O que está em jogo em Durban
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Para o Brasil, manter Kyoto é essencial
O Protocolo de Kyoto (PK) teve um grande mérito ao criar, em
1997, um sistema internacional, legalmente vinculante, em que países
desenvolvidos se comprometeram a limitar suas emissões e a prestar conta
sobre elas e suas políticas de mitigação e adaptação. Criou também o
mercado de carbono e, nele, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL),
envolvendo diretamente os países em desenvolvimento, e estabeleceu as
bases para um futuro regime climático em que as emissões globais serão
limitadas.
Em termos quantitativos, porém, seu alcance foi
pequeno. Primeiramente porque a meta era pequena (redução de 5,2% em
relação a 1990) e incidia somente sobre parte das emissões, não
contabilizando as dos países em desenvolvimento e as do transporte aéreo
e marítimo internacional, que cresceram muito nos últimos anos.
Com
a saída dos EUA, o conjunto das emissões afetadas pelo PK ficou ainda
mais reduzido. O resultado foi que as emissões globais aumentaram muito.
Dados do Climate Analysis Indicators Tool (Cait) apontam que entre 1990
e 2007 as emissões mundiais de CO2 cresceram 40%, não incluindo
florestas nem emissões do transporte internacional. Fica evidente que
Kyoto como está não é suficiente.
Em 2007, em Bali (COP-13), foi
estabelecido um processo de dois anos de negociação que seria concluído
em Copenhague (COP-15), onde foram incluídos vários temas que haviam
ficado de fora das negociações até então, mas cujo foco principal era
sem dúvida a inclusão dos Estados Unidos e dos países emergentes no
esforço global de mitigação.
Isso pressupunha um acordo com metas
mais ousadas para o PK, que os EUA tivessem objetivos similares aos do
PK e os países em desenvolvimento tivessem um engajamento progressivo no
esforço de mitigação. Isso sem contar a inclusão das emissões de
transporte internacional e de novos gases industriais com alto potencial
de aquecimento. Havia a expectativa de sair da COP-15 com um acordo
mais abrangente e mais ambicioso.
No entanto, Copenhague foi um
fracasso. Lembro-me da frustração de jogar na lata de lixo do hotel a
pilha de rascunhos de um "quase acordo" muito bom que não foi concluído.
A oportunidade política que tivemos em Copenhague - com mais de cem
chefes de governo e com o mundo acompanhando na expectativa de um acordo
que assegurasse a salvação do Planeta - foi única e dificilmente se
repetirá.
O processo de dois anos não foi suficiente para que os
negociadores resolvessem as divergências. Para evitar o fracasso
completo, na reta final um grupo representativo de chefes de governo e
ministros costurou o Acordo de Copenhague, muito aquém do conjunto que
estava até então na mesa, mas que continha elementos interessantes e
apontava um caminho a seguir.
Na plenária final, o Acordo de
Copenhague não foi adotado por falta de consenso, já que negociadores de
alguns poucos países não reconheceram a legitimidade do processo de
elaboração do texto. A COP "tomou conhecimento", mas não "adotou" o
acordo, o que criou um imbróglio diplomático burocrático até hoje não
resolvido completamente, consumindo horas de negociação e muitas
reuniões internacionais.
Ambição. De Copenhague a Cancún,
gastou-se um ano discutindo o status legal do Acordo de Copenhague, como
incorporar alguns dos seus elementos e, sobretudo, como construir um
ambiente de confiança para aprovar um novo acordo cujo mérito seria
existir, já que o nível de ambição era muito baixo.
O Acordo de
Cancún tem méritos ao avançar pontualmente nas áreas de financiamento,
adaptação, tecnologia e Redd+ (redução de emissões do desmatamento e
degradação florestal), mas, sobretudo, por quebrar o bloqueio boliviano
aprovando o acordo mesmo sob protestos do seu embaixador, que jogava
para seu público interno, prática deplorável, porém comum.
E qual
é o desafio para Durban? Objetivamente, o desafio continua a ser o
mesmo que tínhamos em Copenhague: criar as bases institucionais para um
regime climático global que torne mais eficiente e menos traumática a
transição para uma economia de baixo carbono - só que num cenário muito
menos favorável.
A Europa em crise e com a opinião pública
saturada do tema está menos disposta a avançar sozinha. Os EUA, que
nunca aceitaram um acordo legalmente vinculante, agora têm o apoio
explícito do Japão, Canadá e Rússia. A China, apesar da política interna
ousada para as fontes renováveis de energia, tem posições muito
conservadoras na negociação, principalmente quanto a dar transparência
aos números e às ações. O Brasil também tem políticas internas
avançadas, mas uma postura conservadora no âmbito internacional. A
esperança está na África do Sul, que tem negociadores muito capazes e
posições políticas avançadas, mas que tem de carregar a agenda africana
muito mais focada nos temas de financiamento e adaptação.
Nesse
contexto, um grande resultado para Durban seria a definição de um
processo de negociação para a criação de um novo acordo internacional e
de regras claras para o período de transição, garantindo a continuidade
do PK por meio do prolongamento da atual fase de cumprimento que acaba
em 2012. Aproveitando as lições aprendidas no PK, é recomendável que o
novo acordo não cristalize situações passadas e possa incorporar de
forma mais dinâmica as mudanças que ocorrem no mundo, como economias que
crescem e outras que colapsam, assim como novos gases e tecnologias que
surgem. E que valorize os estoques de carbono, como as florestas, e
traga vantagens comparativas para as formas de produzir e consumir com
baixas emissões de sorte a tornar mais justa e fácil a transição para a
inexorável economia de baixo carbono. No varejo seria importante validar
as decisões de Cancún, particularmente criar as condições para que o
Fundo Climático Verde pudesse operar já em 2012.
Um péssimo
resultado seria a persistência nos descaminhos dos últimos anos da
negociação com a consequente inviabilização de um acordo climático
global no âmbito do multilateralismo da ONU.
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