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| As características pessoais do
índios foram totalmente ignoradas pelos primeiros colonizadores que,
impressionados com sua pujança física, tentaram usá-los
como mão-de-obra escrava. Face ao altaneirismo e à impavidez,
características fortes da personalidade do índio, tais tentativas
não tiveram sucesso, redundando em violentos choques e no trucidamento
de milhares de vidas indígenas em conseqüência da interiorização
da colonização promovida pelas expedições portuguesas
para apresamento dos primitivos habitantes do país.
O contágio de indivíduos puros, não possuidores de anticorpos contra os micróbios causadores de doenças de brancos, tais como gripe, sarampo, rubéola, pneumonia e outras tantas, constituiu-se em mais uma grave conseqüência de contato indiscriminado de elementos de estruturas e culturas tão distintas e um dos fatores contribuintes para a dizimação da população indígena pré-cabralina. A contaminação por doenças para as quais o índio não tem imunidade, quer acidental, por inadvertência ou desconhecimento, tem dado origens a epidemias como de sarampo e gripe, quer deliberada, como a distribuição de camisas com vírus da varíola, tem sido responsável por muitas centenas de mortes. Envenenamento pela oferta de farinha mesclada com arsênico constituiu-se em causa mortis tão marcante como a originada por projéteis de grosso calibre saídos dos canos das carabinas Winchester 44, conhecidas como papo amarelo, tão populares no interior do Brasil. A luta dos Villas Bôas em prol do índio, bem como a vida e o trabalho de Rondon, fizeram de mim um admirador deles e um defensor do índio, sua cultura e sua maneira de ser, e tornou-me consciente da necessidade de sua preservação e também de continuação de estudos que levem a melhor e mais completo conhecimento e compreensão de sua organização social, sua religião, seus hábitos e costumes e suas tradições, enfim da cultura e civilização de um povo.
Quis o destino que, nos anos 50, eu tivesse o privilégio de vir a conhecer os irmãos Villas Bôas. Nosso contato deu origem a sólida amizade (tive oportunidade de operar vários membros da família deles) e acabou por gerar convite para que eu desse assistência médica em várias expedições, quer de pacificação de índios arredios (não contatados) ou em missões especiais, como a abertura de campo de aviação no Centro Geográfico do Brasil. Essas expedições para pacificação de índios arredios ocorriam somente quando um grupo tribal passava a ter sua segurança ameaçada ao ficar exposto a sanha de seringueiros e garimpeiros, que invadiam sua região em busca de ouro, diamantes e extração de látex, sendo organizadas pelos Villas Bôas com a finalidade de transferi-los para o interior do Parque Indígena do Xingu, onde ficariam a salvo. Relatarei, sucintamente, dois contatos e uma tentativa frustrada em que participei. Suyá, uma pacificação atípica Os Suyás são um grupo indígena pertencente ao tronco lingüístico Macro-Jê, ramo Jê Botocudo, que habita as margens de um afluente do Rio Suyá-Missu, afluente da margem direita do Rio Xingu. O número de garças brancas que encontramos a navegar pelo rio em que habitam nos impressionou e batizamos o rio com o nome de Soconti-Missu, que no dialeto Suyá significa água das garças brancas. Os índios Suyás, que poderíamos qualificar como primos de outro grupo Jê-Botocudo, os Txukarramães, eram muito aguerridos e outrora numerosos, mas, por ocasião de sua pacificação, em 1959, estavam bem reduzidos, em conseqüência de freqüentes conflitos tribais, motivados por delimitação de domínio sobre regiões de caça, pesca, coleta e captura de mulheres e meninas, para contrair matrimônio. Empiricamente, os índios tinham e tem conhecimento de que a consangüinidade em enlaces matrimoniais podem levar, pela recessividade, ao nascimento de indivíduos portadores de defeitos físicos. Por conta disso, várias mulheres Suyás eram mães de índios Jurunas - como, por exemplo, Bibina, então cacique Juruna -, sem haver abandonado alguns costumes e ainda conservarem a capacidade de falar suiá. Os Txukarramães, por sua vez, ainda eram nômades e, além de caçar somente com bordunas, correndo até emparelhar com a caça, também não possuíam canoas. Assim, periodicamente, faziam ataques surpresa contra os Jurunas, em sua aldeia às margens do Rio Xingu, o que levou os Jurunas a construir outra aldeia em ilha no meio do rio, como medida de segurança preventiva, para a qual se deslocam em suas canoas a menor suspeita de aproximação de Txukarramães. Além