Feminino

domingo, 14 de outubro de 2007, 00:00 | Versão Impressa

Achados da Augusta

Do trash ao cult e do pop ao fino, a rua Augusta é uma deliciosa caixinha de surpresas que a modismos

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO - Se os cariocas têm a sua Garota de Ipanema, os paulistanos não ficam atrás com a suingada Menina Gata Augusta, música de Jorge Ben Jor, composta em 1967, no auge da rua Augusta. Como na letra, meninas sobem e descem a rua sem se cansar. Com elas, jovens tatuados, senhores de cabelos brancos, office boys, gays, estudantes, empregadas domésticas, estrangeiros que se hospedam nos hotéis das redondezas, roqueiros, prostitutas.

Com 3.008 metros de extensão, 18 travessas e a Av. Paulista no meio, a rua - que já foi acarpetada nos anos 70 - é única por sua diversidade. Muitos comerciantes se mudaram para os shoppings, porém alguns não arredam o pé do pedaço, como a Firenze, loja de tecidos finos, a Larissa, de roupas femininas, a Casa Almeida, de enxovais, a Tody, de calçados infantis, a Plas, de chapéus, e Au Bottier, de calçados e botas. Para os habitués, a palavra decadência não existe, simplesmente porque a rua está sempre acontecendo. Jovens designers, estilistas, DJs, empresários estão invadindo a Augusta, que pode ser dividida em duas, do lado dos Jardins e em direção ao Centro.

Da Al. Santos até a R. Estados Unidos, há de tudo um pouco. Na altura do Cine Sesc, mas do lado oposto, uma entrada escondidinha (nº 2052) com um longo corredor leva ao Puri, bar e restaurante que tem mesas à sombra de um imponente abacateiro. Além da boa música, selecionada pelo proprietário, o DJ Bispo, e da comida vegetariana com toques indianos, a casa (agora só abre à noite) é um prato cheio para os noveleiros. É que, num telão enorme, são passados os finais de novelas que marcaram época, como Roque Santeiro, Vale Tudo e A Gata Comeu.

Vizinha ao Puri está a Cadô (nº 2052, casa 7), loja de presentes personalizados. Aberta há quatro meses e com divulgação boca a boca, a loja do publicitário Ricardo Braghetta aceita encomendas e tem como pontos fortes garrafinhas de água mineral com rótulos criados ao gosto do cliente e havaianas personalizadas.

Cafés não faltam na rua, mas o charmoso Frida ( nº 2157) vale uma visita. Com ambiente lounge, poltronas de couro e aconchegantes futons no mezanino, oferece receitas tentadoras com nomes de artistas plásticos, como a torta Frida (tem creme de baunilha e morango), o sanduíche Monet (de presunto cru, creme de queijo e salada) e o drinque Botero, à base de café, sorvete de creme, Ovomaltine e Nutella.

Não deixe de entrar na Galeria América (nº 2203), que concentra um mix de lojas e serviços. De um lado, o salão retrô dos cabeleireiros Nilton e Teresa, há 40 anos na região, atendendo uma clientela fiel que não abre mão da tintura e mechas bem feitas. Em frente, lado a lado, ficam as lojas dos moderninhos, como a Hotel, de Luciana Sette, que vende camisetas com tingimentos e estampas especiais, de R$ 30,00 a R$ 45,00. O brechó Bendita Benedicta vende desde roupas de magazines até um tailleur Christian Dior, por R$ 200,00.

Na Poderosa Isis, Alessandro Teodoro é procurado pelas bolsas e almofadas com estampas que vão de Frank Sinatra a imagens do filme Laranja Mecânica. A loja também vende objetos de design feitos por amigos. Ao lado, a Biafobia tem bottons sortidos, chaveiros, cinzeiros coloridos com os Beatles estampados e camisetas com o rosto de Amélie Poulin e Audrey Hepburn. À noite o movimento não pára na galeria. No subsolo fica o Hole Club, no mesmo local onde já funcionaram casas históricas da noite underground paulistana, como a Nation e Armagedon.

Cansou? Então faça uma pausa na Bodega do Banho, localizada na Galeria Florida (nº 2212), que funciona como um spa express. Por R$ 100,00, em uma hora e meia, você sai de lá renovado se fizer o pacote completo de relaxamento com reflexoterapia, manoterapia (massagem nas mãos com óleos essenciais), cromoterapia e florais de Bach.

