Depoimentos
Álvaro Campos Carneiro Cruz Gouveia
alvarodecampos@hotmail.com.br
São Paulo - SP
(11) 9683-8151
23 anos, graduado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Bauru. Possui inglês fluente e noções de espanhol. Tem experiência em jornalismo impresso e internet. Preferência pelas áreas de Política, Cultura e Internacional.
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Depoimento de Álvaro Campos Carneiro Cruz Gouveia

A primeira vez que ouvi o termo "foca" foi no dia em que fiz minha matrícula na faculdade. Estava procurando um lugr para morar, e fui ver uma república chamada "Focafofo". Curioso, como todo jornalista deve ser, descobri que a expressão é usada para identificar jornalistas recém-formados.

Pouco mais de um ano depois, fui chamado de foca pela primeira vez. Estava participando de uma entrevista coletiva do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Luiz Dulci, e perguntei se o presidente Lula viria ao Fórum Social Mundial para participar dos debates ou para usar o palanque. O ministro ficou bastante irritado, e um jornalista atrás de mim (provavelmente mais experiente) disse: "Tinha que ser um foca mesmo!". Passei então a achar o apelido depreciativo; visão que só viria mudar quase quatro anos depois, quando virei foca do Estadão.

Ao me inscrever no curso, sabia pouca coisa de seu funcionamento. Sabia que a prova era muito difícil - e detalhista - e que teria muita sorte de passar para a etapa de entrevistas. Talvez por isso mesmo, cheguei para o encontro com Chico Ornellas relativamente tranqüilo. Pobre de mim. Ao entrar na sala, o coordenador do curso pegou minha prova e leu em voz alta o verso, onde eu fazia severas críticas ao método de avaliação. "A prova tem 19 anos. Quando a gente começou esse curso você ainda usava fraldas", bradou ele com um tom de voz que até hoje eu não consigo distinguir se é sério ou de brincadeira. Apesar do clima tenso, ri bastante naquele encontro, mas saí completamente desesperançoso de que seria selecionado.

Certa tarde, lá estou eu no meu antigo serviço, quando recebo um e-mail: "Parabéns. Você foi selecionado. É um dos 30 focas". Curto, grosso e fantástico.

Cheguei à sede do Estadão nervoso, ansioso, esperançoso. Como tenho uma memória péssima - ao contrário do que todo jornalista deve ter - lembrava vagamente de algumas pessoas que fizeram a entrevista no mesmo dia que eu. Mas depois, vi que isso não era muito importante, já que as pessoas se entrosaram imediatamente, e muito bem. Como se fossem grandes amigos que tinham ficado um enorme tempo sem se ver, precisaram de pouco esforço para quebrar o gelo e (re)adquirir a intimidade.

Não nos deram nenhum limite de espaço - além do bom senso - para escrever esse texto. Mas como vejo que ele já está se alongando por demais, vou ter de abrir mão de falar nominalmente de todos os encontros epifânicos que tivemos nesse curso. Vou mencionar apenas alguns. Tivemos aula de filosofia com a Dora Incontri, de economia com o Marcos Fernandes, de ética com o Di Franco, de texto jornalístico e pacunhol com o Paco Sanchez, de vida com Cecília Thompson... enfim, ensinamentos que com certeza carregaremos para sempre.

As viagens então, nem se fala. Podemos escrever um jornal inteiro sobre a produção do fumo no Brasil. Mas também sobre como se divertir numa cidade pequena como Santa Cruz do Sul, sobre como fazer festa no hotel, no ônibus.

O Peru é melhor nem comentar. Mais do que escrever sobre a infra-estrutura ou a política do país, eu poderia escrever sobre uma pequena peruaninha de dois anos de idade chamada Judith Marjorie. Nos aproximamos através da bola de futebol (como não poderia deixar de ser com um brasileiro), depois emprestei meu bloquinho de anotações para ela desenhar. Tenho de confessar outra coisa: ao vê-la empunhando uma caneta e um pedaço de papel, lhe roguei uma praga, disse que seria "una periodista" um dia. O futuro vai dizer se o feitiço pegou.

As crianças peruanas também encantaram meu divino colega Manuel. Com seu coração de manteiga (informação que eu já tinha adiantado na descrição que fiz dele para as aulas do Paco), chorou ao ver as menininhas do país interpretarem danças típicas da cultura negra.

Talvez por conta desse coração é que não tenha conseguido desempenhar bem seu papel de "xerife" no nosso duelo futebolístico contra os peruanos. Perdemos de um a zero. Mas sempre tem a desculpa da altitude, da falta de tempo de preparação, de jogar na casa do adversário. Na verdade, para mim, a melhor desculpa foram os meninos peruanos gritando após a partida: "No lo puedo creer. Chicha ganho el Brasil!".

Tudo isso, somado ao contato com jornalistas com mais de 30 anos de profissão, com o funcionamento da redação, com as histórias dos bastidores do Estadão, com os entrevistados (gente simples, técnicos, professores doutores, ministro, prefeito, governador, deputado, empresários), nos faz perceber o quanto ainda temos para aprender.

Por isso, voltando ao abre desse texto, acredito que serei sempre um foca. Pois foca do Estadão não é aquele jornalista desengonçado que está sempre cometendo erros. É aquele jornalista vivo, intenso, interessado, que está sempre aprendendo.

   
 
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