Viagem
terça-feira, 4 de setembro de 2007, 00:00 | Versão Impressa
Zoológicos humanos
O Estado de S.Paulo
- Disposto a recuperar o tônus muscular depois de prolongado ócio estival, mr. Miles partiu em direção ao Peru para o que definiu como light walk na região da Cordilheira de Huayhuash. Seu último contato com a redação (e, segundo consta, com o mundo) foi feito a partir de uma awful lan house na cidade de Huaraz, ponto de encontro com o guia que conduziria nosso correspondente por duas semanas de desafios em um território pouco povoado, com altitudes freqüentemente superiores a 5 mil metros, vistas espetaculares e lagos de degelo. Mr. Miles ia acompanhado de uma andarilha norueguesa que já foi a pé dos Alpes aos Urais, do cicerone peruano e de uma tropilha de mulas, que estaria à espera dos aventureiros na localidade de Llamac. A redação, aflita, não tem idéia de quando e como chegarão as próximas notícias do viajante britânico. Mas aposta que ele dará um jeito.
A seguir, a pergunta da semana:
Querido mr. Miles: participei de um desses programas turísticos que incluem uma visita a uma ''''autêntica'''' aldeia de índios na Bahia. Depois, descobri que aquilo era apenas uma encenação, porque encontrei os silvícolas em um bar de praia já sem pinturas e cocares, usando camisetas de times de futebol. O senhor não acha isso um engodo?
Ana Maria Lenzi Alvoredo, por e-mail
''''Well, my dear, I''''m sorry to say, mas acho que você foi um pouquinho ingênua ao supor que pudesse encontrar indígenas autênticos em um passeio turístico. Unfortunately, nós, os curiosos, já os exterminamos ou corrompemos a quase todos e reza a boa prática dos sertanistas atuais que é preciso manter incólumes as poucas tribos avistadas e ainda não molestadas.
A alternativa, darling, são simulacros de vida selvagem como, I presume, esse em que você esteve. Há milhares deles around the world. Na Polinésia, na África, even in the United States. Alguns deles, I must say, são instrutivos e reproduzem fielmente a estrutura social e cultural das tribos dizimadas. Outros são intelectualmente desonestos e apresentam versões glamourizadas de danças e indumentárias que os povos retratados jamais reconheceriam.
Todos, a meu ver, são jardins zoológicos humanos. No lugar da girafa ou do crocodilo, ficam expostos seres humanos que fingem cumprir tarefas ancestrais. It''''s disgusting!
Admito, however, que há público interessado nesse tipo de bizarrice travestida com nomes do tipo ''''Centro Cultural'''' ou ''''Centro Interpretativo''''. Sou forçado a reconhecer, as well, que há muitos desempregados que encontram alguma renda ao vestir uma fantasia e dançar hula.
A propósito, my dear, tenho um conhecido que vive de expedientes semelhantes. Célebre por sua fealdade, Anthony não consegue trabalho estável, uma vez que seus únicos interesses são a música dodecafônica e a criptografia. Sua aparência horrenda, contudo, rende-lhe partime jobs em espetáculos de Halloween e semanas de terror em parques de diversão. A última vez que o vi, estava em andrajos, representando um burglar na Old Sturbridge Village, em Plymouth, na Nova Inglaterra. Trata-se de um parque que reproduz o modo de vida do século 18. Another human zoo, isn''''t it?''''
Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 131 países e 7 territórios ultramarinos. É colunista e conselheiro editorial da revista ''''Próxima Viagem''''
A seguir, a pergunta da semana:
Querido mr. Miles: participei de um desses programas turísticos que incluem uma visita a uma ''''autêntica'''' aldeia de índios na Bahia. Depois, descobri que aquilo era apenas uma encenação, porque encontrei os silvícolas em um bar de praia já sem pinturas e cocares, usando camisetas de times de futebol. O senhor não acha isso um engodo?
Ana Maria Lenzi Alvoredo, por e-mail
''''Well, my dear, I''''m sorry to say, mas acho que você foi um pouquinho ingênua ao supor que pudesse encontrar indígenas autênticos em um passeio turístico. Unfortunately, nós, os curiosos, já os exterminamos ou corrompemos a quase todos e reza a boa prática dos sertanistas atuais que é preciso manter incólumes as poucas tribos avistadas e ainda não molestadas.
A alternativa, darling, são simulacros de vida selvagem como, I presume, esse em que você esteve. Há milhares deles around the world. Na Polinésia, na África, even in the United States. Alguns deles, I must say, são instrutivos e reproduzem fielmente a estrutura social e cultural das tribos dizimadas. Outros são intelectualmente desonestos e apresentam versões glamourizadas de danças e indumentárias que os povos retratados jamais reconheceriam.
Todos, a meu ver, são jardins zoológicos humanos. No lugar da girafa ou do crocodilo, ficam expostos seres humanos que fingem cumprir tarefas ancestrais. It''''s disgusting!
Admito, however, que há público interessado nesse tipo de bizarrice travestida com nomes do tipo ''''Centro Cultural'''' ou ''''Centro Interpretativo''''. Sou forçado a reconhecer, as well, que há muitos desempregados que encontram alguma renda ao vestir uma fantasia e dançar hula.
A propósito, my dear, tenho um conhecido que vive de expedientes semelhantes. Célebre por sua fealdade, Anthony não consegue trabalho estável, uma vez que seus únicos interesses são a música dodecafônica e a criptografia. Sua aparência horrenda, contudo, rende-lhe partime jobs em espetáculos de Halloween e semanas de terror em parques de diversão. A última vez que o vi, estava em andrajos, representando um burglar na Old Sturbridge Village, em Plymouth, na Nova Inglaterra. Trata-se de um parque que reproduz o modo de vida do século 18. Another human zoo, isn''''t it?''''
Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 131 países e 7 territórios ultramarinos. É colunista e conselheiro editorial da revista ''''Próxima Viagem''''