segunda-feira, 1 de setembro de 2008, 00:16 | Versão Impressa
Lições do rei Canuto a Obama
Soberano do séc. 11 não prometia o que não podia cumprir. Mas na época não havia eleições
Timothy Garton Ash* - O Estado de S.Paulo
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Nas próximas dez semanas Obama deve dizer tudo o que for necessário para lhe garantir a eleição, ao mesmo tempo sem fazer promessas que o futuro possa derrubar. Nisso ele é brilhante: um gênio da inspiração inespecífica. No pós-eleição, Canuto será necessário. Suspeito que Obama saiba disso, se não no coração, ao menos no intelecto. Seus livros e documentos minuciosos de propostas mostram uma detalhada compreensão da complexidade do mundo atual. Podemos acreditar que ele não cometerá o erro de confundir a própria retórica com a realidade, nem nós devemos confundir as duas coisas.
Celebrando o messias democrata como um "pragmático de visão clara" (caracterização pouco comum em se tratando de messias), seu recém-descoberto candidato a vice-presidente, Joe Biden, diz que um Obama presidente terá a chance de "transformar não apenas a América, mas o mundo todo". O mais surpreendente é que que boa parte do mundo espera dele exatamente isso. Mas a verdade é uma só. Com uma boa ajuda da sorte, e um comparecimento maciço de voluntários e jovens eleitores, Obama pode ser eleito presidente, superando os obstáculos eleitorais de ser negro, inexperiente, liberal (no peculiar sentido americano contemporâneo do termo) e intelectual. Ao ser simplesmente eleito, e sendo quem é, ele mudaria tanto a América quanto a imagem que o mundo tem da América. Mudar o mundo já é outro problema.
O sentimentalismo é um dos principais ingredientes da política americana, e não há festival de sentimentalismo mais amanteigado que uma convenção democrata. Mas o que a mulher de Obama, Michelle, disse na noite de segunda-feira, num discurso bastante sentimental, contém um comovente elemento de verdade. O fato de que "uma garota da zona sul de Chicago e o filho de uma mãe solteira do Havaí" pudessem chegar tão longe representa tudo o que os Estados Unidos oferecem de bom e de esperança. Depois de West Side Story, um mundo carregado de cultura popular americana a "South Side Story" .
Na verdade, são duas histórias: a dele e a dela, agora misturadas na história de suas filhas, Malia e Sasha. Quando os americanos dizem "raça," eles querem dizer mais do que os europeus entendem pelo termo. "Raça" significa o legado de gerações de escravidão e de uma segregação chocantemente recente. Obama aceitou a indicação à candidatura na noite de quinta-feira, 28 de agosto, no 45.º aniversário do discurso em que Martin Luther King disse "Eu tenho um sonho". Há apenas 45 anos a igualdade básica entre os americanos era apenas um sonho. Assim, a história inicial é como descendentes de escravos podem vir a ocupar a Casa Branca. Depois de Colin Powell e Condoleezza Rice no Departamento de Estado, essa é a fronteira final. A segunda história é a do próprio Obama, filho de um pai queniano inconstante e de uma mãe americana branca, com laços familiares em diversas culturas, um filho de nosso mundo cada vez mais miscigenado agora na expectativa de se tornar seu homem mais poderoso.
O mais poderoso - mas ainda assim menos poderoso, em termos relativos, que a maioria de seus predecessores desde 1945. Pois isso também define o momento de Obama: o fato de que o poder relativo do presidente dos EUA diminuiu, está diminuindo e continuará a diminuir. Basta considerarmos aquilo que vem acontecendo fora da bolha da eleição americana. Na Geórgia, a Rússia provocou Washington e rasgou os termos do acordo firmado após a Guerra Fria. No Afeganistão e no Paquistão, os extremistas islâmicos estão ficando mais fortes, não mais fracos, enquanto pagamos o preço da interminável busca de George Bush no Iraque.
