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Literatura deve tratar temas da vida

Leia entrevista com Ricardo Azevedo, 60, autor de mais de cem livros para crianças e jovens

14 de março de 2010 | 20h 59
Jornal da Tarde

O que o senhor acha de se mudar o enredo de clássicos?

Se as pessoas que propõem essas mudanças querem educar, creio que estão no caminho errado. Educar é formar crianças e jovens que sejam expressivos, tenham pensamento crítico e também a clara noção de que têm responsabilidades para com a sociedade em que vivem. Não será alterando a letra de "Atirei o pau no gato" que vão conseguir isso.

 

É prejudicial à literatura ou à criança?

O acesso à cultura popular, conhecer suas principais manifestações, seus artistas, suas características, sua riqueza e suas contradições, deveriam fazer parte da formação de toda a criança brasileira. Infelizmente, minha sensação é a de que boa parte de nossas crianças são como estrangeiros no que diz respeito à sua cultura popular.

 

Como a criança lida com o conflito apresentado nas histórias?

Toda a literatura, seja ela popular, infantil, adulta ou outra, nasce do conflito e da contradição. Quando está tudo bem, quando não há conflito, não há história. Ao perceber que Branca de Neve cresceu e está cada vez mais bonita, a madrasta manda matá-la. Trata-se de um tema humano essencial: a luta do velho contra o novo. É importantíssimo que a criança tenha acesso a ele, e as histórias de ficção são um bom lugar para que isso ocorra.

 

Conflito e maus exemplos são necessários para a formação?

Não se trata de bons ou maus exemplos. A literatura deve sempre tratar de temas da vida concreta e nela há um pouco de tudo: a busca do autoconhecimento, as paixões, a dificuldade em separar a realidade e a fantasia, as transgressões, a luta do velho contra o novo, a complexidade da convivência com o outro e, entre muitos outros temas, o contato com o mal, por exemplo, a inveja, a mentira, a injustiça, a ganância, o ódio, o desprezo, o ciúme, o preconceito, o rancor etc.

 

Qual o papel da literatura na formação de uma criança?

Abrir as portas da imaginação e, ao mesmo tempo, humanizar, ou seja, introduzi-la aos temas humanos concretos. É preciso fazer a criança perceber que todo ser humano é eminentemente social, tem potencialidades e limites e é capaz de transformar a natureza e a sociedade. Daí a importância de transmitir a elas a noção de responsabilidade. Serão as construtoras do futuro. Trata-se do seu compromisso de lutar para transformar o mundo num lugar melhor e não pior para todos.