Cultura para todos


Atraída pela localização e diversidade de pessoas que por ali transitam, Isabella Prata abriu em novembro, no nº 2239, a Escola São Paulo, um projeto cultural que dá à população a oportunidade de entrar em contato com diversas formas de mídia. "Até hoje a escola desperta a curiosidade e as pessoas querem saber se é um tipo de loja, uma livraria", fala Ariane Frances, coordenadora. Antenado com as tendências contemporâneas, o espaço, que canaliza parcerias, reúne no conselho gente do porte de Paulo Mendes da Rocha (idealizador do conteúdo da biblioteca) e a galerista Luiza Strina.

 

 Oferece cursos livres, palestras e oficinas. Entre os temas, gastronomia, moda, cinema, vídeo, aulas voltadas para crianças, design, literatura, entre outros. É aberto gratuitamente ao público para pesquisas de filmes, livros , DVDs e CDs.

E como a Augusta é feita de contrastes, em frente à vanguardista Escola São Paulo, fica o sebo de livros e discos Canto das Letras (n º 2244). Os sócios Jefferson Moreira e Edgar Escobar recebem os clientes como se a loja fosse uma sala de estar.

Não é à toa que idosas solitárias moradoras das proximidades vão até lá bater papo e brincar com os gatos e cães que têm nomes inspirados na alta-costura, como Gucci, Calvin, Prada e Coco. Segundo Edgard, os livros de arte são o forte da loja. Ele aponta um exemplar raro de Pancetti, por R$ 1 mil . Nos fundos do sebo, uma surpresa: um amplo jardim com pitangueiras.

Descendo mais um pouco, chega-se à rainha das perucas. Há 18 anos na Augusta, a cabeleireira Nilta Mucelli é especialista em apliques e perucas de cabelos naturais ou sintéticos. Nilta começou no bairro do Belém, onde tem salão. Fez cursos em Nova Iorque e Los Angeles, onde aperfeiçoou o know-how dos acessórios. "Ao salão vem gente do Brasil todo." Também fornece suas perucas para a TV. É dela o modelo igualzinho ao cabelo de Ana Maria Braga, usado pelo humorista Tom Cavalcanti na hilária imitação da apresentadora. As perucas dos meninos do Pânico na TV também são criações de Nilta.

Entre a alamedas Lorena e Tietê, no nº 2542, fica a Vila San Pietro. Pintada em tons de ocre e inspirada em algum lugar da Toscana, a vila agrupa uma dezena de lojas charmosas e o restaurante Grão de Sal nos fundos. Novinha em folha, a loja Orchid é tocada por duas jovens, ambas de 27 anos: a publicitária Veridiana Miranda e a veterinária Paula Benevides. "Começamos fazendo bazares.

 

Deu certo, então, resolvemos abrir a loja", contam. Especializada em presentes, a casa vende desde lembrancinhas - como os lindos relicários, a partir de R$ 20,00 - a caixas artesanais de sabonetes e sachês, por R$ 46,00, passando por arranjos de flores, cristais, quadros e faqueiros de prata. As designers de bijuterias Camila Prado e Tatiana Korilov, que tinham loja nessa vila, agora estão num ponto em frente, com a fachada lilás (nº 2542, lj 02), que se chama As Meninas.

Os preços das bijus vão de R$ 16,00 a R$ 180,00. Nos fundos da loja, há um espaço com objetos feitos por outros designers, como alguns móbiles .

Entre a Lorena e a Oscar Freire, mais dois achados na Galeria Mercantil (nº 2633). Acessórios de estilo, especialmente correntes prateadas de todos os tipos e tamanhos, feitas por designers de Minas e Rio, estão à venda na loja Milla Manfredini. Os preços vão de R$ 69,00 a R$ 190,00. Há também bolsinhas vintage e algumas roupas com estampa psicodélica. Na mesma galeria, não deixe de visitar a B. Lucho, brechó dos jovens Paula Revoredo e Gilberto França. As peças, na maioria dos anos 70 e 80, já saíram em vários editoriais de moda. Os óculos retrô estão na faixa de R$ 35,00.

No quarteirão entre a Oscar Freire e a Estados Unidos, ao lado do salão Jacques Janine, foi inaugurada recentemente a Villa Albany (nº 2805), do empresário Mauro Cardim. O espaço de mil metros quadrados, com projeto do arquiteto Jaime Lago e obras do artista plástico Romero Britto, concentra bar, restaurantes, café e chocolateria, adega, livraria e floricultura. O cardápio do Dom Pedro Restaurante tem a assinatura do chef Luciano Boseggia. No restaurante Shiro, os fãs da culinária japonesa podem deliciar-se com o cardápio do chef Luciano Costa. E no Doce Café, a chocolatier Marisa Diniz oferece vários tipos de chocolates acompanhados de cafés aromatizados.

