Jornalismo Aplicado
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Caderno Especial
"O Estado de S.Paulo"

10 de dezembro de 2004
"focas" do XV Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado


"O trabalho 'estrangeiro' a serviço da nova São Paulo"

"Em contraste com antigos migrantes, que vinham para ficar, profissionais do setor terciário fazem da cidade destino temporário"
MIGRAÇÃO
A expressão "cair no mundo" significou, para levas de migrantes e imigrantes até os anos 70, trocar a terra de origem por São Paulo, conquistar um lugar na indústria nascente ou no comércio crescente. Vir "de mala e cuia" para ficar, fugindo da seca e da fome do Nordeste, das perseguições políticas e crises econômicas de nações vizinhas ou distantes, em busca do básico para a sobrevivência ou das melhores condições para o alcance do sucesso, da riqueza. Significou conquistar a "terra das oportunidades". Hoje, "cair no mundo" tem tantos destinos quanto a vida permitir - um deles, São Paulo.
Significa deixar a terra natal e aqui permanecer enquanto durar o contrato de trabalho, o projeto ou o curso escolhido. Significa ser migrante flutuante, por meses ou alguns anos, na nova terra de oportunidades, abandonada pela velha indústria da transformação, mas reconquistada pela indústria da tecnologia, dos softwares, dos serviços de tecnologia da informação, das telecomunicações, dos têxteis, da química fina e outros.
Essa São Paulo assistiu à emigração de plantas produtivas, mas continuou abrigando seus centros de planejamento e decisão. A perda do emprego industrial não resultou da redução da atividade na capital e nas redondezas, mas na sua modernização. O emprego se desindustrializou. São Paulo ganhou uma nova indústria.


Outros destaques deste Caderno Especial
:

>> Expansão do setor de serviços atrai profissionais
cada vez mais qualificados;

>> Turismo de negócios é atendido po 1.153 hotéis e movimenta 8 bilhões por ano;
>> Do chão de fábrica ao high tech;
>> Cidade de São Paulo tem 10 mil empresas de TI
;
>> População paulistana favorece o telemarketing;

>> Em São Paulo, nem todos que vêm ficam;
>> Para economista, 'efeito escorregador' conduzia migrantes à indústria nos anos 70
;
>> Na limpeza da cidade, 70% são migrantes
;
>> Bolivianos tentam a sorte nas oficinas do Brás e Bom Retiro
;
>> Base da mão-de-obra barata para pequenas confecções de São Paulo vem da Bolívia
;

>> Paulinho: Até Lula ficaria sem emprego;
>> Popular ou de luxo comércio oferece
oportunidades
;
>> Entre os imigrantes, chineses e coreanos dominam a cena do comércio paulistano;
>> Migração e economia ainda alteram a paisagem;
>> Excelência conquista universitário estrangeiro;
>> Instituição recebe principalmente alunos de países da África e da América Latina;
>> Discrininação cria barreiras na convivência entre estudantes;
>> Escola bilíngue traduz a nova cidade;

>> Em hotéis e feiras, nem só visitantes vêm de fora;
>> Migrantes comandam metade das empresas que organizam feiras de negócios na cidade;
>> Nova geração de chefs, antiga safra de garçons e cozinheiros;
>> Tu, tchê, továrich: a arte é poliglota.


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Caderno Especial do ano anterior

 


"Nova geração de chefs, antiga safra de garçons e cozinheiros"


"Chefs nacionais ganham espaço e nordestinos ainda são maioria nas cozinhas e salões"


Do berço miscigenado paulistano está nascendo uma nova geração gastronômica. A gaúcha Carla Pernambuco, a argentina Paola Carosella e dois paulistanos, Alex Atala e Cássio Machado, são o produto e o futuro da gastronomia local. Os migrantes e estrangeiros, protagonistas de sempre, estão hoje juntos de paulistanos na chamada cozinha contemporânea. O resultado da mistura não podia ser outra coisa se não a mistura.
"Isso é saldo do convívio de diversas culinárias na cidade de São Paulo", teoriza a especialista Cristina Putz, autora do livro História da Gastronomia Paulistana. É dela o conceito "cozinha contemporânea paulistana" ­ a mistura das culinárias de São Paulo, do Brasil e do mundo.
Pioneiro entre os gourmets estrangeiros, o francês Laurent Suaudeau comemora a nova geração. "O Brasil está evoluindo para não importar mais tantos chefs", sentencia. Há 24 anos no Brasil, prevê que, em 5 anos, um brasileiro será o melhor do País, diferente do ocorrido até hoje. "Ou uma brasileira", arrisca.
A referência é clara. A gaúcha Carla Pernambuco, 45 anos, do restaurante Carlota, é o ícone da geração. Morou em Porto Alegre, Brasília, Rio de Janeiro, Nova York e São Paulo, e é capaz de misturar temperos e tradições da cozinha brasileira com elementos de outras culturas. "Como São Paulo, Nova York reúne culinárias de todos os lugares", conta.
Os chefs estrangeiros chegaram na cidade nos anos 80, e aqui encontraram um povo acostumado às influências culturais que remontam à origem colonial do Brasil. "Começou a aparecer a vocação de São Paulo para abrigar grande variedade de cozinhas", explica Cristina Putz.
Tanto que em 1997 a cidade foi reconhecida como Capital Mundial da Gastronomia. "Chefs do mundo inteiro procuram Nova York e São Paulo atrás de status e dinheiro", avalia Cristina.
Antes de escolher o Brasil, a gourmet argentina Paola Carosella, do restaurante Julia Cocina, estava justamente em Nova York. Com 32 anos, depois de trabalhar nos principais centros gastronômicos do mundo, se fixou em São Paulo. "A cidade reúne o que há de melhor na minha área", revela a chef, eleita revelação do ano pelo Prêmio Gula 2004, o mais importante do País.
Mas o que parece tendência absoluta é exceção. Os principais chefs em exercício na cidade são estrangeiros. Nas cozinhas, a maioria ainda é nordestina.
A pequena cidade de Pedro Segundo, no Piauí, com 35 mil habitantes, "exportou" 20 funcionários para o restaurante Supra. A tradição migratória se mantém: o pai traz o filho, que traz a irmã, que traz amigos. "Começou assim e hoje todos temos trabalho", se orgulha a atendente Ivone Felício, 32 anos - 8 em São Paulo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 







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