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Criado sistema capaz de ler imagens dentro do cérebro humano

Em um conjunto de um bilhão de imagens, conteúdo aproximado do Google, sistema acertaria perto de 20%

05 de março de 2008 | 15h 03
Carlos Orsi - estadao.com.br

Há vários meios que permitem a um mágico realizar o truque de "ler mentes" e, por exemplo, descobrir qual das cartas do baralho você escolheu, mas nenhum deles envolve a decodificação direta da atividade fisiológica do seu cérebro - até agora. Na edição desta semana da revista científica Nature, uma equipe de pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley relata a criação de um sistema capaz, ainda que de modo rudimentar, de ler a mente humana, traduzindo o que se passa no córtex visual primário do cérebro.   "Construímos um modelo de computador da parte inicial do sistema visual que é capaz de pegar uma imagem qualquer, como dado de entrada, e prever a atividade neural que será o dado de saída", explica, em entrevista por e-mail, o principal autor do trabalho, Jack L. Gallant. "É como uma transformação matemática".   De posse da previsão feita pelo computador, os pesquisadores são capazes de executar a operação oposta: comparar o gráfico gerado pelo programa com uma leitura real de ressonância magnética funcional (fMRI) e, assim, "adivinhar" para qual imagem o paciente está olhando. Nos testes descritos na Nature, realizados com dois voluntários - ambos co-autores do artigo - o processo acertou a "adivinhação" de 80% a 90% das vezes, para uma galeria de até 1.000 imagens.   Os pesquisadores estimam que, num conjunto de um bilhão de imagens - aproximadamente o mesmo total catalogado pelo Google -, o sistema acertaria cerca de 20% das vezes. "Se uma pessoa sob fMRI do cérebro fosse escolher uma imagem ao acaso na internet, nossos dados sugerem que seríamos capazes de usar a medição de atividade cerebral para identificar a imagem exata uma em cada cinco vezes", diz nota divulgada pelos autores do trabalho.   Gallant acredita que o mesmo tipo de abordagem poderá funcionar para os demais sentidos - audição, olfato, paladar, tato - mas não garante que seja possível chegar a, realmente, ler pensamentos que incluam linguagem ou emoções. "Não sabemos o suficiente sobre as partes não-sensoriais do cérebro", explica.   No entanto, mesmo reconhecendo limitações, os criadores da técnica acreditam que ela tem muito potencial a ser explorado. O trabalho sugere, segundo eles, que a ressonância magnética funcional do cérebro contém muito mais informação do que se imaginava, e que um dia poderá ser possível decodificar o conteúdo de experiências sensoriais em tempo real. Imagens produzidas na memória, em sonhos e na imaginação também poderiam, em princípio, ser captadas pelo mesmo método.   As possíveis aplicações da tecnologia, dizem os pesquisadores, vão desde o uso em estudos científicos, para compreender melhor como o cérebro assimila e processa informação, até a criação de interfaces entre o cérebro e máquinas, para permitir o controle de próteses e outros equipamentos diretamente pelo pensamento.   Os pesquisadores afirmam que tanto a tecnologia para medir a atividade cerebral quanto os modelos de computador para extrair conteúdo dessas medições estão melhorando continuamente. "É possível que a decodificação da atividade do cérebro venha a ter graves implicações éticas e de privacidade dentro de, digamos, 30 a 50 anos", reconhecem.




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