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FGV recria a arte da seleção

Quando criou curso de direito, universidade decidiu ir em busca de alunos capazes não só de aplicar leis, mas também de concebê-las

30 de abril de 2009 | 1h 02
Sergio Pompeu

SÃO PAULO - "Não dá para aprender Direito para daí olhar o mundo. O Direito é uma construção humana para lidar com a realidade." A definição do coordenador de Metodologia José Garcez Ghirardi, de 46 anos, sintetiza o espírito que guiou a criação do curso de Direito da Fundação Getúlio Vargas, em 2004.


A proposta já nasceu ambiciosa. A primeira turma, que se forma agora em 2009, estudou em período integral durante três dos cinco anos do curso. Estudar, nesse caso, não é repassar códigos página por página ou catalogar leis. "Nosso foco são as áreas de negócios, institucional e pesquisa. Mas queremos formar protagonistas, gente com autonomia intelectual para construir novas soluções jurídicas", diz a coordenadora de Graduação, Adriana Ancona Lopes.


Isto posto, como selecionar 50 alunos todos os anos? Alunos capazes de encarar uma carga brutal de leituras e um curso que foge do senso comum. Tem essa abordagem "metalinguística", de olhar o Direito meio a distância, tentando entender como ele é construído. A grade tem disciplinas como crime e sociedade, direito e desenvolvimento, arte e direito.


Arte e direito? Sim. A relação não se limita à oficina comandada pelo professor Garcez. O exame de artes visuais e literatura tem na primeira fase o mesmo peso 1 das provas de inglês, história, geografia e matemática. Só perde para redação, com peso 2.


O exame de artes tem uma relação de livros, como os vestibulares tradicionais. Mas também listas de filmes e obras de arte. "Valorizamos o background cultural", afirma Adriana.


Nessa valorização, explica, entra outro componente, filosófico, sobre o modo de encarar o Direito. "Assim como Direito é um código, a arte é a expressão de um código do mundo", diz Adriana. "Metalinguagem", de novo.


A segunda fase do vestibular remete a outro ponto já abordado por Adriana, o da intenção de formar protagonistas. Tem um quê de dinâmica de grupo. São só provas orais. Nelas, os alunos são chamados, individualmente e em grupo, a discutir temas da atualidade. São analisados pela qualidade e profundidade dos argumentos, mas também pelo espírito de liderança e de interação com os colegas, tarefa a cargo de psicólogos que acompanham os debates.


Adriana não esconde a ansiedade em relação à formatura da primeira turma do curso, para acompanhar seu desempenho no mercado. Mas os sinais colhidos na avaliação dos estagiários - alunos do 4º ano em diante - são animadores. "Eles são vistos como alguém com grande capacidade de pensar questões jurídicas", diz Adriana. "Na última triagem, tivemos 86 vagas de estágio para 39 alunos."

UM VESTIBULAR DIFERENTE: Prova de Artes Visuais e Literatura
LITERATURA

A Poesia Lírica e Satírica, de Gregório de Matos
Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida
Iracema, de José de Alencar
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Vidas Secas, de Graciliano Ramos
A Metamorfose, de Franz Kafka
As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino
Poesias de Álvaro de Campos, de Fernando Pessoa
A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade
Sagarana, de João Guimarães Rosa
Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago


ARTES PLÁSTICAS
Obras Nacionais
O Grito do Ipiranga - Independência ou Morte (1888), de Pedro Américo, coleção Museu Paulista
Elementos de Tipografia (1952), de Geraldo de Barros, coleção Pinacoteca do Estado
Metaesquema II (1958), de Hélio Oiticica, coleção MAC-USP
Bicho (1960), de Lygia Clark, coleção família Clark


Obras Estrangeiras
Retrato de El-Rei Dom João VI (1817), de Jean-Baptiste Debret, coleção Museu Nacional de Belas Artes
Banco de Pedra no Asilo de Saint-Remy (1889),de Van Gogh, coleção Masp
Canoa sobre o Epte (1890), de Claude Monet, coleção Masp
Banhista enxugando a perna direita (1910), de Pierre Auguste Renoir, coleção Masp


CINEMA
Filmes Nacionais
Cidade de Deus, de Fernando Meirelles (2002)
Lisbela e o Prisioneiro, de Guel Arraes (2003)
Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes (2005)
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger (2006)


Filmes Estrangeiros
A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood (2006)
O Show de Truman, de Peter Weir (1998)


EXAME ORAL
Os 300 candidatos aprovados para a segunda fase são divididos em 30 grupos de dez estudantes. Nos exames, cada candidato recebe um subtema e tem 5 minutos para apresentar uma exposição individual. Esta é a 1ª etapa. Na 2ª etapa, o grupo prepara coletivamente uma exposição sobre um tema e escolhe uma pessoa para apresentá-la. Enquanto isso, outro grupo de dez candidatos faz o mesmo. Na 3ª etapa, dois grupos debatem o tema. Psicólogos acompanham cada passo do trabalho, analisando questões como profundidade da argumentação, capacidade de liderança, clareza, capacidade de convencimento e de neutralizar argumentos contrários.


ETAPA 1
Subtema 1: A bandeirinha Ana Paula Oliveira foi afastada dos gramados por longo tempo pela CBF por ter cometidos erros em algumas partidas. Você acredita que, caso se tratasse de um homem, a CBF o puniria com o mesmo rigor?


ETAPA 2
Tema: Preconceito
Tese I: Zombar de uma pessoa muito branca por causa da cor de sua pele é um ato de racismo.
Tese II: Zombar de uma pessoa muito branca por causa da cor de sua pele não é um ato de racismo.


ETAPA 3
Debates entre os grupos



Tópicos: Pontoedu

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