Paladar
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008, 16:02 | Online
Consagrado chef-escritor, Anthony Bourdain, lança novo livro
'Maus Bocados' traz a ironia e humor que são a marca registrada do polêmico autor franco-nova-iorquino
Pedro Henrique França, de O Estado de S. Paulo

No programa, Bourdain não deixou de passar pelo Brasil. Mas não é a vinda que está ali no documento audiovisual, realizada em janeiro do ano passado, que foi registrada no livro. Em Maus Bocados, ele relata sua primeira vez por aqui, a convite do editor da revista Food Arts, quando visitou São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. De São Paulo teve a impressão que fica difícil rebater: "É feia como o inferno". Mas não é antipatia. Bourdain explica: "Realmente é muito feia, mas fiz grandes amigos e fui muito bem recebido"."Fanático" por comida japonesa, por ser uma "comida leve e barata", Bourdain não aprovou a tradicional culinária da Liberdade. "Achei muito pesada", avalia. Mas diz ter adorado a feijoada da Cláudia, uma mulher da Vila Madalena que faz o prato sob encomenda, e também o sanduíche de mortadela do Mercadão. "É simples, mas é saborosíssimo. Não tenho nenhum preconceito com comida simples, pelo contrário", enfatiza.
No País, o chef simpatizou bastante com o restaurante Sorriso de Dadá, em Salvador. E não só pela picante comida, resultada dos típicos temperos baianos ("condimentos onipresentes e inebriantes") - mas também pela alegria do povo. "Gostei do ambiente, da cozinheira, da bebida, da música...Não sei se foi o restaurante que mais gostei da comida, mas foi o que me senti mais bem acolhido. Achei a Bahia muito interessante como um todo". Este apego pela situação, que por vezes sobrepõe o nível técnico de avaliação gastronômica, é uma característica que Bourdain revela já no prefácio do novo livro, quando relata a experiência de degustar uma foca, entre sangue e gosmas, com uma família canadense, na baía de Hudson ("como descrever a sensação de aconchego e intimidade naquela cozinha que, não fosse isso, seria prosaica?"). É assim, um tanto romântico, que ele conta à reportagem ter se apaixonado por Laus, no Sul da Ásia. "É um país que se envolveu na Guerra do Vietnã e que guarda uma história muito triste e, ao mesmo tempo, linda. A história deste país é muito evidente nas pessoas", diz ele.
O humor sarcástico verificado mais uma vez em Maus Bocados, é explicado pelo autor: "Todo chef tem que ser descontraído, senão acaba ficando louco com tanta pressão". É essa mesma pressão, diz ele, que justifica o Sistema D praticado por diversos chefs, que no Brasil poderia ser denominado de ‘jeitinho brasileiro’. Como, por exemplo, o caso de chefs que espremem a carne que ainda está ao ponto para sair o sangue e ficar bem passada mais rapidamente. "É ruim, mas eu compreendo, por já ter trabalhado em grandes restaurantes e ver a pressão que são submetidos".
Atualmente, Bourdain está numa fase "light". Recém-casado, diz que está fazendo tudo o que gosta: "comendo, viajando, me divertindo e aproveitando o casamento". Nos planos, um novo livro e adianta: será um romance policial. "Já estou até escrevendo". E livros de receita - teremos outros? "Não sei se pretendo escrever mais livros de receitas". Mas aos brasileiros, uma boa notícia: "Quero voltar ao Brasil o mais rápido possível".
Por enquanto, a opção é "viajar" pelo mundo com Bourdain: Maus Bocados chega às lojas no próximo dia 26.
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