Imigração Japonesa
sábado, 24 de maio de 2008, 19:00 | Online
Uma apaixonante vontade de viver
Ryo Sakagami, de 100 anos, cruzou os mares aos 26 para conhecer o marido prometido. A vida em solo brasileiro não foi fácil. Mas ela nunca perdeu a esperança - nem o bom humor
Márcia Placa

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A primeira impressão do País,porém, não foi das melhores. Quando chegou ao bairro Primeira Aliança, em Mirandópolis, teve um contato inédito com baratas. Em Hirosaki, província de Aomori, esses insetos não existiam, por causa do frio. Aqui, com o calor, estavam por todos os lados. "Fiquei assustada."
A vida em solo brasileiro não foi fácil. Mesmo assim, Ryo mandava mantimentos para o Japão, no período do pós-guerra. "Ela fazia sacos de tecido, colocava doces dentro dos sapatos e enviava ao Japão. Lá, o sapato era usado em quem servisse e os alimentos, distribuídos. Com os panos, faziam roupas para crianças", conta Luiza, emocionada. "É uma mulher espetacular."
E não é para menos. A vida de Ryo foi dedicada à família. "Eu trabalhava para oferecer um futuro aos meus filhos", conta. Por 60 anos, ela e o marido moraram em Mirandópolis, cercados de pomar, horta e flores. Para a família, a alegria e a paz do Interior ajudaram Ryo a chegar aos 100 anos. Fã de esportes, ela só não assiste mais aos jogos do seu Corinthians por medo de o coração não resistir. "Não sei se agüento tanta emoção."
Apesar de não ter conseguido aprender o português, ela conta que veio ao Brasil, há 74 anos, com o objetivo de ficar. "Nunca pensei em voltar, adoro essa terra."
A centenária revela que gostaria que as futuras gerações aprendessem mais com os pais. "Ela passa a mão em nossas mãos e diz que não trabalhamos, porque não temos calos", conta a neta.
Ryo não acredita estar com 100 anos e brinca com isso: "Não tenho mais pretensões, já passei da hora de ir." Ela é tratada como um tesouro pela família - tem quatro filhos, sete netos e três bisnetos. No centenário dela, em 30 de abril, todos se reuniram. "Foi uma festa bonita", conta a neta, mostrando o mural feito para homenagear a batcham (avó). "Aqui todos a respeitam." E quem a conhece se apaixona por sua vontade de viver.
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