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PARQUE INDÍGENA DO XINGU
O Parque Indígena do Xingu, antes chamado de
Parque Nacional do Xingu, constitui uma reserva federal, criada
pelo Governo Brasileiro em 1961, através do Decreto 50.455 de 14
de abril de 1961, somando um total de cerca de 28.000 Km2, que teve
sua área diminuída na parte norte, em virtude da construção da BR-80
e, posteriormente, aumentada na parte sul em extensão equivalente.
A região é, na sua maior parte, de mata alta entremeada de campos
e cerrados e cortada pelos formadores do Xingu e seus primeiros
afluentes.
As matas que cobrem a região, embora não apresentem
a mesma exuberância das típicas florestas hileianas, em virtude
do menor porte de suas árvores, se enquadram perfeitamente no típico
cenário amazônico geral, dada a sua densidade, preponderância da
coloração verde escura e, sobretudo, pela continuidade da formação
florestal que se estende indefinidamente para todos os lados.
As raras áreas abertas que correm ao longo dos médios
e baixos cursos dos rios, ao sul, quando não simples clareiras,
não passam de varjões, às vezes amplos, mas limitados sempre pela
mata dominante.
Ao criar o Parque do Xingu, o governo brasileiro teve
em mira dois objetivos, ambos de elevado alcance: o primeiro e mais
importante, foi o de garantir a sobrevivência das numerosas tribos
indígenas da região, sendo que entre as medidas tomadas com esse
propósito, destacamos o isolamento do índio xinguano, para evitar
contatos prematuros, e quase sempre nocivos, com as frentes da sociedade
nacional em expansão. O segundo objetivo, também claramente expresso
no Decreto que instituiu o Parque, foi o de manter no centro do
País uma ampla reserva natural, onde a flora e a fauna guardassem
para o futuro um testemunho vivo do Brasil à época do Descobrimento.
A região do Alto-Xingu, com uma área aproximada de
200.000 km2, compreendia entre os paralelos 10 e 14, cortada ao
sul pelos formadores do Xingu e, ao norte, por este e seus afluentes
Suyá-Missu, Maritsauá-Missu e Jarina, constitui, na sua configuração
físico-fitogeográfica, uma extensa planície de características quase
inteiramente amazônicas.
Inserido nessa vasta região, correspondendo aproximadamente
a 15% do seu total - O Parque Indígena do Xingu é ocupado, imemorialmente,
por mais de uma dezena de tribos indígenas, como vêm provando as
sucessivas pesquisas de natureza arqueológica realizadas na área.
Essa ocupação, iniciada em tempos remotos, põe em
evidência a necessidade de manutenção dos limites do Parque, de
forma a preservar a sua área, uma vez que no sentido antropológico
e histórico este “Parque” já existia, como realidade antropogeográfica,
antes mesmo do decreto que o instituiu. Isto significa que a sua
criação veio apenas a reconhecer uma situação de fato, traduzida
na existência de diferentes grupos indígenas que, ao longo do tempo,
ajustaram-se uns aos outros, de modo a formarem o que hoje denominamos
“cultura xinguana”.
Aos elementos que integram essa cultura antiga, “xinguana”,
estratificada, outros grupos vieram se juntar em época recente.
Estão neste caso os índios “Kayabis” do vale do Tapajós; os “Txikãos”
ou “Ikpengs”, do Alto-Jatobá; os “Tapaiunas”, do Rio Arinos; e, finalmente,
os “Kranhacârores” (Kreen-Akrores) ou “Panarás”, deslocados do eixo da rodovia “Cuiabá-Santarém”.
Verificamos assim que o Parque além de representar o habitat secular
de muitas tribos, e também uma reserva natural de primeira importância,
vem se constituindo, nos últimos anos, em abrigo seguro de tribos
ou grupos ameaçados de extinção em suas terras de origem, seja pela
pressão direta de invasores civilizados (garimpeiros, seringueiros,
etc.), seja pela abertura de fazendas e rodovias.
