Depois dos seringais
Primeira parte do trajeto traz vilas com famílias de ex-seringueiros que hoje vivem da agricultura
SENA MADUREIRA (AC) - "De feito, o seringueiro é o homem que trabalha para escravizar-se." A definição contundente de Euclides da Cunha, depois de sua viagem de 1905 pelo rio Purus, hoje não encontra eco nos grandes espaços naturais às suas margens. O seringueiro já não está presente no trajeto. Os que encontramos estão aposentados há mais de dez anos, e seus filhos e netos não vivem da borracha, mas da agricultura de pequeno porte; ou então, sobretudo no caso das mulheres, partiram para cidades como Manoel Urbano, Sena Madureira e Rio Branco. O sonho euclidiano de ver o látex brasileiro esticar o progresso até o Acre, com outro regime de trabalho e outra mentalidade de produção, não se realizou.
Euclides tampouco viu as cidades que vimos. Partimos do porto de Sena Madureira, que já tem 40 mil habitantes e fica à beira do rio Iaco, e uma hora depois já navegávamos no Purus. Ali o rio traça uma ampla curva por dentro do território do Amazonas, antes de retornar ao Acre à altura de Manoel Urbano, cidadezinha de 7 mil habitantes batizada – assim como o batelão em que Euclides viajou – com o nome de um dos desbravadores do estado. Ela vive do comércio feito principalmente por rio, mas o asfaltamento da BR 364 – a rodovia transacreana que Euclides já defendia – tende a ampliá-la quando estiver concluído nos próximos dois anos.
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O comércio de produtos agrícolas para cima de Manoel Urbano, onde começa propriamente o Alto Purus, ainda é muito tímido. O domínio administrativo do município, para ter uma ideia, se estende até a foz do rio Chandless, cerca de 300 km acima, onde começa o domínio de Santa Rosa do Purus, cidade de 4 mil habitantes na fronteira com o Peru, outros 300 km acima. No trecho que vai até o Chandless, os ribeirinhos do Purus são na maioria caboclos que um dia viveram da seringa e hoje cultivam arroz, mandioca, milho, eventualmente gado e frutas como a banana para sobreviver – e vender o pequeno excedente.
É o que fazem os ribeirinhos próximos de uma localidade chamada Silêncio de Cima, antes ainda de Manoel Urbano. Com dificuldade para saber os nomes dos filhos ou responder se estão no no Amazonas (o correto) ou no Acre, eles vivem isolados quase o tempo todo. Comem carnes de caça (cotias, tatus, pacas, jabutis) e de criação (galinhas, porcos), peixes (mandi), frutas (como a cajarana que nos ofertam), de vez em quando compram carne de boi do vizinho. Logo que chegamos, Miguel Dias da Silva exibe a pele esticada de um maracajá, um gato selvagem que havia sido morto pelo cão perdigueiro no dia anterior. Eles exibem também um pequeno televisor, que acessam por parabólica com energia solar, equipamento que lhes custou cerca de R$ 1.000. Um dos familiares está anêmico e perdeu o movimento de um dos braços, mas não foi ao médico diagnosticar se teve um derrame ou algo semelhante.
Um pouco adiante, em Boa Vista, encontramos uma moça sozinha, Eliene da Costa, 26 anos. O marido foi comprar mantimentos em Sena Madureira e só volta dali a alguns dias. Eles vieram de Rondônia há seis meses, depois do casamento, para viver próximo do cunhado de Eliene. Ela diz que o apelido do marido é Ramón, mas não sabe informar seu nome verdadeiro. Conta que tem dois filhos de outro casamento, de 8 e 2 anos. "Choro de saudade dos meus meninos." O milho é sua principal alimentação e serve para trocar por roupas e outras comidas. Eliene conta que gostaria de estudar na escola ao lado, em São Salvador, mas que o marido não deixa. "Tenho arrependimento. Mas ele diz: ‘Pra que você casou, se quer estudar?’" Ela não sabe ler nem o próprio nome.
