Três meses é tempo suficiente para mudar uma estação do ano, nascer três ninhadas de coelhos e mercúrio dar uma volta completa em torno do sol. É tempo suficiente também para se instalar uma crise global, a Bovespa registrar queda acumulada de mais de 30% e o mundo ver eleito o primeiro presidente negro da história. Mais do que isso, três meses transformam uma pessoa, ou melhor, 31. Trinta e uma cabeças pensantes que, egressas de três (novamente o número cabalístico) regiões do Brasil e da Argentina, aprenderam a pensar melhor. E juntas.
Quando Francisco Ornellas - mais tarde, simplesmente o Chico - questionou na fase de seleção qual era minha principal dificuldade, respondi que era fazer perguntas, definir o que é importante "extrair" de um entrevistado em pouco tempo. Com o passar das semanas e das palestras, aprendi. Todos nós aprendemos - e extrapolamos. Nas viagens, o Chico implorava para que parássemos; os anfitriões comentavam que éramos a turma com mais interrogações por metro quadrado de focas. Se isso foi elogio ou crítica, não sei. Só sei que a erupção de dedos levantados a cada explicação me ajudou muito. A ser mais autoconfiante e insatisfeita com respostas prontas.
Além de perguntar para responder a inquietações, um bom jornalista deve desenvolver os outros sentidos. Nas palavras ora em português, ora em espanhol (ora misturadas) de Paco Sánchez, a essência da profissão é ouvir, ver, pensar e contar. Algo que seja verdadeiro, verossímil e interessante ao mesmo tempo. Ter humildade para reconhecer o que não se sabe, perspicácia para entender o que o outro quer dizer com o que diz e criatividade para redigir um bom texto, pois não há receitas de bolo. Em poucas aulas, o mestre galego me deixou perturbada: o que antes fluía como uma incorporação de Chico Xavier, hoje é algo sofrido, ponderado, medido. Ih, uma rima. "Hay que cortar." Rimas, repetições, verbos fáceis, palavras excedentes. Com Paco, além de difícil, escrever tornou-se uma arte, resultado de reflexão e reflexo exato do que desejamos exprimir - o "mot juste". Esse, aliás, é outro desafio para mim, que sempre fui extensa, verborrágica, autora de livros-reportagem sobre cupins no Ibirapuera.
Muitos outros ilustres profissionais deram sua contribuição aos novatos ansiosos e sorridentes. O impagável Cláudio Rizzo nos ensinou marketing pessoal: como vender nosso peixe e não fazer feio em um almoço de negócios. Seu bordão "sensacional" foi logo incorporado pelo grupo. O economista Marcos "Bretton Woods" Fernandes, leitor habitual da revista The Economist e do FT, também deixou sua marca. Em três encontros, nos familiarizou com termos e acontecimentos financeiros de um jeito simples, didático e envolvente. Os palestrantes do Estadão igualmente nos fascinaram: Lourival Sant'Anna e suas experiências de guerra; Luiz Carlos Merten e seu método inusitado de entrevista e apuração; Ricardo Gandour, Roberto Gazzi e Marco Chiaretti com suas visões da redação e do Grupo Estado.
Hoje, a poucos dias de terminar o curso e concluir o caderno especial, vejo que o tema "sobras e excessos" já estava incorporado ao meu dia-a-dia desde o início de setembro. Enfrentei falta de computador, tempo, dinheiro, café da manhã. Sono e cansaço demais, matérias demais para entregar - até as 23h59 -, informações demais para absorver. E o curso é isso: um exagero e uma escassez de muitas coisas. Todas para o nosso bem - como diz o Chico, as pessoas estão lá só para ajudar. Por isso, valeu. Valeu ter ficado sozinha em São Paulo no meu aniversário para fazer a entrevista de seleção, valeu não ter visto meu cachorro crescer, valeu perder festas e almoços em família, valeu passar fins de semana redigindo matérias, valeu dormir em um colchão improvisado, valeu voltar a morar na Paulicéia depois de ter ido embora com a promessa de nunca mais pôr os pés nela. Valeu não ter levantado no meio da prova quando achei que não conseguiria, valeu não ter desistido no meio do curso quando o desânimo bateu, valeu cada um dos 90 intensos dias de jornalismo aplicado.
Entre viagens, passeios e baladas, conhecemos lugares ("um brinde ao Peru!") e nos conhecemos, nos comunicamos, nos tornamos comuns. Fizemos mais que amigos, mais que contatos, mais que networking. Fizemos "amigos de infância", daqueles que se pode levar para a vida, três meses elevados à infinita potência. Também nos entrosamos, ainda que timidamente, ao sexto andar do prédio principal. A cada manhã, abríamos ávidos as páginas do jornal para ler as notas ou, com sorte, as matérias que produzimos.
A qualidade do curso, porém, não é construída apenas de 19 edições, currículos pomposos e muito conteúdo. Ela é feita de pessoas. Pessoas como Chico Ornellas, Luiz Carlos Ramos, Carla Miranda, Marisa e Mari, que nos deram uma nova oportunidade a cada dia para crescer e procurar o equilíbrio entre a exigência do texto e o cumprimento de prazos. Que nos deram bronca, mas também nos valorizaram. Não sei se vou conseguir ler um metro de livros por ano, decorar o Manual de Redação e Estilo ou trabalhar no Estadão. Só sei que não me atenho mais às primeiras impressões e quero descobrir as histórias por trás das pessoas e as pessoas por trás das histórias. Por muito mais que três meses.