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Aldeia Kamayurá
- vista aérea
Foto: Noel Villas Bôas |
Interior da casa
dos homens
Foto: Noel Villas Bôas |
Ocupação atual
Na parte sul do Parque, os grupos ligados à família
lingüística Karib (índios “Kuikuros”, “Kalapalos”, “Nafuquás” (ou Nahukwás)
e “Matipus”),
ocupam e usufruem de todos os recursos naturais da área que se estende
a leste e oeste do Rio Kuluene, no seu médio e baixo curso, desde
a foz do ribeirão Tuatuari até a embocadura do Rio Sete de Setembro;
os grupos da família Aruwak (“Waurás”, “Yawalapitis” e “Mehinakus”) mais
dispersos que os anteriormente citados, ocupam a margem esquerda
do Rio Kuluene, a partir da confluência deste rio com o Ronuro,
até a altura da foz do Rio Kurisevo; quanto aos índios do tronco
Tupi, localizados na metade sul do Parque (“Kamayurás” e “Awetis”),
estes residem e estendem suas atividades econômicas em toda a extensão
do pontal formado pelos rios Kuluene e Ronuro. Com relação aos Trumais,
de língua isolada, sabemos que tem sua aldeia em área de perambulação
à margem direita do Kuluene, entre a foz do Kurisevo e a confluência
formadora do Rio Xingu.
Ao norte, ou seja, na parte norte do Parque, temos
cinco tribos que, pela natureza das suas atividades econômicas,
índole, origem e outros fatores, apresentam traços de um comportamento
que as distingue, sob vários aspectos, dos grupos localizados ao
sul. Trata-se dos índios “Suyá”, “Menkrãgnonti”, ambos da família
lingüística Jê, bem como dos “Juruna”, de língua isolada; dos “Kayabís”
que pertencem ao tronco Tupi e, finalmente, dos “Tapaiunas” e dos
“Kranhacârores” ou “Panarás”, também incluídos entre os Jê. Todos
estes grupos, divididos em numerosas aldeias, têm na parte norte
do Parque a sua área de coleta, agricultura, caça e pesca.
Prosseguindo neste comentário sobre a realidade demográfica
do Parque, esclarecemos ainda que a parte Central do mesmo, isto
é, a que se estende entre as duas concentrações já referidas - sul
e norte - não constitui um vazio, mas sim uma área que está sendo
rapidamente ocupada por grupos “Kayabis” e “Txikãos”, cujas aldeias
erguem-se ao longo do Rio Xingu, tanto à margem direita, quanto
à esquerda.
Concluindo este breve relato, que reconhecemos incompleto,
queremos acentuar que os atuais povoadores indígenas do Alto Xingu,
estejam eles localizados no Sul, centro ou norte, formam hoje uma
unidade populacional, integrada através de um intercâmbio cada vez
mais intenso.
Assim, diante dessa situação de fato, entendemos que
o Parque Indígena do Xingu constitui um “habitat” indivisível, razão
pela qual reputamos nocivas quaisquer medidas que visem reduzir
ou fracionar sua área, que deve ser mantida, senão mesmo aumentada
de modo a integrar as nascentes dos formadores do Xingu, uma vez
que essas, estando atualmente fora dos limites do Parque, tem sofrido
a ação dos civilizados, com repercussão direta na vida das comunidades
indígenas do Xingu.
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Pátio da Aldeia Kamayurá
Foto: Noel Villas Bôas |
Localização e classificação
linguística
Como se disse, as tribos indígenas da área do Parque
são divididas em duas concentrações, uma no sul, outra no norte.
As populações do sul, culturalmente entrelaçadas,
estão radicadas na região dos formadores do Xingu. São elas: Kuikuro;
Kalapalo; Nafuquá; Matipu; Aipátse ou Tsúva (que falam a língua
Karib); Mehinaku; Waurá; Yawalapiti (Língua Aruak); Kamayurá (Língua
Tupi) e Aweti (que falam um dialeto do Tupi). As populações que formam
a concentração do Norte do Parque são as seguintes: Menkrãgonti
e Metotire (ou Mentuktire, também conhecida como Txukarramãe); Suyá; Kranhacârore
ou Panará (que atualmente vivem fora do Parque numa aldeia localizada
na região de seus antigos domínios), todos de língua Jê; Kayabi
(língua Tupi); Juruna (língua isolada, porém tupinizada); Trumai
(língua isolada); Txikão (língua supostamente Karib).
Por fim, vale ressaltar que há índios existentes na
área que ainda não foram contatados. O contato com eles tem sido
evitado a fim de que não paguem o tributo caro da atração. Esses
índios não estão em área ameaçada e rarissimamente dão sinal, o
que tem afastado qualquer motivo para a sua atração. Temos notícia
das seguintes tribos: Agavotoguenro; Yarúma ou Auiaku; Maritsauá.
Orlando Villas Bôas
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