As oportunidades aparecem. Uma delas pode vir após preencher uma ficha de inscrição tão simples quanto um cadastro de supermercado. Nome, idade, endereço, telefone, formação. No entanto, as conseqüências são bem maiores que uma caixa de entrada cheia com as ofertas da semana. Chegam apenas dois e-mails. Dois e-mails daqueles capazes de virar de cabeça para baixo a vida de qualquer aspirante a jornalista. A minha virou. Ainda bem!
Éramos 31 focas: "12 de São Paulo, 18 de outros estados e a Cecilia, de Buenos Aires", repetia Francisco Ornellas - ou Chico, o coordenador do curso - a cada apresentação da turma aos palestrantes convidados. Sobre o 32?, Chico não avisava. Era Rodrigo Lobo, mestrando da Universidade de São Paulo, que nos transformou em objeto de pesquisa para um trabalho sobre a formação de jornalistas. Um grupo de 31 jovens inteligentes, questionadores, inquietos, curiosos. Trinta e um que receberam a oportunidade de aprender.
E como aprendemos tantas coisas em um tempo que parece tão pequeno. Foram três meses intensivos e aplicados em trabalho, esforço e dedicação. A rotina de acordar cedo, pesquisar pautas, dormir tarde, fazer entrevistas, enfrentar metrô lotado e escrever textos - sempre até às 23h59 - me fez pensar em desistir. Por que me aventurar na "cidade grande" se posso voltar para o conforto de casa regado ao carinho da família e com vista para o mar? Chico também me fez essa pergunta durante a entrevista de seleção. Hoje respondo com a certeza de que valeu a pena, com a segurança de quem enfrentou obstáculos, ganhou pontos e passou de fase.
Entre os aliados nesse percurso, estão os jornalistas e professores Luiz Carlos Ramos e Carla Miranda. Com eles, aprendemos a adquirir um certo olhar jornalístico, a lidar com as fontes e a escrever textos que não mereçam destaques em vermelho, sempre de acordo com as normas do Manual de Redação e Estilo. Tivemos aulas de etiqueta com o "seeeensacional" Cláudio Rizzo - quem disse que jornalista não precisa combinar sapato com meias?! Deciframos economia e política, discutimos filosofia e conhecemos as novas regras da gramática. Aprendemos a "mirar, escuchar y pensar" com o pacunhol de Paco Sánchez - uma semana de aula mais valiosa que os 4 anos de faculdade. Ouvimos histórias de veteranos como Luiz Carlos Merten, Lourival Sant'Anna, Ricardo Gandour e Roberto Gazzi, que dividiram experiências e nos deixaram com a vontade de ser um deles. Entrevistamos ministro e ex-ministro, produzimos um caderno especial e tentamos nos sentir "gente grande" na redação do Estadão. Tudo isso em três meses. Ufa!
Passou rápido. Todos vão sentir saudades. Um brinde a todos que passaram pela sala de treinamento e enfrentaram um bombardeio de perguntas vindo de focas curiosos. Um brinde à Marisa e à Mari pela organização do curso e o carinho com que nos trataram. Um brinde ao Chico pelos conselhos de paizão. Um brinde às nossas famílias, que nos sustentaram e nos apoiaram (ainda que por telefone ou pela tela do computador). Um brinde às viagens para Santa Cruz do Sul e para o Peru. Um brinde aos 31 jornalistas que viraram colegas de bar, parceiros de shows, amigos para a vida. Como diria Francisco Ornellas, as oportunidades aparecem. E não vale a pena desperdiçá-las.