Feminino
domingo, 21 de outubro de 2007, 00:00 | Versão Impressa
Gene musical
Mãe dos violonistas Sérgio, Odair e Badi Assad, dona Ica grava o primeiro CD após inspirar os filhos desde o berço
Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo
- Os olhos sorriem, apesar da postura digna e séria que assume no palco. Ao lado do marido Jorge, dos filhos Sérgio, Odair e Badi, e de três de seus netos, dona Ica Assad solta a voz em conhecidos clássicos da música popular brasileira. Ganham nova vida no show da família Assad, reanimados por esta senhora de 77 anos. Ela acaba de gravar seu primeiro disco.
A idéia de gravar um CD seu foi da caçula Badi Assad, violonista, cantora e multiinstrumentista, e do violonista Sérgio Assad. "Ela e meu pai sempre são os highlitghts dos shows da família", comenta Badi. Realmente: em uma das apresentações dos Assad nos Estados Unidos, o jornal Los Angeles Times chamou dona Ica de "Billie Holiday brasileira". "Quando ouvi a música dela (Billie Holiday), achei tão diferente. Mas acredito que a relação é a do sentimento: sinto mesmo o que estou cantando", diz dona Ica, por telefone.
No repertório do disco, há versões arranjadas e tocadas pela família Assad para Cartola, Dorival Caymmi, Lupicínio Rodrigues, Ary Barroso e Tom Jobim, entre outros compositores célebres. "As gravações foram tranqüilas. Até que não fiquei nervosa", conta dona Ica, que passou três dias na capital paulista, em estúdio. No momento, Badi e os irmãos estão procurando uma gravadora para lançar e distribuir o CD.
Trata-se de uma realização especial, afinal, desde criança, Angelina Maria cantava. Ela nasceu em Andradas, Minas Gerais, em uma família humilde. Foram os irmãos que colocaram o apelido de Ica. Já cresceu em ambiente musical: o pai era pedreiro, mas gostava de tocar violão nas horas vagas. "Eu era boa de decorar, cantava praticamente todo o repertório de Vicente Celestino." Ainda pequena, no dia de aniversário do prefeito, foi chamada para cantar uma música em homenagem a ele. Já fez sucesso.
Seu grande sonho, no entanto, era estudar piano e ser concertista, mas isso nunca foi possível por causa das limitações econômicas. Já aos 9 anos, começou a trabalhar, cuidando de crianças e, mais tarde, como tecelã de uma fábrica. Em um exemplar da revista O Cruzeiro, encontrou um teclado desenhado, e não teve dúvidas: destacou a página e ficava praticando nesse instrumento virtual todo o tempo.
DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO
Já aos 14 anos, conheceu o atual marido, Jorge, quando se mudou com a família para o interior paulista, em São João da Boa Vista. Ele trabalhava como relojoeiro, mas depois que ganhou um cavaquinho numa rifa tomou gosto pelas notas. Acabou mudando de instrumento e passou a tocar bandolim: logo começaram as reuniões de choro na casa dos Assad, e Ica seguia cantando.
Vieram os filhos: Jorge, primogênito, Sérgio e Odair. Quando Sérgio tinha 12 anos, o pai o convidou para aprender acordes no violão. O irmão mais novo, Odair, também quis. "Quando começamos a tocar, mamãe passava bons momentos cantando canções simples para que pudéssemos acompanhá-la", conta Sérgio Assad. "Com seis meses de aula, já acompanhavam Jacó do Bandolim", lembra dona Ica sobre o progresso dos dois.
A filha Badi também começou a cantar desde pequena. "Ela fez uma música com 3 anos", conta dona Ica, que tentou levá-la para o aprendizado do piano, mas a experiência das aulas durou pouco. A caçula seguiu a saga dos irmãos violonistas e também desenvolveu-se no canto. "Minha mãe me ensinou a ser mulher. Ela é super intuitiva, cheia de fé, super dedicada. É esse exemplo de mulher amável, inteira, íntegra", derrete-se a filha.
Depois de 12 anos no Rio de Janeiro, a família se mudou novamente para São João da Boa Vista, São Paulo. É lá que vivem dona Ica, o marido Jorge e o filho Jorge. Sérgio, Odair e Badi têm carreiras internacionais, e dos sete netos de dona Ica, apenas um não é músico.
Depois de criar a prole, e apoiar os filhos na carreira, há quatro anos dona Ica passou a se apresentar profissionalmente nos shows da família Assad. Já fez apresentações no Brasil, Estados Unidos e Europa: o registro do encontro das três gerações está no DVD Um Songbook Brasileiro. "Fico nervosa antes de subir ao palco. Sempre peço para o meu neto Rodrigo me passar um pouco de sua cara de pau", brinca.
