Catástrofes reforçam discurso apocalíptico

Para pesquisador, resposta da sociedade a esses fenômenos pouco mudou desde a antiguidade

Karina Ninni, especial para O Estado de S. Paulo

30 Abril 2010 | 11h13

Desastres naturais não provocam apenas mortes e prejuízos. Deixam a sociedade mais suscetível a discursos apocalípticos. Depois da virada (e do bug) do milênio, o fantasma da vez são as supostas profecias maias de que o mundo vai acabar em 2012. Para quem acredita nelas, as catástrofes deste semestre seriam apenas o começo do fim. Pouco importa que, segundo cientistas, a Terra registre 50 mil tremores todos os anos e esse número não esteja aumentando.

 

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Para o físico e astrônomo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Othon Winter, um dos autores do livro Fim de Milênio - Uma História dos Calendários, Profecias e Catástrofes Cósmicas, paradoxalmente a sociedade da informação reage aos desastres naturais de forma muito semelhante à dos povos da antiguidade.

 

“Os fenômenos eram mais locais. Uma cheia do Rio Nilo podia ser indício de que os deuses estavam zangados com os homens”, diz. “Na antiguidade, o acesso ao conhecimento era mínimo, e as pessoas com um pouquinho mais de informação conduziam as outras. O medo decorria da falta de informação. Hoje, todo mundo tem informação demais e, por isso, teme”, acredita.

 

A psicóloga Eda Tassara, do Laboratório de Psicologia Ambiental da Universidade de São Paulo (USP), também acha que o excesso de informação contribui para a disseminação do pânico. “Não sei se há uma intensificação das chamadas catástrofes. Mas sei que o acesso à informação sobre elas se intensificou muito.”

 

Para Eda, fenômenos como a erupção do vulcão islandês passaram a ser vistos como catástrofes por conta do atual estágio de organização da sociedade. “A dimensão da erupção foi amplificada pelos seus danos econômicos. Sob esse ponto de vista, pode ser considerada uma catástrofe. Mas, na verdade, é um acidente de dimensões locais.”

 

Eventos como a passagem de cometas e a virada de milênios sempre provocaram tensão. Os temores de catástrofes cósmicas têm origem na crença de que eventos terrenos e celestes estariam fisicamente conectados. No livro, Winter e a co-autora Bertília Leite lembram que a aparição de um cometa em 1664 foi interpretada como responsável pela peste bubônica que dizimou 20% da população europeia.

 

Em 1832, quando o cometa Biela deveria passar a 30 mil quilômetros da órbita da Terra, a onda de histeria chegou ao Brasil: quatro mulheres enlouqueceram, uma se atirou num poço artesiano e, no atestado de óbito de outra, lia-se de que ela foi vítima da “impressão causada pelo terror do cometa Biela”.

 

Para Eda, mesmo questões relevantes da atualidade, como a do aquecimento global, são contaminadas por um discurso apocalíptico que lembra o dos profetas religiosos. “Ele traz consigo a culpa e a noção de castigo. Você tem culpa das mazelas do planeta porque come carne ou anda de avião. É como comer a maçã e ser expulso do Paraíso.”

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