camarões em terrenos menos preciosos. O mangue é precioso, é como o nosso pantanal. Perdeu, está perdido. A função do manguezal não pode ser traduzida em dinheiro. Se perdermos os manguezais, os sedimentos que vêm da terra vão escurecer as areias brancas que o turista tanto gosta e vão matar os recifes de coral do nordeste.
Siga o @estadao no Twitter
- 01 Serra chama de 'lixo' livro sobre ...
- 02 Rota invade suposta reunião do PCC e ação ...
- 03 Marconi Perillo se antecipa à CPI do ...
- 04 Obama dá sinal verde a sanções contra ...
- 05 Mercado financeiro prevê PIB abaixo de 3% em ...
- 06 Cachoeira fica calado e CPI antecipa fim de ...
- 07 Governo já discute redução de superávit ...
- 08 ‘Estado’lança site e aplicativo para ...
- 09 Crise atual pode ser pior que a Grande ...
- 10 FGV: País tem queda de 7,26% no número de ...
Grupo Estado
- Copyright © 1995-2012
- Todos os direitos reservados





