Ciência

quarta-feira, 28 de maio de 2008, 18:54 | Online

Pesquisador citado por ministro fala sobre votação no STF

Ricardo Santos foi citado por Direito em sua fala contra as pesquisas com células-tronco embrionárias

Tiago Décimo, de O Estado de S. Paulo

SALVADOR - Citado pelo ministro Carlos Alberto Menezes Direito, do Supremo Tribunal Federal, como exemplo de pesquisador que vem conseguindo avanços em pesquisas com células-tronco adultas no Brasil, o pesquisador Ricardo Ribeiro dos Santos, da Fundação Oswaldo Cruz na Bahia (Fiocruz-BA), afirma que obstáculos à pesquisa com células-tronco embrionárias no País pode impossibilitar o desenvolvimento de novos tratamentos e tecnologias nacionais. Em seu voto, Direito impôs uma série de restrições ao uso de embriões nas pesquisas com células-tronco embrionárias.

 

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"O Brasil perderia a chance de desenvolver know-how na derivação das células-tronco embrionárias (processo de cultivo dos organismos para a obtenção de tecidos específicos)", afirma Santos. "Com isso, perderíamos a chance de pesquisar algumas variáveis, como a formação de tumores e o envelhecimento das células."

 

Cristão - "mas não católico" - e contrário ao "aborto indiscriminado", o pesquisador comanda uma equipe de 26 pesquisadores na Fiocruz-BA. Os trabalhos com células-tronco adultas resultaram, por exemplo, no primeiro protocolo mundial para tratamento da doença de chagas por meio dessas células. Outra pesquisa de destaque no grupo é relacionada com traumas da medula. Ano passado, ficou famosa a apresentação da pesquisa com células-tronco de dois gatos paraplégicos, que voltaram a ter sensibilidade e movimentos nas patas traseiras. Ambos haviam sofrido ruptura da coluna.

 

Apesar dos avanços, Santos reconhece que as células-tronco adultas não têm a maleabilidade das embrionárias, pelo menos até agora. "O potencial de desenvolvimento de uma célula embrionária para um determinado tecido é maior, há limitações nas células adultas, mas ainda temos muito a evoluir", diz. "Hoje sabemos, por exemplo, que células-tronco da polpa do dente e algumas outras, de tecidos adiposos, têm potencial próximo às de células embrionárias."

 

Santos também apontou desconhecimento, por parte do ministro Menezes Direito, em seu voto, no qual defendeu que pesquisas com células-tronco embrionárias só poderiam ser feitas caso não houvesse danos ao embrião. "Há formas de se tirar células-tronco de embriões sem danificá-los, mas em quantidades muito pequenas", afirma. "Por isso, depois que as retiramos, fazemos uma cultura (método de multiplicação de organismos) e acabamos tendo um novo embrião - pelo menos na terminologia. Ou seja, o embrião inicial estaria preservado, mas em algum momento das pesquisas precisaríamos destruir um embrião para conseguir as células necessárias."

 

Outro ponto questionado por Santos refere-se a embriões feitos artificialmente. "Um óvulo, ainda que não fecundado por um espermatozóide, quando estimulado corretamente, por exemplo, tem a capacidade de se dividir múltiplas vezes e virar um conjunto de células que pode ser chamado de embrião", aponta. "Em resumo: esta discussão ainda é muito inicial. Temos muito ainda a progredir nesse campo."


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