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Lúcia Helena de Camargo
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Orlando (sentado), Orlando Filho, Marina e Noel (Dezembro de 2001). Foto: J.F.Diorio/AE
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Orlando Villas Bôas nasceu em 1914, em Botucatu, interior de São Paulo, e foi registrado em Santa Cruz do Rio Pardo, também no interior do Estado. Antes da carreira de indigenista, foi fazendeiro, como o pai Agnello, trabalhou em escritório de advocacia, mudou de endereço "uma dúzia de vezes."
Da infância e adolescência, gosta de contar suas travessuras. Uma particularmente vívida na memória é de quando estudava no grupo escolar no bairro paulistano de Perdizes. A escola tinha como vizinho de frente um manicômio. "Ficávamos provocando os loucos", conta. "Era um moleque terrível: até fruta na feira eu roubava". Adolescente, continuava inquieto. Em uma ocasião, tentando apanhar um balão caído em um terreno baldio, acabou com a roupa rasgada. Considerado o mais ousado da turma, foi eleito para escalar o muro em busca do artefato. Conseguiu o objetivo, mas, na volta, seu calção enroscou em um prego ou farpa. "Fiquei pelado no meio da rua!", diverte-se. Isso tudo sob o olhar carinhoso da mulher, Marina. "Ele sempre foi traquina."
À juventude não chegou menos expansivo, falador. Colega de colégio de Ulysses Guimarães, pode ter influenciado os rumos da política no país. "Ulysses me pediu para apresentá-lo a Jânio, com quem tinha uma relação muito boa". Orlando conta que Ulysses foi "eternamente grato" por essa apresentação.
Em 1935, alistou-se no exército. Ficou até 1939, quando foi expulso por indisciplina. "Eu só obedecia às ordens que julgava certas", rememora. Sem abrir mão do espírito livre, precisava ganhar o próprio sustento. Conseguiu, então, um emprego na Esso, multinacional do petróleo. Lembra até hoje de seu chefe: "um inglês muito mal-humorado". O patrão britânico foi logo apelidado de "Bife", gíria da época para designar pessoas dessa nacionalidade.
Responsável por controlar o estoque de gasolina da empresa em São Paulo, o emprego acabou tornando-se monótono, sem estímulo. "Queria ser demitido". A solução foi recorrer ao apelido, pelo qual o inglês odiava ser chamado. "Fica quieto, seu bife!", disparou Orlando, numa discussão. Demissão conseguida, foi para Goiás, remou durante 22 dias no rio Araguaia, e em seguida para o Mato Grosso, onde juntou-se ao acampamento de onde sairia depois a expedição Roncador-Xingu.
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Marina e Orlando, em 1969: entrevistados por Hebe Camargo Foto: Arquivo Orlando Villas Bôas
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Começava a aventura do indigenista. Por vocação inata, acabou virando chefe da expedição. As lembranças dos primeiros contatos com os índios são as mais vivas em sua memória, embora fatos recentes às vezes sejam esquecidos. Ele recorda os rostos dos índios escondidos na mata, amedrontados, lançando flechas. E desde o início soube optar pela melhor atitude. "Jamais quis reagir às flechadas".
Segundo Orlando, a criação do Parque Nacional do Xingu, em 1961, foi conseguida mais rapidamente em razão das boas relações com o governo Quadros. "Jânio gostava muito da gente." A enfermeira Marina Villas Bôas, mulher de Orlando, ouve atenta os relatos do marido. Corrige datas, relembra detalhes, complementa as histórias. Embora sua participação na expedição não tenha sido a de coadjuvante, define-se apenas como "trabalhadora". Orlando não concorda com a singela definição: "Ela é mais: tem curiosidade e espírito de aventura, além de uma grande tarimba com crianças". Ele lembra que a viu pela primeira vez em um consultório médico. "Como precisávamos de uma enfermeira para a expedição, resolvi convidá-la." Bonita, inteligente e bem-humorada, ela resume em poucas palavras sua história: "Depois de duas horas no cabeleireiro, peguei o avião com intenção de ficar alguns meses no parque. Acabei ficando quase a vida toda."
