Feminino

domingo, 12 de agosto de 2007, 00:00 | Versão Impressa

Felicidade nas formas

O aspecto das linhas de fora arquitetam estados de espírito de dentro. É isso que propõe o filósofo suíço Alain de Botton

Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo

 - Por que as pessoas gastam horas e horas para escolher tapetes, móveis e até uma simples maçaneta? A questão estética não é a única justificativa. E nem mesmo o vilão do consumismo ou de modas ditadas pelas revistas de decoração. Além da aspiração pela beleza, no fundo, busca-se elementos que representem cada um. Os formatos, cores e materiais têm o poder de evocar estados de espírito. Isso é o que sustenta o filósofo suíço Alain de Botton no livro A Arquitetura da Felicidade (editora Rocco).

Alain conduz o leitor a bordo de um passeio instrutivo pelos diferentes estilos que se propagaram ao longo dos séculos - o clássico, barroco, gótico, moderno - e seus respectivos significados. Até chegar às reflexões sobre como as pessoas decoram seus lares contemporâneos e em que medida o visual dos ambientes é capaz de influenciá-las. "Meus livros tendem a girar em torno de questões que nos fazem felizes ou infelizes em áreas da vida cotidiana", diz o filósofo.

Aos 38 anos, ele é um dos principais expoentes mundiais da "nova filosofia": uma corrente que expõe, de forma acessível, idéias que de fato ajudam a entender (e melhorar) o cotidiano. Ele já se debruçou nas águas turbulentas das paixões em Ensaios de Amor; no prazer da experiência nômade em A Arte de Viajar; e na infeliz inquietação que move a maioria em Desejo de Status - todos lançados pela Rocco. "Em um certo ponto, me ocorreu que os prédios ao nosso redor têm um impacto enorme sobre como nos sentimos. As chances de sermos felizes aumentam se morarmos em Veneza, ao invés de Detroit", justifica. No livro, ele sugere que as construções falam a partir de sua estética, e que se deve refletir muito mais sobre o tipo de mensagens que transmitem.

Apesar do nome francês, Alain vive em Londres desde os 12 anos. Casado e pai de duas crianças, mora em uma casa minimalista, sob o império do branco. Isso porque ele é calmo e tranqüilo? Ledo engano. "Sou muito ocupado. Eu preciso do branco e do minimalismo exatamente porque transmitem essas qualidades de calma", conta. "O gosto na decoração tende a revelar o que a pessoa sente que está faltando em sua vida. E assim também os melhores prédios públicos refletem os ideais de uma sociedade."

Por quais razões somos tão vulneráveis ao visual dos ambientes? Por que precisamos (tanto) confirmar por meio de elementos exteriores quem somos?

Quando dizemos que uma cadeira ou casa é linda, o que estamos falando é que gostamos do modo de vida que ela nos sugere. Há uma atitude à qual somos atraídos: se o objeto se transformasse em uma pessoa, gostaríamos dela. Seria bom se mantivéssemos o mesmo humor em qualquer lugar onde estivéssemos, em um hotel barato ou num palácio (imagine quanto economizaríamos em decoração). Mas somos altamente vulneráveis às mensagens codificadas que emanam do que está à nossa volta. A arquitetura e decoração ajudam a decidir quem nós somos - e daí vêm nossos sentimentos apaixonados por esses temas. É claro que não podem, por si só, sempre nos tornar pessoas satisfeitas. Sugerem um estado de espírito: a sua eficiência pode ser comparada ao do clima, um dia bonito pode mudar nosso humor. Mas sob o peso de problemas suficientes, nenhuma quantidade de céu azul, nem a mais incrível construção, será capaz de nos fazer sorrir. Por isso, há a dificuldade de considerar a arquitetura uma prioridade política: não tem as vantagens diretas de um prato de comida. Mas ainda assim é vital.

Quais são os riscos existenciais de uma escolha errada de cor na parede ou sofá?