da rivalidade com os tuxcarramaes, os Jurunas também não mantinham relações amistosas com os Kayabis, ramo da nação Tupi e originalmente habitantes das margens do Rio Telles Pires, que há muitos anos haviam se deslocado (parcialmente) para as margens do Rio Maritsawá Missu, afluente da margem esquerda do Rio Xingu, acima do aldeamento Juruna. Em 1959, Orlando e Cláudio Villas Bôas, a pedido do Governo Brasileiro, organizaram expedição para determinar e demarcar o Centro Geográfico do País e nele construir um campo de aviação. Faziam parte da expedição, um topógrafo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, vários trabalhadores braçais sediados no Parque Nacional do Xingu, alguns índios de diversas tribos, falando distintos dialetos - para o caso de se encontrar índios ainda desconhecidos - e eu, como médico da expedição de doublê de caçador e cozinheiro. Ou seja, quando não estava cuidando da saúde de algum membro da expedição, estava procurando caça para abastecer a dispensa ou transformando-a em alimento para saciar o devastador apetite desencadeado pelo esforço despendido nas tarefas de abertura de um campo de aviação em região como aquela. Alguns dias após o deslocamento do Posto Leonardo, sede do Parque Nacional do Xingu, navegando rio abaixo pelo Xingu, visualizamos três canoas tripuladas por vários índios que vinham subindo o rio. Eram alguns Jurunas e um índio desconhecido que não conseguimos identificar. Quando emparelhamos e reconhecemos os tripulantes, eles nos informaram que se tratava de Thaimostotine, irmão do cacique Suyá, que estava sendo conduzido de volta à sua aldeia após visita à aldeia dos Jurunas. A visita foi motivada por uma espécie de averiguação, depois que os Jurunas tivessem feito, com mulheres e crianças (sinal evidente de Bôas intenções) uma visita à aldeia Suyá, com a finalidade de buscar uma aliança para enfrentar provável futuro ataque de índios Kayabis, pois tinham conhecimento do envio pelo Kayabis de emissário ao Rio Teles Pires, para solicitar auxílio para ataque ao aldeamento Juruna. Os Villas Bôas decidiram, então, postergar por alguns dias, a expedição ao Centro Geográfico e aproveitar a oportunidade e as facilidades representadas por Thaimostotine e estabelecer contato com os Suyás, conhecidos por suas façanhas e que estavam com suas sobrevivência e segurança ameaçadas por seus primos Txukarramães. Aproveitamos, Cláudio e eu, para adquirir algum vocabulário Suyá, o que deveria facilitar, e muito, nosso primeiro contato, usando como intérpretes três índios Jurunas (Pixanda, Ptsaka e Daa) que conheciam o idioma Suyá - por serem filhos de mães Suyás roubadas pelos Jurunas - e um pouco de português. Essa triangulação lingüística mostrou-se muito útil e nos permitiu o uso de alguns vocábulos Suyás com Thaimostotine, ganhando sua confiança, e depois usá-los com maior desenvoltura durante o contato inicial e no tempo em que permanecemos acampados na praia, próximos à aldeia. O contato com os brancos durante a viagem em direção à aldeia suiá, a despeito de nenhum dos membros da expedição apresentar quaisquer sinais ou sintomas de enfermidade, condicionou o surgimento de infecção gripal com quadro febril bastante intenso em Thaimostotine, que requeria tratamento médico. Mas como fazer para que ele, não entendendo o porque de seu mal-estar e não tendo conhecimento da medicina dos brancos, permitisse a ministração de medicamentos que ele não tinha a menor idéia do que eram e dos quais, logicamente, desconfiava? Usando nossos parcos e recentes conhecimentos do idioma Suyá e nossos prestimosos intérpretes, expusemos a necessidade dos medicamentos para combater seu mal-estar e, para tornarmos mais convincentes nossa explanação, usamos, como pseudopacientes, Cláudio, Orlando e um funcionário do Parque cognominado secretário, que por ser o único negro poderia mostrar que os brancos aceitavam e também cuidavam de pessoas de pele diferente, e ministramos a todos vitaminas por via oral e parenteral. Depois de quatro dias de viagem, Thaimostotine deu demonstrações de que nos avizinhávamos de sua aldeia. Para evitar um contato ao cair do dia e com luminosidade não muito intensa, resolvemos acampar e continuar no dia seguinte, o que inquietou um pouco nosso cicerone. Na manhã seguinte, reiniciamos a navegação e, pouco antes das 11 horas, Thaimostotine tornou-se tenso e muito concentrado, procurando ouvir e ver sinais de seus irmãos. Após cerca de 30 minutos, começou a chamar em voz alta e a demonstrar que queria que fôssemos mais rapidamente.