Na ocasião em que foi feita a comparação elogiosa no jornal americano, Badi ligou perguntando como estava a "Billie brasileira". "Respondi que estava com a barriga no tanque, lavando roupas", conta dona Ica, que faz questão de tomar conta do lar até hoje. Mesmo em casa, costuma cantar, com o marido ou enquanto faz seus afazeres domésticos. "Quem não gosta de música, não gosta de Deus. Quando canto ou ouço alguém cantando, sinto algo muito gostoso. A música é sublime."
A idéia de gravar um CD seu foi da caçula Badi Assad, violonista, cantora e multiinstrumentista, e do violonista Sérgio Assad. "Ela e meu pai sempre são os highlitghts dos shows da família", comenta Badi. Realmente: em uma das apresentações dos Assad nos Estados Unidos, o jornal Los Angeles Times chamou dona Ica de "Billie Holiday brasileira". "Quando ouvi a música dela (Billie Holiday), achei tão diferente. Mas acredito que a relação é a do sentimento: sinto mesmo o que estou cantando", diz dona Ica, por telefone.
No repertório do disco, há versões arranjadas e tocadas pela família Assad para Cartola, Dorival Caymmi, Lupicínio Rodrigues, Ary Barroso e Tom Jobim, entre outros compositores célebres. "As gravações foram tranqüilas. Até que não fiquei nervosa", conta dona Ica, que passou três dias na capital paulista, em estúdio. No momento, Badi e os irmãos estão procurando uma gravadora para lançar e distribuir o CD.
Trata-se de uma realização especial, afinal, desde criança, Angelina Maria cantava. Ela nasceu em Andradas, Minas Gerais, em uma família humilde. Foram os irmãos que colocaram o apelido de Ica. Já cresceu em ambiente musical: o pai era pedreiro, mas gostava de tocar violão nas horas vagas. "Eu era boa de decorar, cantava praticamente todo o repertório de Vicente Celestino." Ainda pequena, no dia de aniversário do prefeito, foi chamada para cantar uma música em homenagem a ele. Já fez sucesso.
Seu grande sonho, no entanto, era estudar piano e ser concertista, mas isso nunca foi possível por causa das limitações econômicas. Já aos 9 anos, começou a trabalhar, cuidando de crianças e, mais tarde, como tecelã de uma fábrica. Em um exemplar da revista O Cruzeiro, encontrou um teclado desenhado, e não teve dúvidas: destacou a página e ficava praticando nesse instrumento virtual todo o tempo.
DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO
Já aos 14 anos, conheceu o atual marido, Jorge, quando se mudou com a família para o interior paulista, em São João da Boa Vista. Ele trabalhava como relojoeiro, mas depois que ganhou um cavaquinho numa rifa tomou gosto pelas notas. Acabou mudando de instrumento e passou a tocar bandolim: logo começaram as reuniões de choro na casa dos Assad, e Ica seguia cantando.
Vieram os filhos: Jorge, primogênito, Sérgio e Odair. Quando Sérgio tinha 12 anos, o pai o convidou para aprender acordes no violão. O irmão mais novo, Odair, também quis. "Quando começamos a tocar, mamãe passava bons momentos cantando canções simples para que pudéssemos acompanhá-la", conta Sérgio Assad. "Com seis meses de aula, já acompanhavam Jacó do Bandolim", lembra dona Ica sobre o progresso dos dois.
A filha Badi também começou a cantar desde pequena. "Ela fez uma música com 3 anos", conta dona Ica, que tentou levá-la para o aprendizado do piano, mas a experiência das aulas durou pouco. A caçula seguiu a saga dos irmãos violonistas e também desenvolveu-se no canto. "Minha mãe me ensinou a ser mulher. Ela é super intuitiva, cheia de fé, super dedicada. É esse exemplo de mulher amável, inteira, íntegra", derrete-se a filha.
Depois de 12 anos no Rio de Janeiro, a família se mudou novamente para São João da Boa Vista, São Paulo. É lá que vivem dona Ica, o marido Jorge e o filho Jorge. Sérgio, Odair e Badi têm carreiras internacionais, e dos sete netos de dona Ica, apenas um não é músico.
Depois de criar a prole, e apoiar os filhos na carreira, há quatro anos dona Ica passou a se apresentar profissionalmente nos shows da família Assad. Já fez apresentações no Brasil, Estados Unidos e Europa: o registro do encontro das três gerações está no DVD Um Songbook Brasileiro. "Fico nervosa antes de subir ao palco. Sempre peço para o meu neto Rodrigo me passar um pouco de sua cara de pau", brinca.
Na ocasião em que foi feita a comparação elogiosa no jornal americano, Badi ligou perguntando como estava a "Billie brasileira". "Respondi que estava com a barriga no tanque, lavando roupas", conta dona Ica, que faz questão de tomar conta do lar até hoje. Mesmo em casa, costuma cantar, com o marido ou enquanto faz seus afazeres domésticos. "Quem não gosta de música, não gosta de Deus. Quando canto ou ouço alguém cantando, sinto algo muito gostoso. A música é sublime."