Na Olimpíada de Pequim, a China exibiu espetacularmente seu ressurgimento pacífico como potência mundial. Aquela massa de acrobatas, percussionistas e dançarinos, sobrepujando Hollywood em seu próprio campo - o espetáculo - no estádio Ninho do Pássaro, mandou uma mensagem mais poderosa que qualquer tanque russo. O mundo está captando a mensagem. Mesmo antes da demonstração olímpica, o Pew Global Attitudes Project divulgou os notáveis resultados de uma pesquisa de opinião realizada em 24 países na qual foi perguntado se a China viria a substituir ou já teria substituído os EUA como a maior superpotência. Poucos responderam que a substituição já ocorrera, mas cerca de metade dos franceses, alemães, ingleses, espanhóis e australianos - para não falar nos próprios chineses - disseram que ela ocorrerá. Ainda mais impactante: um terço dos americanos pensa o mesmo. E em assuntos internacionais, assim como nos mercados financeiros, a percepção é uma grande parte da realidade.
Enquanto isso, as negociações comerciais mundiais entraram em colapso, pois os países desenvolvidos e em desenvolvimento não puderam chegar a um acordo. Estamos bem longe de atingir as "metas de desenvolvimento do milênio" da Organização das Nações Unidas para ajudar os pobres e os doentes do mundo. As medidas necessárias para reduzir as emissões de carbono - sobretudo nas economias asiáticas de crescimento acelerado - não estão sendo tomadas. As calotas polares seguem derretendo. Nada próximo do que é preciso está sendo feito para reduzir a velocidade com que o nível dos oceanos sobe. Não está claro quanto uma mudança na política americana, mesmo que radical, poderia mudar isso agora. Michelle Obama falou com eloqüência sobre o desejo do marido de mudar "o mundo como ele é" para "o mundo como ele deveria ser." Mas a capacidade de Washington de fazê-lo é muito menor do que já foi na década de 1940, ou mesmo na de 1990, quando Bill Clinton teve a sorte de caminhar lado a lado com a história.
A força doméstica dos EUA também já não é mais aquilo que foi. Na atual crise de crédito do turbocapitalismo, bancos tradicionais americanos procuram fundos soberanos do Oriente Médio e Extremo Oriente em busca de ajuda. O Oriente resgata o Ocidente. O mercado imobiliário americano oscila no limite do colapso. É difícil achar emprego. Americanos de classe média saem do plano de saúde e caem na pobreza. Enquanto centenas de bilhões de dólares foram desperdiçados no Iraque e em equipamentos dignos do Exterminador do Futuro IV para a força militar mais poderosa jamais vista no mundo, qualquer um que passe pouco tempo nos EUA percebe como a infra-estrutura civil está ruindo. Esse não é mais um país capaz de "pagar qualquer preço, suportar qualquer fardo" - para lembrar a impressionante retórica com a qual o irmão mais velho do convalescente senador Edward Kennedy certa vez encantou o mundo.
Os EUA ainda contam com forças extraordinárias. Entre as maiores está a habilidade de atrair os mais brilhantes, mais energéticos e empreendedores homens e mulheres de todo o mundo e dar-lhes liberdade e oportunidade de usarem seus talentos ao máximo. Pessoas como Barack Obama. Como homem, Obama personifica a força contínua dos Estados Unidos. Como presidente, ele terá de enfrentar a crescente fraqueza do país.
*Timothy Garton Ash é professor de estudos europeus na Universidade Oxford, bolsista-sênior da Hoover Institution da Universidade Stanford e autor, entre outros, de Free World (Penguin UK)
SEXTA, 29 DE AGOSTO
Sarah é trunfo de McCain
O candidato republicano surpreende na escolha do vice: anunciou a governadora do Alasca, Sarah Palin, para compor sua chapa. A indicação é considerada estratégica, porém arriscada. O republicano pretende ganhar o voto feminino com uma novata na política.
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