Finalmente, não sei quanto tempo, pois a tensão fazia parecer que os ponteiros do relógio haviam se tornado paralíticos, houve resposta aos chamamentos. Thaimostotine nos instou a avançar mais e, em seguida, a parar e iniciou diálogo muito tenso, falando muito alto e rapidamente com interlocutores que ouvíamos, mas não conseguíamos vislumbrar. Repentinamente, fez-se silêncio de ambos os lados, logo quebrado por gritos emocionados de Thaimostotine saudando o aparecimento de várias canoas. Cada uma delas era tripulada por quatro, seis ou oito índios, todos do sexo masculino, fortemente armados com arcos, flechas e bordunas, que agitavam sobre as cabeças enquanto falavam sem parar, e cercaram a canoa da frente em que estava Thaimostotine, com quem conversaram, virando então suas canoas e remando em direção ao ponto de onde haviam surgido, voltando-se com freqüência para ver se os estávamos acompanhando. Em uma curva do rio, mais acima cerca de 500 metros do ponto em que nos encontrávamos, divisamos um barranco alto, sem muita vegetação, onde um grupo de índios do sexo masculino e com armas nas mãos nos aguardava. Atracamos nossas canoas e iniciamos a subida do barranco. Quando galgamos o ponto mais alto, houve uma correria entre os índios, motivada pela presença de um cão pastor belga, de Orlando e que o acompanhava na expedição, pois os Suyás nunca haviam visto cães. Thaimostotine fez uma peroração, que acreditamos ser nossa apresentação e breve relato de nosso encontro. Cerca de uma hora de mútua observação, temperada com certo grau de desconfiança, e surgiram as primeiras mulheres e crianças, que deviam estar nos observando ocultas pela vegetação. Estava quebrado o gelo e havíamos sido aceitos. Passamos a distribuir presentes (miçangas e fios de nylon, espelhos, panelas, facões, enxadas, machados e anzóis), que foram recebidos com exclamações de surpresa e satisfação, mas sobretudo com grande curiosidade e alegria. A pacificação dos renomados e temidos índios Suyás deu-se no contato mais rápido e fácil da carreira dos Villas Bôas e fez-se logo sentir pela manutenção da paz e o não desencadeamento da esperada guerra entre Jurunas e Kayabis, em que os Suyás representariam papel relevante como aliados dos Jurunas. Os temidos Txikãos Durante algumas décadas, índios aldeados às margens de afluentes diretos e indiretos do Rio Xingu, como o Tuatuari (afluente do Kurisevo, um dos formadores do Xingu), viviam em estado de alerta em conseqüência de ataques surpresa realizados por índios desconhecidos. A localização desse índios, a quem os habitantes da região denominavam Txikão, era conhecida por Cláudio e Orlando que, seguindo sua política de viver e deixar viver, sem interferir na convivência dos índios a não ser quando ameaçados por fatores que poderiam redundar em prejuízos a segurança e sobrevivência do grupo, não haviam feito nenhuma tentativa de contatá-los para o interior do Parque Nacional do Xingu. No entanto, por volta de 1964, foram descobertos diamantes no território em que viviam, que passou a ser alvo de cobiça de garimpeiros, que chegavam a usar fuzis-metralhadoras Hotkiss contra os índios. Para evitar sua dizimação, os Villas Bôas decidiram que era necessário promover o contato e posterior transferência dos Txikãos para o interior do Parque. Cláudio organizou, então, uma expedição com tal finalidade que, além de redundar em fracasso, representou risco para as vidas de Cláudio e seus acompanhantes (alguns índios de distintas tribos já pacificadas). Só não houve mortes devido à presença de espírito e experiência de Cláudio, que lançou um caramuru (foguete que expele uma bomba de pequeno poder explosivo, que não causa grandes danos físicos a não ser que esteja comprimida contra o corpo), acertando um dos índios que, assustados, recuaram. Algumas outras tentativas foram realizadas, com ofertas de presentes colocados em pequenas clareiras abertas onde havia trilhas dos Txikãos, bem como em pontos próximos ao local em que Cláudio os havia avistado. Os presentes eram destruídos ou deixados intactos, porém nunca