O presente e o futuro dos jornais

Carlos Alberto Di Franco - diretor do Master em Jornalismo para Editores e professor de ética jornalística, é representante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra no Brasil


Em entrevista ao jornalista Paulo Sotero, correspondente de O Estado de S. Paulo em Washington, Ben Bradlee, o carismático ex-diretor do The Washington Post, deu uma aula de jornalismo de qualidade. Do alto dos seus 79 anos, marcados por invulgar protagonismo na saga norte-americana, Bladlee é uma voz importante. Sua visão do jornalismo merece uma reflexão. Sua definição das qualidades que deve ter um editor já valeu toda a entrevista. Segundo Bradlee, "um grande editor é alguém capaz de atrair bons profissionais para trabalhar no jornal. É alguém que sabe como encorajar talentos e despertar o melhor nas pessoas. É como um técnico de um time." O comentário, apoiado na força persuasiva da simplicidade, resume todo um programa de recursos humanos para as redações.

O Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado, iniciativa do Grupo Estado, tem sido um formidável canal de irrigação para fertilizar o campo do jornalismo de qualidade. Trata-se, sem dúvida, de uma decisão inteligente de uma empresa que, com razão e fina sensibilidade, percebeu que o seu futuro depende da qualificação técnica e ética dos seus profissionais.

Os recursos humanos são, de fato, a peça-chave de uma empresa jornalística. Por isso, o reconhecimento do seu potencial e sua utilização em níveis adequados representam tarefa primordial da direção das empresas. O tempo e o dinheiro gastos em atrair, formar e aperfeiçoar os melhores profissionais são um investimento extremamente rentável. O gerenciamento de uma redação é muito mais do que uma atividade de coordenação editorial. É a fascinante capacidade de promover talentos. Os bons editores, assim como os grandes maestros, sabem que a beleza de uma sinfonia não depende de um gênio solitário, mas de uma fina solidariedade de talentos.

Bradlee, um editor formado numa época de ouro do jornalismo impresso, não consegue captar as reais conseqüências do avanço da Internet. Intui as ameaças da rede mundial ao mercado de jornais. A seção dos classificados, por exemplo, nicho tradicional da mídia impressa, precisa ser repensada com urgência. Caso contrário, será engolida pelas facilidades oferecidas pela Internet. Brandlee, no entanto, não vislumbra alternativas mais ousadas. E elas existem, desde que perseguidas com obstinação e competência. A cultura virtual, queiramos ou não, é um fato. Os jovens, por exemplo, são navegantes compulsivos do ciberespaço. Mas os jornais só conquistarão essa importante fatia do mercado se perceberem que os seus sites não podem ficar reduzidos à simples reprodução virtual do seu conteúdo impresso. O jornalismo na Internet pressupõe uma profunda revolução nos conceitos, na forma e no conteúdo da informação. Exige, além disso, equipes especializadas e bem formadas na cultura do jornalismo on-line.

Ben Bradlee percebe que o jornal pode ser imbatível na cobertura local. Segundo ele, a TV e a Internet estão bastante "ausentes no noticiário local, sobre o que está acontecendo na comunidade em que as pessoas vivem. E esse é um mercado importantíssimo para nós." Tem razão. A globalização está produzindo um fenômeno curioso: quando tudo é (ou pretende ser) transnacional, o local ganha enorme importância. As pessoas estão carentes de vínculos próximos. O leitor quer saber o que acontece na sua cidade, no seu bairro, no seu quarteirão. O consumidor real, não o de proveta concebido no ambiente rarefeito das redações, quer saber em que medida o global pode afetar o seu dia-a-dia e, como é lógico, o seu bolso. Quer uma ágil e moderna prestação de serviços. Seções de respostas nas áreas de saúde, direito, aplicações financeiras e informática, por exemplo, são um sucesso em todo o mundo, desde que redigidas com simplicidade e senso prático.

O jornalismo de qualidade reclama atualização, treinamento, inovação e ética. Fora disso é o vazio. E não há anabolizante que resolva. O Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado do Grupo Estado representa um importante investimento no crescimento sustentado. Não é fogo de palha. É investimento com retorno certo.