Próxima, fica a Galeria Augusta, que desemboca na Barão de Capanema. Aqui, dois endereços que merecem um garimpo: a loja Saia Folgada, com modelitos fashion do manequim 44 ao 54, e o Beco das Flores, onde Carlos Brioschi faz belos arranjos sob encomenda.

Hot, Hot, Hot



Em direção ao Centro, botecos, casas noturnas e inferninhos fazem a rua ferver de madrugada. Perto dos cinemas do Espaço Unibanco, ficam os botecos BH, na esquina com a Luís Coelho, o Charm, na esquina com a Antônio Carlos, e o Ibotirama, na esquina com a Fernando de Albuquerque. São pontos de encontro da rapaziada. Cerveja barata e pratos a qualquer hora acabam atraindo muita gente, de universitários a militantes GLS, passando por roqueiros e baladeiros em geral.

Para cada gosto musical, um clube noturno. O Saravejo ocupa um casarão no nº 1385. Entre os estilos sonoros que podem ser ouvidos por lá estão o samba-rock, funk, jazz e soul. Mais cenográfico e menos underground, o Vegas (nº 765) abusa do neon, cortinas de veludo, lustres de cristal e paredes de capitonês dourados. O arquiteto Marcos Paulo Caldeira e o cenógrafo Frank Dezeuxis buscaram referências na Las Vegas dos anos 50 e no cassino da Urca.

 

A noite sempre começa com um show ao vivo de jazz e rock e lá pelas tantas a pista de dança é aberta. O Outs (nº 486) é um rock bar idealizado por freqüentadores do circuito musical alternativo. O Inferno (nº 501) tem capacidade para 500 pessoas, pista de dança e grande palco para apresentações. O destaque é o mezanino, que tem vista direta para a pista de dança, palco e o clube em geral. Nas sextas, a programação inclui shows de rock, indie, punk e música brasileira de vanguarda.

No meio desse cenário alternativo, acredite se quiser, dentro da Galeria Ouro Fino (nº 1371), há duas lojas de artesanato indígena, uma delas, a Casa das Culturas Indígenas, dos sócios Paulo Rogério Bagdonas e Helena Shizue Yamanaka. Para quem se espanta com o tipo do comércio no local, Paulo observa que a Augusta é singular justamente por reunir nichos de mercado. Não menos surpreendente é encontrar um alfaiate desse lado da rua.

 

Maurice Plas chegou ao Brasil em 1951 e abriu um ateliê de alta costura masculina e feminina na rua Conselheiro Crispiniano. Anos depois, mudou-se para a Augusta, nº 724, onde está até hoje ao lado dos filhos Maurice e Robert. Com clientes como os cartunistas Paulo e Chico Caruso, a loja faz roupas sob medida e tem uma infinidade de chapéus e boinas.

Em busca de discos de vinil, CDs, DVDs e fitas de VHS especiais? Entre no sebo Discomania, nº 560. Um mural na frente da loja reúne todos os gêneros, como Aracy de Almeida, a trilha sonora do filme Picnic, a cantora de jazz Peggy Lee, passando por pagode, rock e axé. O gerente Fabio Jorge mostra um disco dos Beatles, Yestarday and Today, que é raro não pelas músicas mas pela capa que foi censurada na época.

Logo depois, no nº 736, fica a Abusada, especializada em roupas e acessórios sensuais e fetichistas. Só pelo papo com a gerente Adriana Oliveira já valeria a visita. Na vitrine, tops, vestidos, microssaias, maiôs engana-mamãe de crochê e sandálias com salto de acrílico inspirados no visual da Bebel, personagem de Camila Pitanga na novela global Paraíso Tropical. Adriana conta que a loja não é procurada apenas por garotas de programa, "que, por sinal, não gostaram de Bebel, que fez da prostituição um conto de fadas".

 

Segundo ela, casais que fazem suingue vêm em busca de novidades. As roupas, desenhadas pelo dono Ruberti Fernandes, são confeccionadas em veludo, lamê, crochê, tudo bem estiloso. Dependendo da peça, como um top de veludo devoré, os preços passam de R$ 100,00. Divertida, a gerente conta que, nesse ramo, a discrição é a alma do negócio. "Dependendo do cliente, seja homem ou mulher, me faço de surda e cega porque, apesar de habitués, quando voltam à loja acompanhados de outra pessoa, fingem que nunca entraram aqui!"

Da próxima vez, deixe o carro na garagem, use um sapato bem confortável e faça como reza a tradição da Augusta: suba por um lado da calçada e desça pelo outro, garimpando os endereços.


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