Eu sinto que está longe do trivial passar um longo tempo discutindo sobre um sofá ou um prato. Porque um sofá, em particular, pode sugerir toda uma atitude de existência. Quando as pessoas discordam e discutem nas lojas de móveis, estão defendendo o que é realmente significativo para cada um. Um homem pode dizer que ama um sofá angular com base de aço de uma moderna companhia de design italiana, mas na verdade está encantado com as qualidades de ordem, lógica e racionalidade que esse objeto sugere a ele. Enquanto isso, a mulher pode armar uma confusão exatamente porque odeia todo esse aspecto "sofá moderno" de seu marido - ela adoraria mergulhar o seu casamento em virtudes como a calma, doçura e romantismo, que detecta em uma contrastante chaise-longue de estilo do século 18.

Como você definiria os sentimentos evocados pelos estilos clássico, gótico e a geometria moderna de Le Corbusier?

Há uma citação de Stendhal (Marie-Henri Beyle, escritor francês da primeira metade do século 19): "a beleza é a promessa de felicidade". Pode-se dizer que esses estilos representam diferentes tipos de felicidade. O clássico refere-se à calma e ordem; o gótico representa o charme do antigo e do mal assombrado; e a geometria de Corbusier fala sobre algo brutal e severo.

Em meio a tantos estilos, o que deveria nortear nossas escolhas em design atualmente?

Precisamos entender o que mais nos falta para podermos criar ambientes que realmente serão uma espécie de proteção contra aquilo que não temos suficiente - e uma defesa contra tudo que não é amigável. O que chamamos de uma casa linda é, no final, um lugar que representa bem todas aquelas coisas que são mais importantes para nós. É um ambiente que o ajuda a ser quem você é, em seu melhor aspecto. Naturalmente, nem sempre conseguimos estar nesse estado ideal, mas penso que construir esse tipo de lar é a ambição subjacente por trás de toda a arquitetura e design. Para mim, existem dois grandes estilos hoje: o minimalista e o rústico. Ambos relacionam-se com elementos que faltam na sociedade: a calma e o contato com a natureza. Muita gente ama objetos antiquados, porque sente nostalgia pelo passado rural, pelas vidas rústicas. Muitos odeiam a arquitetura moderna exatamente porque ela não os ajuda a rebalancear suas psiques. E outros tantos querem viver em casas de campo para ter contato com o orgânico e tradicional em oposição à vida ocupada e tecnológica.

O conceito dos espaços vazios e interligados do loft, criado em Nova York por artistas como uma solução barata para conjugar ateliê e casa, correu o mundo. Hoje custam caro, e pode-se comprá-los por questões práticas, mas também na expectativa de incorporarem um certo estilo de vida moderna. Não há o risco de essa residência não fazer sentido para todos?

Não há nada de errado em comprar um estilo que você viu em outro lugar. Afinal, fazemos isso com roupas, livros, música: não podemos todos ser artistas. O loft tende a ser popular em locais onde há muito barulho, superpopulação, atrações e distrações em demasia. Essas condições inspiram um desejo pelo oposto. Mas vale lembrar que se você vive no deserto, o minimalismo provavelmente não será atrativo.

No livro, há dois projetos de Oscar Niemeyer, que abusa do concreto e desenha curvas inspiradas no corpo das mulheres. Você acredita que seu trabalho é bom exemplo de uma linguagem arquitetônica em consonância com a identidade de um país e um povo?

Eu penso que Niemeyer criou uma imagem maravilhosa do que poderia ser moderno e brasileiro: suas obras são promessas sobre como poderia ser o futuro do País. Acho divertido como ele freqüentemente fala do seu amor por mulheres bonitas... ele enxerga reais similaridades entre um corpo atraente e uma casa atraente. E sugere uma maneira para o Brasil ser moderno, sensual, exuberante, disciplinado e ordeiro: para mim é um ideal bastante atraente.

Na sua opinião, quais são as maiores lições da arquitetura?

Quando as pessoas sonham em serem felizes, quase sempre sonham em estarem num certo local. Dizem: se ao menos estivéssemos em Paris, ou se eu vivesse em São Francisco, etc. Isso reflete uma importante verdade: a qualidade das construções ao nosso redor determina fortemente nosso estado de espírito e o nosso nível de felicidade. Qualquer um envolvido com arquitetura deveria se lembrar sempre disso. A arquitetura é, claro, um negócio prático, mas também é uma arte. E tem em si o poder de nos deixar mais ou menos contentes.