eram recolhidos (sinal de interesse em aproximação). Os Villas Bôas decidiram, então, organizar uma expedição fluvial que, embora fosse mais demorada, podia ser mais numerosa e apresentar maior capacidade de transporte de equipamento, incluindo presentes mais variados e mais atrativos, como caixas de machados, facões, enxadas e foices. Cláudio e Orlando combinaram um vôo, que correu sem incidentes, e conseguiram localizar a aldeia. Como o tempo estava bom e havia uma clareira próxima à aldeia, combinaram com o piloto de fazer um pouso. Conseguiram com isso se aproximar dos índios que, talvez assustados com a chegada de homens que desceram dos céus, não os molestaram. Assim, deu-se, de maneira insólita, o primeiro contato com os Txikãos, complementado posteriormente pela expedição. Convidado para participar, organizei-me para poder afastar-me de minhas atividades por cerca de 90 dias e integrei-me à expedição. Partindo do Posto Leonardo, às margens do Rio Tuatuari, descemos o rio até sua desembocadura no Rio Kurisevo, seguindo até o Rio Kuluene. Da junção de ambos, resulta o Rio Xingu. Navegamos pelo Xingu até a foz do Rio Maritsawá Missu, na margem esquerda, e deste até o Rio Jatobá, habitat dos índios Txikãos. Seguimos por esse rio em direção à sua nascente durante três dias, começando a viagem às 7 horas e terminando às 17 horas, quando iniciávamos a procura de lugar para um acampamento seguro. Então desembarcávamos, abríamos uma clareira, armávamos as redes, preparávamos girais para acomodar os pertences (armas, lanternas etc.) e tratávamos de preparar jantar, a base de animais, aves ou peixes, que tivéssemos conseguido caçar ou pescar durante o dia, sem prejuízo da navegação. No último dia, já não se podia disparar tiros para abater caça, pois havia perigo de assustar os índios, cuja localização precisa não conhecíamos. Na manhã do quarto dia, cerca de duas horas após o início da jornada, os índios que nos acompanhavam (representantes de várias tribos, com uma variada gama de dialetos, já que desconhecíamos o tronco lingüístico dos Txikãos) começaram a detectar sinais de presença humana, como ramos de árvores quebrados, trilhas nas margens ou paus com pontas queimadas. Decorridas mais algumas horas, vimos uma velha canoa emborcada e presa em galhos de uma árvore tombada e encalhada no meio do rio. Nossos índios foram se deixando prender por certa agitação e suas cabeças se moviam de um lado para o outro, na tentativa de melhor captar os sinais da presença de seus velhos inimigos. Uma hora mais tarde, a agitação aumentou e nos comunicaram haver ouvido ruídos de índios no interior da floresta que cobria as margens do Jatobá. Em completo silêncio, continuamos a navegar rio acima até avistarmos uma canoa ancorada na margem direita, em ponto em que o rio tem cerca de 50 metros de largura. Com grande emoção e ansiedade, aproamos nossas canoas para a margem esquerda e, atracados, aguardamos. Decorridos cinco minutos, confabulamos Orlando, Cláudio e eu e eu mergulhei, indo por baixo dágua até a canoa ancorada. Ao alcançá-la e por ela protegido, soergui-me e olhei em seu interior, onde deparei com pegadas humanas não totalmente secas e uma flecha. Cruzei o rio de volta e iniciamos chamamento em vários dialetos, o que durou cerca de meia hora, sem nenhuma manifestação. Ouvimos, então, um grito, seguido por vários outros, em diferentes pontos da floresta, abrangendo uma extensão de cerca de 200 metros às margens do rio. Começaram a surgir alguns índios, bastante agitados, empunhando arcos e flechas, que brandiam repetidamente e falando muito, sem contudo aparentar sinais de quererem descer ao nosso encontro. Cláudio e Orlando decidiram que eles e eu, totalmente desarmados e com os braços erguidos, atravessaríamos o rio, em canoa pilotada por um funcionário do Parque, e iríamos tentar estabelecer contato. Na canoa, colocamos alguns presentes (espelhos, panelas e colares) e desembarcamos carregando-os, com a canoa regressado para a outra margem. Nosso desembarque provocou alguma agitação, mas nenhuma agressão. Oferecemos