Quando chegamos à "sala dos focas" no primeiro dia de setembro, recebemos uma mochila, um bloquinho e um caderno sobre aquecimento global. Em seguida, apareceu Chico Ornellas, que, ao lado de um chicote e uma forca, explicou a missão: ao final do curso, tínhamos que fazer um suplemento ainda melhor do que aquele, que havia sido tão bem executado pela 18ª turma.
Ao longo de três meses, com o bloquinho nas mãos e a mochila nas costas, corremos feito loucos (jornalistas?) em busca dos melhores personagens, das informações mais quentes, das histórias mais interessantes. De metrô, de ônibus e, às vezes, até de Lada. A recompensa para as melhores matérias podia ser um pão-de-queijo, uma moeda peruana, uma projeção no quadro sem as temidas marcações vermelhas ou um elogio em portunhol. Mais do que prêmios, queríamos nos sentir jornalistas. E muitas vezes conseguimos, apesar de todas as dificuldades de ser um foca.
As viagens mereceriam um capítulo à parte. Primeiro, foi Santa Cruz do Sul, com a sua indústria do fumo e os chopes da Oktoberfest. Menos de uma semana depois, estávamos no Peru, com direito a vista para o Pacífico e passeio de táxi de luxo. E que paisagem aquela! Em meio à imensidão cinza, vimos os contrastes de um país que cresce, mas não distribui (e a história soa familiar). Dormir para quê? Tínhamos só mais um mês e meio.
No final, veio o tão aguardado suplemento. Passamos tardes - manhãs, noites, madrugadas - apurando, entrevistando, matutando, conversando com fontes e personagens. Tentando fazer a melhor matéria do mundo. Porque jornalista sempre quer fazer a melhor matéria do mundo. Tentando fazer milagre no pouco espaço que tínhamos. Porque repórter sempre acha que merece mais espaço do que tem.
E, enquanto tudo isso acontecia, não deixamos de lado os bares, as baladas, a noite paulistana, tão surpreendente para aqueles que vieram de suas provincianas capitais. Sempre pensando no próximo deadline, descobrimos personagens em meio a animadas conversas de bar. Imaginamos matérias que acabaram não sendo escritas. Tentamos ser jornalistas em tempo integral. E descobrimos que já éramos muito mais do que nós mesmos pensávamos.
Ao fim (início?), além das boas lembranças e das grandes lições, fica a vontade de deixar de ser foca - embora saibamos que nunca deixaremos de sê-lo. Damos lugar à 20ª turma. Que vocês sejam tão felizes quanto nós fomos nos últimos meses. E não se assustem com o chicote e a forca. Eles não foram usados.