Em São Salvador, vila com nove famílias e um pouco mais de infraestrutura (que inclui uma calha de telhas pela qual a água da chuva desemboca numa garrafa de refrigerante, improvisada como coletor, e é usada no banheiro externo), vimos outra cena inexistente nos tempos de Euclides: um culto evangélico. Na pequena igreja de madeira e palha, Jocinete Brandão de Oliveira, 33 anos, 5 filhos, comanda as orações do dia, entre gritos de "Obrigado, Jesus!". Ela foi indicada pelo pastor, que vive em outro povoado, Cachoeirinha, e só faz visitas mensais.
O pai de Jocinete, Carlos de Oliveira Filho, o "seu Carlito", de 78 anos, é o único que se lembra de quando tudo isto foi um seringal com centenas de trabalhadores. Durante 45 anos esse filho de português com cearense cortou seringa, como diz, "oito dias por semana" (seis dias e duas noites), perdendo ali a mocidade "sem forró no fim de semana". Sorridente e proseador, com o rosto que parece talhado debaixo de um chapéu panamá, medalhinhas de santos ao peito semiaberto, cicatriz feita em seu braço pela queda de uma taboca (bambu com espinhos), Carlito mostra sua foto como um sisudo soldado da borracha, título que lhe vale a aposentadoria de R$ 800 que recebe do Funrural.
Conta histórias como a da lenda do mapinguari, um homem de um olho com umbigo de fora e "pés de pilão" que assustaria as pessoas na floresta; e a do matador Cariri, que tinha "corpo fechado" em que bala não entrava, nem mesmo as do coronel José Ferreira, visitado por Euclides em 1905. Diz que o rio tinha muito tambaqui e pirarara, mas hoje raramente tem. Sobre os filhos, afirma que teve 14, ao que a esposa, Antonia, acrescenta: "Comigo foram 14, com outras por aí não sei não." Carlito dá uma risada e desabafa: "Eu não sei como é lá com vocês. Mas aqui a mulher é que governa o homem. A mulher todo mundo quer, porque homem não tem moral. Toda morte matada é por causa de mulher. E hoje ela tem mais dinheiro que o homem." Ele se refere ao Bolsa Família.
Carlito tem um jeito bem-humorado de se autodepreciar. "Nunca fiz nada que prestasse. Todo objeto que compro tem defeito. Todo negócio que faço dá prejuízo. Se vendo fiado, não recebo. Mas para mim tá bom, e nunca fiquei endividado." Ele também afirma que nunca foi valente nem bonito e que tirava um quarto do leite da seringa que os outros tiravam. "Todo mundo quando fica velho diz que foi isso, foi aquilo." Alguns filhos e netos moram em cidades como Rio Branco e Santa Rosa do Purus, mas Carlito não quis fazer como os outros seringueiros e ir embora. "Na cidade moram escondido. Aqui eu tenho essa sala para fora", explica, apontando para a varanda que dá visão para o Purus, característica comum de todas as casas ribeirinhas.
Quando a conversa envereda para religião, Carlito, o único da vila que não se converteu à Igreja Assembleia de Deus, não mostra menos convicção. "Deus não precisa de mim para nada; eu é que preciso dele a toda hora e todo instante. Ele fez esse mundo, não precisa de mim." Perguntado se acredita que o homem tem a mesma ascendência que o macaco, ele diz achar que sim, mas dona Antonia o interrompe: "Vixe, e alguém já viu macaco se transformando em homem?"
Depois de pernoitar no barco estacionado no porto de Manoel Urbano, em cuja prefeitura enfim tivemos acesso a telefone e internet, seguimos rio acima. Em pouco tempo passamos por Paysandu, onde se veem as obras da BR 364, num trecho que deverá ter até 2010 uma ponte de 400 metros – a primeira ponte jamais feita sobre o Alto Purus. Outra parada feita também por Euclides é em Liberdade, onde encontramos uma família, a Dias da Silva, que também vive de plantações e alguns bois. Os seis filhos de Antonio, 32 anos, pelos quais a mãe recebe R$ 120 do Bolsa Família, estudam apenas alguns meses por ano; apenas os dois mais velhos, Andrelino, 11 anos, e Juscelino, 10 anos, sabem escrever o nome. No bolso, eles carregam arroz quase cru, do qual de tempos em tempos apanham um punhado e levam à boca.