Marina chegou ao parque em 1963 e logo no início enfrentou uma epidemia de gripe, além de cuidar de muitos casos de malária. "Os índios tinham o organismo puro, pegavam as doenças de branco, mas conseguimos êxito rapidamente", conta.
Passado o período de adaptação, os pesquisadores e indigenistas acabaram ficando com certo tempo livre. Mas o lazer, no Xingu, era algo restrito a jogos de cartas e passeios nas margens do rio. "À noite, jogávamos baralho ou conversávamos", relata Marina. "Assim, eu me apaixonei por ele.. só que Orlando demorou quase dois anos para perceber."
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Orlando, com um dos muitos cocares que ganhou dos índios do Xingu. Foto: J.F.Diorio/AE |
Casamento - Depois de seis anos juntos no acampamento, muitos jogos e passeios noturnos às margens do rio, o casal resolveu que era hora de trocar alianças. Em 21 de dezembro de 1969, casaram-se. Foram a São Paulo "na moita", mas já eram famosos. "Até no programa da Hebe aparecemos", conta ele.
Em 15 anos na mata, Marina pegou malária 40 vezes. Orlando, "pelo menos umas 200". Em meados dos anos 60, ela tomou uma vacina experimental contra a doença. Mas a reação foi "pior do que a doença". A paixão mútua e pelos índios, fez o casal pensar em instalar-se melhor. Antes abrigados no acampamento comum, Orlando e Marina construíram uma casa, que acabou virando o quartel-general da expedição. Lá se reuniam pesquisadores do mundo todo. Todas as grandes figuras da antropologia brasileira e estrangeira passaram pelo acampamento no Xingu. "Nossa casa parecia a sede da ONU: todo o tempo tinha alguém falando em idiomas estrangeiros", conta Marina. "Era sempre gente interessante." Ambos concordam que jamais puderam reclamar de rotina no casamento. "Até hoje recebemos visitas de gente do mundo todo."
Filhos - O casal ficou lá até 1970. Marina chegou grávida a São Paulo. No dia 30 de novembro do mesmo ano, nasceu Orlando Villas Bôas Filho. Depois do nascimento da criança, retornaram à casa no Xingu. Orlando Filho morou entre índios até os quatro anos de idade. "Ele vivia como índio, com pouca roupa... teve que se adaptar a São Paulo", conta a mãe.
Orlando e Marina voltam ao parque, ficando alguns meses, e retornando a São Paulo de tempos em tempos. Em algumas viagens levavam consigo os filhos. Adaptado, Vilinha, como é chamado, trouxe para a vida na cidade alguns bons conceitos do tempo em que vivia no Xingu. Marina conta que, na pré-escola, o menino já demonstrava genuína solidariedade com os coleguinhas, ao contrário da maioria das crianças dessa idade, que sofre do popular egoísmo infantil.
Orlando Filho cursou o ensino fundamental e médio, antes chamados primeiro e segundo grau, no Colégio Dante Alighieri , na capital paulista. Em seguida, fez faculdade de Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e História e Filosofia na Universidade de São Paulo (USP). Em 1997, começou o mestrado em Filosofia e Teoria Geral do Direito, na Faculdade de Direito da USP.
Casado em dezembro de 2000 com a professora Lúcia Pintor Santiso, trabalha como advogado no departamento jurídico de uma empresa.
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Orlando Villas Bôas com os filhos Orlando (em pé) e Noel (no colo): infância no Xingu Foto: Arquivo Orlando Villas Bôas
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Do tempo em que morava no Xingu, tem poucas memórias, pois saiu de lá com quatro anos de idade. Mas voltou ao parque várias outras vezes e pôde formar opinião sobre o lugar e as pessoas. Ele fala com orgulho do que aponta ser o maior mérito do projeto ao longo dos anos: a preservação da cultura. "Meu pai e todos os outros indigenistas fizeram um bom trabalho: a realidade se mantém homogênea, sem grandes alterações; a comunidade se articula e se rege pelos mesmos padrões de seus antepassados", observa.
