Reprodução
Crítica não: escritora
tamanho da fonte:
Luiz Horta
Leia o texto abaixo. Parece escrito agora, não? Mas é de 1941 e venceu duas dificuldades para chegar até hoje. A primeira, a de escrever algo original sobre comida. Tratando-se de uma ostra, então, há um desafio quase invencível. Como alimento é deliciosa, pura e crua; única coisa de fato viva que comemos. Mas como assunto, todas as possibilidades da escrita estão esgotadas. Escrever sobre uma ostra é como fotografar a torre Eiffel: o ângulo novo aparentemente não existe.
O segundo desafio, o mais difícil para um texto gastronômico, é o de ser duradouro. As modas datam rapidamente, as opiniões sobre restaurantes, receitas e chefs passam com velocidade. Um texto com seis décadas de idade ainda atual sobre uma coisa em que não há nada de novo a dizer é coisa para prestar atenção.
A autora é M. F. K. Fisher, para alguns a melhor escritora de gastronomia de todos os tempos, cujo centenário se comemorou este ano. O nome enigmático, cheio de iniciais, era uma forma de ocultar-se como mulher num momento em que para se firmar no mundo das letras era preciso ser macho, pois seu primeiro livro foi publicado nos Estados Unidos no ano de 1937.
Nascida no Michigan, em 1908, sobreviveu a três casamentos, duas filhas, vinte livros e dois continentes, pois dividiu sua vida entre a França e a Califórnia. Seus melhores textos são sobre o período que viveu em Dijon, entre as duas guerras mundiais, uma época relativamente amável. Gostava de comida de bistrôs, simples, de bons produtos. E de vinhos, também campestres, provincianos, anônimos e voluptuosos. Não tinha o mundanismo dos grandes restaurantes estrelados. Aborrecia-se com a pompa e a pretensão.
Era bem nômade. Só em 1972 se estabeleceu em um endereço fixo, na primeira casa que possuiu, para terminar a vida no meio do campo, na Califórnia. Lá escreveu seu testamento literário em três livros, um de reminiscências da felicidade no interior da França (Long ago in France), um sobre a velhice (Sister Age), e outro, publicado postumamente, sobre a ultima morada (Last House), maneira tortuosa de falar da morte e da casa. A cabana de madeira, desenhada por ela e construída no meio de um vinhedo, tinha um banheiro vermelho tão famoso, que virou sala de estar, com poltronas e quadros, e foi um local de peregrinação para a Califórnia culinária. Passaram por lá em busca de iluminação, ou de uma frase inteligente ou apenas de cenouras orgânicas, Alice Waters, Thomas Keller e a editora-chefe da Gourmet, Ruth Reichl.
M. F. K. Fisher é pouco conhecida no Brasil, onde só dois de seus livros foram publicados, Alfabeto para Gourmets e Como Cozinhar um Lobo (ambos da Companhia das Letras, o primeiro esgotado), mas festejada em língua inglesa. O poeta britânico W.H. Auden chamou-a de maior escritora dos Estados Unidos. Disse escritora mesmo, sem qualificativos: nem crítica gastronômica nem mulher na cozinha falando “bata claras em neve”. Tratou-a como seu par, pertencente ao universo da literatura e ponto. Foi um avanço. Hoje ela poderia assinar Mary Frances Kennedy Fisher, sem esconder que era mulher.
Leia um trecho de Consider the Oyster, republicado em Art of Eating, 2004
"As ostras levam uma vida terrível, mas fascinante. De fato, suas chances de sobrevivência são minúsculas, se há alguma. Se elas conseguirem atravessar as duas perigosas semanas da adolescência, podem encontrar um lugar limpo e tranqüilo para se fixar. Então começam os anos de paixões, aventuras e ameaças.
Nem ela mesma - mas porque chamá-la de ela, exceto por comodismo? - sabe ainda se é uma ela ou um ele. Uma ostra normal nunca descobre, entra ano, sai ano, a que gênero pertence. Se a temperatura da água for adequada, ele pode se tornar uma ostra e botar milhões - 5 milhões, 50 milhões - de ovos ali, naquele mesmo ambiente em que já despendera sua energia sexual no primeiro ano de vida como soberbamente masculino e agora com grande orgulho e energia femininas (...).
Se a vida é dura, a de uma ostra é pior. Vive imóvel, silenciosa. Seu único vicio é a própria aparência horrível. Se escapar de todas as ameaças, será somente para ser comida pelo homem: no seu destino está sempre um humano faminto. O corpinho frio escorrega para uma panela, ou um forno, ou ainda vivo, goela adentro. E acabou-se.”