os presentes, esticando nossos braços, enquanto Cláudio e Orlando repetiam palavras com significado aproximado de amigos em vários dialetos dos diversos troncos lingüísticos. Fomos nos aproximando de alguns que pareciam menos nervosos e, finalmente, começaram a pegar os presentes de nossas mãos e conseguimos abraçar alguns. Passada a tensão inicial, já confraternizando, subimos o barranco junto com eles e ficamos surpresos com o grande número de índios, com seus arcos e flechas, que começou a surgir da vegetação paulatinamente, como se obedecendo a uma manobra estratégica. Fomos conduzidos, em meio ao grupo, ainda bastante alvoroçado e falando alto e rapidamente, cerca de 500 metros por trilha até a aldeia, onde, após numerosos chamamentos, começaram a aparecer mulheres e crianças que, inicialmente silenciosas e tímidas nos observaram e depois passaram a fazer, ruidosamente, o que supusemos ser comentários sobre nós. Estava feito o primeiro contato com o temido grupo que durante algumas décadas havia semeado terror entre grupos que viviam dentro do Parque do Xingu e nas aldeias próximas a ele.
Kren-Akarore: a tentativa frustrada A descoberta de diamantes nas cabeceiras do Rio Peixoto de Azevedo, no Pará, e o início da invasão da região por garimpeiros, desencadeou, por parte dos Villas Bôas, processo de aproximação com os índios Kren-Akarores, com a finalidade de prevenir os malefícios decorrentes dessa invasão, nos idos de 1968. Os temidos e lendários Kren-Akarores (ou krenacarores), aos quais os demais índios do Parque do Xingu e vizinhanças, sabedores de sua existência ou por eles hostilizados, denominavam os gigantes, são índios pertencentes ao tronco Macro-Jê e do grupo Botocudos, que tinham por habitat a região do Rio Peixoto de Azevedo. Embora aparentados com outros Jê-botocudos, como os Suyás ou Txukarramães, com eles não conviviam em paz, assustando-os, atacando-os para capturar mulheres e crianças e matando homens, em freqüentes escaramuças. A recíproca é verdadeira, com notícias de ataques de Suyás e Txukarramães a índios Kren-Akarores, sendo o mais recente e mais violento responsável pela morte de cerca de 600 índios. Naquela época, vivia com os Txukarramães, remanescente deste ataque, um índio chamado Mengrire, capturado quando menino e já adulto, com idade entre 20 e 30 anos, que foi por nós medicado. Sua altura de 2,05 metros tornava necessário, para alcançar sua região deltóide e aplicar injeção, erguer o braço bem acima da cabeça. A possibilidade de confronto entre eles, armados com lanças com ponta feita de canela de onça e bordunas, e garimpeiros armados até com metralhadoras, foi o argumento para início de um processo de aproximação que durou pouco mais de dois anos, por conta dos preparos que incluíram localização da área, construção de campo de aviação e confecção de batelões (grandes barcos que podem atingir mais de 12 metros de comprimento e até 3 em sua maior largura, com capacidade de receber até 4 toneladas de carga, cuja construção, com árvores escolhidas o mais próximo possível do rio, somente os Jurunas detém o segredo). Após o cumprimento de todas as etapas, carregamos e iniciamos o deslocamento, em três batelões e três canoas, e navegamos alguns dias até atingir o local mais próximo do aldeamento, já localizado por via aérea e cujas coordenadas geográficas eram de nosso conhecimento. Acampamos às margens do rio e demos início aos trabalhos de organizar o acampamento para a presumível longa permanência. Erguemos cabanas de galhos de árvore e cobertas com folhas de bananeira brava, destinadas a abrigar utensílios, materiais, alimentos, presentes e para proteção do pessoal, permitindo que as redes fossem armadas sob cobertura. Pesquisamos local apropriado e abrimos outro campo de aviação, instalamos o rádio de campanha que nos permitia manter contato com o Posto Leonardo e, por intermédio dele, com a Universidade de Brasília, cujo avião nos visitava periodicamente para levar-nos a sobrevôo e lançamento de presentes. Do nosso acampamento, por três vezes, avistamos índios retornando