Mais um pouco estamos em São João e vemos uma cena que diz muito sobre o modo de vida dos ribeirinhos do Purus: quatro adolescentes às voltas com a tarefa de colocar um boi numa canoa para vender em outro ponto do rio. Um deles o segura pelo rabo, mas o boi dá um coice e sai correndo, despencando pelo barranco até a beira do Purus, onde um rapaz pula na água e outro sobe na árvore para escapar do choque. Eles não desistem e conseguem derrubar o já ofegante boi, que cai deitado sobre a canoa; cada um o segura por um lado enquanto o mais velho amarra suas patas – e eles partem triunfantes.
Lá no alto, o avô, José Dimas de Melo, o "seu Deco", 80 anos, orientava os meninos. Ele é mais um seringueiro aposentado, mas com melhores lembranças dos seringais que as de Carlito. Na casa decorada pela nora com recortes de revistas, bandeirinhas coloridas, cartazetes políticos e santinhos, seu Deco conta que já matou "muita onça" e que gostava do seringal, mesmo que acordasse às 2 horas da madrugada todos os dias. "Pelo menos a gente trabalhava na sombra." A lida com o plantio e algumas cabeças de gado também é dura. E é debaixo do sol amazônico – ou da chuva quase diária. A natureza da Amazônia, "adversária do homem", segundo Euclides, não dá trégua.
Doze horas mais tarde, em Santo Antônio, ouvimos de Elói Marques Alves, 49 anos, um filho de peruano que veio do rio Chandless, onde cortou seringa durante seis anos, opinião oposta: "Prefiro agricultura, que já dá de comer." A farinha d’água, feita com macaxeira (mandioca) fermentada numa canoa, é sua principal fonte de renda. Presenciamos então outra cena forte, embora corriqueira neste pedaço da Amazônia. O filho de Elói, de 14 anos, pega um jabuti, vira-o de casco para baixo, apanha um facão e bate com força em suas fendas laterais. Arranca então o casco, como se fosse uma tampa de lata, e corta fora as tripas do animal, reservando a carne do fundo para defumar e comer. Separa o coração e o deixa pulsando em cima do banco.
A descrição da subida pode parecer mais movimentada do que de fato é. Quilômetros de rio cercado por uma mata sem grandes variações de tamanho e cor, ou cerca de 30 minutos, se passam sem que se veja um povoado sequer. De vez em quando uma canoa ou bote com motor de rabeira, geralmente comprado usado por R$ 300, passa com alguma família de caboclos que pescam ou procuram jabutis, veados, calangos e siris à margem. Imbaúbas, canaranas, mulateiros e, menos, samaúmas são as árvores recorrentes. De vez em quando alguém grita "Boto, boto!", que em geral se vê num rápido salto ou borrifo, exibindo o dorso cinza para câmeras que na maioria das vezes não os conseguem captar. Araras, harpias e macacos aparecem, mas o mais frequente mesmo são garças e andorinhas. E, claro, os piuns – mosquitos parecidos com muriçocas que podem fazer um estrago na vítima desprotegida, legando até duas semanas de coceira.
"Não se vê a Amazônia com mentalidade de TV", diz Paolino Baltassari, de 73 anos, um missionário que veio de Bolonha, na Itália, estudou teologia em São Paulo e há 40 anos atua nos rios do Acre como uma mistura de médico, padre e político, capaz até de mandar fechar motel em Sena Madureira. Com 82 malárias no currículo, hoje mais preocupado com a dengue, padre Paolino diz que acompanhou o fim do ciclo da borracha, a qual "nunca trouxe progresso para o Acre", e viu a pobreza se alastrando principalmente a partir dos anos 90, quando a Malásia tomou o lugar do Brasil como exportador mundial de látex. É nesse mundo pós-borracha que o Purus segue, sem vocação clara, tão abandonado quanto Euclides o encontrou. E ao mesmo tempo tão diferente.
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