Cristina Müller e Ulisses Capozoli

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Orlando Villas Bôas. Para a grande maioria das pessoas que ouviu falar de suas proezas é, com seus irmãos, Cláudio, Leonardo e Álvaro, sinônimo de índio, floresta e Brasil.
Aos 86 anos e meio século de convivência com o Brasil profundo, Orlando é o último dos três irmãos que lideraram a expedição Roncador-Xingu. Frente de exploração da Fundação Brasil Central, a expedição começou, em 1943, a abrir o Brasil interior ao Brasil litorâneo.
Contatando povos indígenas desconhecidos, ou de quem se sabia muito pouco, cartografando terras, abrindo pistas de apoio, a expedição Roncador-Xingu serviu para encurtar os caminhos na vasta região amazônica. Com suporte mínimo de terra, bases que hoje são cidades, povoados, aldeias e postos indígenas, as rotas aéreas do Brasil Central tornaram-se mais seguras e econômicas.
Antes mesmo do primeiro contato com seus anfitriões, ao abrir as picadas da civilização no vasto e desconhecido território colonizado por uma variedade de etnias indígenas, os Villas Bôas intuíram que haviam entrado em propriedade particular. Se outras expedições do gênero haviam falhado, resultando em mortes e desaparecimentos, teria sido principalmente por faltar respeito ao espaço territorial nativo.
Orlando, Cláudio, Leonardo e Álvaro cuidadosamente mapearam seus encontros com as 14 tribos indígenas com quem estabeleceram contato, obtendo sempre sua permissão tácita para instalar as bases da Fundação Brasil Central. Cientes da fragilidade das comunidades - tanto do ponto de vista da falta de imunidade às doenças da civilização ocidental, quanto do preparo militar - com as quais se deparavam, os Villas Bôas impediram que a política militarista se instalasse entre pessoas armadas apenas com flechas e os fuzis de um Brasil cada vez mais ansioso para encontrar novas frentes para a expansão econômica.
Contrários à ação colonizadora européia no Novo Mundo, quatro séculos depois, ao
descobrir intacto um universo de hábitos e ética inteiramente diferentes de quaisquer outros já experimentados por eles, os Villas Bôas enfrentaram maravilhados as diferenças que desvendavam-se diante de seus olhos. A medida que embrenhavam-se na mata, os irmãos percebiam com crescente clareza, que cada uma das tribos assentadas às margens do rio Xingu e seus afluentes tinha sua própria cultura e identidade.
Mais que estreitar espaços, os Villas Bôas preservaram vidas humanas, culturas antigas, valores que, perdidos, não podem mais ser recuperados. Eles garantiram a sobrevivência de nações inteiras ao consolidar, com a orientação humanista do marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, o apoio do antropólogo Darcy Ribeiro e do sanitarista Noel Nutels, o Parque Indígena do Xingu.
Orlando e seu irmão Cláudio foram indicados para o prêmio Nobel da Paz em 1976, pelo resgate das tribos xinguanas.
Mais que impedir que a civilização engolisse a culturas das tribos do Xingu, os Villas Bôas promoveram a paz entre comunidades em guerra há dezenas de anos. Unidas, seriam capazes de melhor manter a hegemonia de suas terras ancestrais e de seu modo de vida.
Nascido numa fazenda de café no interior de São Paulo, em 12 de janeiro de 1914, Orlando fora forçado pela morte dos pais a deixar os estudos para ajudar a sustentar os oito irmãos. Sem o segundo grau completo, ao longo dos anos, sua vivência no Xingu levou-o a publicar, em co-autoria principalmente com seu irmão Cláudio, 12 livros e inúmeros artigos em jornais e revistas internacionais, como a National Geographic Magazine. Juntos e individualmente, os irmãos receberam honras acadêmicas, cidadanias e títulos honorários, homenagens a sua atuação na política de proteção à cultura indígena.
A principal conquista dos Villas Bôas, um mosaico de línguas, memória do Brasil que Cabral encontrou, o Xingu é também uma promessa de futuro, um aceno para a convivência pacífica de valores diversos, nem superiores, nem inferiores. Apenas diferentes, como são diferentes as milhões de formas de vida sobre a Terra.
A história dos Villas Bôas começou em 1941, quando decidiram se incorporar à expedição. Nesse tempo, nem eles sabiam que só deixariam a mata mais de 40 anos depois. Mas nunca ficarão inteiramente separados dela. A mata e seus habitantes deixaram nos Villas Bôas as suas marcas indeléveis. As histórias vividas por Orlando na mata encantarão ainda muitos outros povos, muito além das fronteiras do Brasil. No espaço e no tempo.
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