Jornalismo é contar histórias. É cobrir a eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos da América numa redação com quase 500 jornalistas. Fazer plantão nas eleições para prefeito de São Paulo. Presenciar o momento em que o ministro da Indústria e do Desenvolvimento sai da sala numa coletiva de imprensa no mesmo minuto em que estoura a crise financeira mundial. Ver Paulo Maluf afirmar "eu construí...", "eu fiz..." e "ninguém anda 1 quilômetro em São Paulo sem ver uma obra minha". Sentar-se a 1 metro de Fernando Henrique Cardoso num auditório lotado e vê-lo cochichar com Aloizio Mercadante. Ouvir Lourival Sant'Anna - "vou responder a essa pergunta contando uma história" - narrar relatos de guerras e de esperança. Conhecer uma nova cidade, duas novas cidades, um novo país, 30 novos amigos. Esse é o verdadeiro sentido da palavra oportunidade.
Jornalismo é mirar y escuchar, diria Paco Sanchez. Entre piscos e alpacas, The Economist e Bretton Woods, de jovens focas até focas de setenta e poucos anos, da teoria das cores aplicada à 25 de Março ao encontro fortuito com um refugiado no meio da rua, do lomo a la pimienta ao pão na chapa da cantina, não foi difícil manter olhos e ouvidos bem abertos. Não foi difícil enxergar o personagem. Pode ser o seu Milton da plantação de tabaco ou a mãe de família que perdeu a casa no terremoto. Ou o colega ao lado ao descobrir que vai ser pai.
Jornalismo é treinamento. A turma: os focas mais perguntadores de toda a história dos 19 anos de Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado. O manda-chuva: Chico Ornellas, o mestre cuja principal arma é muito mais o afeto do que a austeridade. O figurino: capacetes e coletes para explorar canteiros de obra, capas de chuva e sapatos fechados para botar o pé na lama da lavoura de fumo e, em todas as ocasiões, a típica mochila azul marinho, bloquinho e caneta. O cenário: CTGs, casarões antigos, hotéis de luxo, programas de auditório, escadarias da Sé, karaokês japoneses. As lendas: o paradeiro misterioso da fantástica máquina de café gratuito e o Foca 32, popularmente conhecido como "não-sei-se-o-Chico-comentou".
O desafio: contar uma boa história. Jornalismo é seguir em frente; ser foca é entender que, quando menos se espera, já chegou a hora de se despedir. A última parada do Lada Vermelho (com quantos focas se preenche um Lada, Fausto?). E, quando me perguntarem, essas serão as boas histórias que eu vou contar.