de caçadas, que saíam da margem esquerda, a cerca de 800 metros do ponto em que estávamos e dirigiam-se, com água a altura da metade da coxa, para a margem direita, passando de uma para outra ilha. Ao avistá-los, Cláudio e Orlando solicitaram aos índios que estavam conosco que gritassem apelos para que se aproximassem, ao mesmo tempo em que todos fazíamos largos gestos tentando mostrar que éramos amistosos. Para nossa frustração, apenas estugaram seus passos, apressando-se a embrenhar-se na mata. Nos deslocamos de barco para as ilhas e examinamos as pegadas que haviam sido produzidas por pessoas de pés aparentemente bem maiores que as de indivíduos de estatura média, embora não pudéssemos ter uma informação mais precisa, pois a areia fofa contribui para aumentar o tamanho das pegadas. Em trilhas por eles usadas para idas ao rio e em clareiras que abríamos nas proximidades, estendíamos cordas de nylon e nelas pendurávamos muitos presentes de variados tipos (balões coloridos, panelas, facões, machados, enxadas, espelhos e colares). A cada dois dias, íamos verificar se os presentes haviam sido recolhidos. Apesar das pegadas e sinais de curiosidade, como pequenos galhos quebrados, os presentes permaneceram intocados durante mais de um mês, evidenciando, claramente, a falta de vontade de estabelecer contato com os intrusos. Com o avião, fizemos dois ou três vôos sobre a aldeia e lançamos vários presentes, enquanto, no pátio da aldeia, índios lançavam flechas para o alto, na direção do avião.
À noite, acendíamos nossos lampiões no acampamento, permanecendo nas áreas por eles iluminadas, sem armas, tentando atraí-los, pois sabíamos estar sendo observados, do interior das matas, da outra margem. Para demonstrar nossa boa vontade, intenções pacíficas e alegria na camaradagem, instávamos os índios que estavam conosco, para que cantassem, em seus dialetos, algumas de suas canções. Mas nossos esforços não foram coroados de êxito e nenhum sinal foi emitido. Orlando e Cláudio decidiram, então, adotar outra estratégia. Baseados em sua experiência de mais de 20 anos, iríamos tentar alcançar a aldeia seguindo as coordenadas anotadas por via aérea, abrindo picada na mata com o auxílio de alguns índios e mostrar-nos a eles. Permaneceria no acampamento, inclusive para evitar alguma surpresa desagradável, parte do efetivo, sob o comando de Affonso Alves Muniz, grande amigo nosso e experiente em vivência em mato. Devemos ter caminhado cerca de 4 ou 5 horas e os sinais de presença constante de índios, tais como trilha mais acentuada e mais larga e pontas de galhos quebrados, fizeram com que soubéssemos estar na direção correta e bem próximos da aldeia. Pripuri e mais dois índios, também Kayabis, subiram em algumas árvores e nos informaram estar conseguindo ver a clareira em que devia estar situada a aldeia. A estratégia foi avançar um pouco mais e os índios do Parque - menos os Suyás e Txukarramães (sabidamente inimigos dos Kren-Akarores) - começariam a fazer chamamento em voz alta e todos nós correríamos (usando panelas como escudos) em direção à aldeia. Assim o fizemos, mas ao adentrar a clareira, vimos sinais de recente e abrupto abandono (cachos de banana, mandioca, biju, pequenos recipientes feitos de cascas de coqueiro para armazenamento de água, restos de comida preparada e alimentos por preparar, restos de fogueira com brasas aquecidas, esteiras no interior e penduradas na entrada de cabanas muito primitivas), porém, nenhum índio!!! O que encontramos nos permitiu avaliar que se tratava de seres em estado de civilização muito primitivo, mas que já se utilizavam de utensílios como machados de pedra. Gritamos durante algum tempo, tentando fazê-los aparecer e não obtivemos resposta. Aguardamos mais 20 minutos e iniciamos uma exploração da aldeia, tendo, inclusive, recolhido alguns objetos, como vasilhames para água, pedras preparadas para fazer utensílios e outros. Em nossa exploração, deparamos com um esqueleto humano incompleto, cuja origem não foi possível explicar (ritual religiosos e várias outras hipóteses) e, para evitar