Noel Villas Bôas nasceu em 23 de abril de 1975. O nome de Noel foi uma homenagem ao médico sanitarista Noel Nutels (1913-1973), que participou, ao lado dos irmãos Villas Bôas, da expedição Roncador-Xingu. Criador do serviço Unidades Sanitárias Aéreas, viveu entre índios praticamente toda a vida. "Um grande homem: um dos melhores amigos", diz Orlando.
O filho mais novo jamais morou no Xingu. "Quando nasci, meu irmão já estava em idade escolar, e ficamos por aqui mesmo", diz. Como o irmão, estudou sempre no Dante Alighieri, até sair para começar a graduação em Filosofia na PUC-SP, em 1996. No ano seguinte, começou também o curso de Letras na USP. Mas o abandonou no ano seguinte. Por dois anos, fez mestrado em Filosofia, área de Lógica, na USP. Em 1999, no entanto, preocupações com "mercado de trabalho" o levaram a cursar outra faculdade, desta vez de Direito, na Universidade Paulista (Unip).
Em 1982, Noel visitou o Xingu com os pais. Criança ainda, não guarda grandes impressões do episódio. Em 1998, aos 23 anos, voltou, por terra, ao parque. Seu tio Cláudio Villas Bôas morrera em março daquele ano. As tribos do Alto Xingu programaram para julho um Kuarup (cerimônia religiosa executada pelas tribos para homenagear seus mortos), que seria filmada, com objetivo de fazer um documentário. "Eu me ofereci para ir por terra, para ajudar a levar os equipamentos, fazendo mais ou menos a mesma rota seguida por meu pai, no início da expedição", explica.
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Orlando e a cachorra Tica, em seu estúdio (Dezembro de 2002).
Foto: J.F.Diorio/AE |
Foram 3 mil quilômetros até Kanarana, cidade mais próxima da entrada do parque, mais 19 horas de barco. Chegaram por volta de meia noite. Foram recebidos com festa e muita emoção. O assombro entre os índios ocorreu em razão da grande semelhança de Noel com o pai. Caciques insistiram para que o filho tomasse o lugar de Orlando no Xingu. "Eu sabia que eles gostavam do meu pai, e inclusive muitos o chamavam de pai também, mas a reação foi mais forte do que eu esperava", recorda.
Sobre o cerimonial do Quarup, os dois irmãos contam que foi "atípico, monumental". "Participaram mais de 200 pessoas", conta Orlando Filho. Ambos ficaram muito emocionados,
Apesar dos pedidos para que ficasse, Noel retornou a São Paulo depois de dez dias. Mas conserva até hoje as amizades que fez nas tribos. "Alguns índios, quando estão em locais com telefone, como Brasília, ligam para mandar um abraço, ou, se vêm à cidade, vou encontrá-los para dar o abraço pessoalmente."
Aposentadoria - Em 1978, Orlando Villas Bôas deixou definitivamente seu cargo no Parque do Xingu. Em 1984, aposentou-se. Vive hoje numa confortável casa no bairro paulistano de Alto da Lapa. A menina dos olhos é seu "estúdio": um grande galpão nos fundos casa que mais parece uma miniatura da Mostra do Redescobrimento (exposição Brasil + 500, montada no Pavilhão da Bienal no ano 2000), tamanha é a variedade de objetos indígenas guardados. Dispostos em prateleiras, cada artefato tem uma história, que Orlando recorda e relata: "Este ganhei de uma indiazinha muito pequena... no dia em que recebi este outro presente, chovia muito ....". O homem escreveu livros, correu mundo, ganhou prêmios. Tudo isso tem inegável valor. Mas, como diz aquela propaganda, ouvi-lo contar as histórias, não tem preço."
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