problemas futuros, não tocamos nos ossos, que foram fotografados e filmados. De volta ao acampamento, durante os dias seguintes, nos dedicamos a espera de pouso do avião da UnB, destinado a retirar-me do acampamento e levar-me até o Posto Leonardo e, de lá, até Goiânia ou Brasília, pois já estávamos na segunda quinzena de outubro e deveria retornar a São Paulo, pois estava com casamento marcado para 30 de outubro de 1968. Enquanto lá permaneci (22 de outubro), diariamente, alguns de nós iam até os pontos em que havíamos colocados presentes, movidos pela esperança de encontrar algum sinal de aceitação de nossa presença, sem nunca os havermos encontrado. Em agosto do ano seguinte, foi empreendida nova expedição, da qual não participei, também sem êxito. Em 1972, finalmente houve o primeiro contato e deu-se início aos preparativos para transferência dos gigantes - não tão gigantes (altura média em torno de 1,85 metro, havendo alguns pouco mais altos)- para o interior do Parque. Da pureza à pobreza do índio Durante minha permanência no Xingu, preocupei-me com a saúde física dos índios e, graças a nossos contatos e à constatação da impossibilidade de dar total assistência e resolver todos os problemas, em decorrência das deficiências de infra-estrutura, coloquei Orlando em contato com os doutores Oscar Pimentel Portugal, Oswaldo Luiz Ramos e Walter Lanfranchi. Influentes médicos da Escola Paulista de Medicina, atual Universidade Federal de Medicina de São Paulo, eles foram ao Xingu e voltaram entusiasmados com o trabalho dos Villas Bôas junto aos índios, iniciando uma ligação entre o Parque e a Faculdade, que culminou com estabelecimento de um convênio oficial, face ao qual já surgiram várias teses de doutoramento e assistência médica efetiva ao índio. Graças à Força Aérea Brasileira, por intermédio do Correio Aéreo Nacional (CAN), muitos índios que não podiam ter seus problemas resolvidos in loco, a nosso pedido ou de Cláudio ou Orlando, foram removidos para São Paulo, por via área, logrando sobreviver e obter cura.
O espírito altruísta e dos ideais de Rondon e dos irmãos Villas Bôas não foram suficientes para impedir que o índio saísse profundamente lesado em conseqüência de seus contatos com os brancos e suas altivez e impavidez acabaram sendo vilipendiados. O índio majestoso e puro, que andava nu pelas florestas, lagoas, praias e rios do Brasil, tornou-se um ser aviltado pelo contato com indivíduos que acenavam com as possibilidades de uma civilização e lhes davam roupas, anzóis, carabinas 22, lanternas e caramelos e não lhes forneciam material para conservação ou reposição. Como resultado, surgiu um indivíduo que, colocando a mesma roupa por dias e dias, após tomar seus banhos (normalmente o índio toma vários banhos ao dia) e com ela caminhar, sentar-se ao solo e tê-la desfiada ou rota pelos espinhos e galhos, assemelhava-se a um andrajoso mendigo; um indivíduo que, habituando-se a usar carabina para caçar e defender-se dos perigos da floresta, anzol para pescar, lanterna para iluminar suas pescarias noturnas, desaprendia, paulatinamente, a fazer seus arcos e flechas e com eles prover seu sustento e defesa, Ao não ter como substituir tais generosas dádivas, se tornava inferiorizado aos índios ainda não contatados e sem processo de aculturação, mas, sobretudo, ao garimpeiro e ao seringueiro. Um indivíduo cujos dentes faziam inveja e, por tê-los corroídos pelas bactérias, em conseqüência da fermentação dos açúcares, e de não poder escovar os dentes após ser agraciado com deliciosos caramelos, passou a sofrer com dores de dentes e a ostentar boca cheia de fragmentos esburacados. Da mesma maneira que a borboleta, atraída pelo brilho da chama, acaba tendo suas asas queimadas, a atração e o contato indiscriminado, não planejado, orientado e disciplinado, do índio com alguns aspectos de outra civilização e com seres humanos despreparados para tal, pelo subseqüente processo de aculturação, acabam consubstanciando uma transformação de pureza, em pobreza de índio. |
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